O brilho da estrela mais próxima da terra às três da tarde em São Luís não perdoa poetas nem azulejos. Refletia-se nas fachadas coloniais da Praia Grande com uma insolência que transformava a história em um espelho cegante. Brilha mais anda nos couros bordados do Bumba-meu-meu, patrimônio imaterial de nossa cultura. Lázaro estava sentado em uma mesa de ferro bamba, na sombra precária de um sobrado da Rua do Giz, tentando capturar a alma daquela cidade em uma folha de papel pautado. Mas a alma de São Luís era uma substância escorregadia, feita de paradoxos. Diante dele, a herança da Atenas Brasileira impunha uma gravidade solene; atrás dele, vindo de algum bar na Rua da Estrela, o grave de uma radiola anunciava que ali também era a Jamaica Brasileira.
Ele segurava a caneta como quem segura um bisturi, buscando a incisão perfeita, mas a mão tremia. Não de medo, mas de vibração. O problema residia na sintaxe. Como conciliar a rigidez gramatical de Odorico Mendes, aquele purismo que parecia emanar das pedras de cantaria que calçavam as ladeiras, com a liberdade sincopada de um roots reggae que invadia os ouvidos e desorganizava os batimentos cardíacos?
Lázaro escreveu: "A cidade repousa sobre ombros de pedra..."
Parou. Riscou.
Muito estático. A cidade não repousava; ela dançava, mesmo quando parada. As pedras de cantaria, trazidas de Portugal como lastro de navios séculos atrás, compunham o chão onde pisavam os fantasmas dos grandes literatos. Ali, diziam, falava-se o melhor português do Brasil. O fantasma da ênclise e da mesóclise assombrava cada esquina. "Dier-se-ia que a beleza..." , não, impossível. Lázaro olhou para o copo de Guaraná Jesus à sua frente, o líquido cor-de-rosa tremulando em anéis concêntricos a cada batida do baixo que vinha do sistema de som distante.
Aquele tremor no líquido era a verdadeira crônica.
Ele tentou novamente. Queria descrever o casarão à sua frente, com seus arcos ogivais e o lodo verde que crescia na junção das pedras, testemunha da umidade equatorial que apodrecia livros e memórias. Mas a música era uma intrusa persistente. Era uma "pedra" — gíria local para uma faixa de reggae clássica e pesada — girando em algum vinil arranhado. O som "chiado" e o "bum-bum-bum" do baixo formavam uma métrica que não cabia nos versos decassílabos que a tradição da Atenas exigia.
— Está brigando com o papel de novo, Lázaro? — A voz rouca do garçom, um homem idoso que já vira mais poetas fracassados do que marés no Rio Anil, o tirou do transe.
— Estou tentando costurar dois tecidos que não combinam, Seu Zé. — Respondeu Lázaro, largando a caneta sobre a mesa. — A cidade quer ser mármore, mas o corpo dela é ginga. Como é que se escreve o som de um paredão de som usando a gramática de Gonçalves Dias?
O velho riu, recolhendo um prato vazio da mesa vizinha.
— O senhor pensa demais. O povo aqui dança agarrado no azulejo. A pedra fria gosta do calor do corpo. Não tem briga não, doutor. É tudo a mesma quentura.
Lázaro observou o homem se afastar com a bandeja equilibrada numa dança natural. Talvez ele estivesse certo. A dualidade não era um duelo, era um dueto. Ele olhou para o calçamento irregular da rua. As pedras de cantaria, blocos brutos de lioz, eram irregulares, cheias de texturas, assim como o ritmo que flutuava no ar parado da tarde.
Fechou os olhos e tentou ouvir a cidade não como um cenário, mas como um texto. Havia o barulho seco dos sapatos sociais dos advogados subindo a ladeira, marcando um compasso binário, rígido, burocrático. Havia o grasnar das gaivotas sobre o cais, pontuando o céu como vírgulas aéreas. E havia o reggae, onipresente, uma linha de base, um travessão contínuo que sustentava todo o discurso urbano.
A escrita precisava perder a gravata. Lázaro percebeu que seu erro era tentar "explicar" a mistura, quando deveria apenas "ritmá-la". A erudição de São Luís não estava na pureza vocabular, mas na capacidade antropofágica de engolir o mundo e devolvê-lo transformado. A cidade absorvera a métrica europeia e a percussão caribenha e criara algo que só existia ali, naquela ilha magnética como um dia afirmara César Nascimento.
Pegou a caneta novamente. Dessa vez, não buscou adjetivos grandiloquentes. Buscou o som.
"O azulejo estala no contratempo."
Melhor. Começava a fazer sentido. A arquitetura não era um monumento morto; era uma caixa de ressonância. O poema precisava ser lido no tempo da música. As sílabas tônicas deviam cair onde o pé batia no chão. A erudição da "Atenas" fornecia o vocabulário, vasto, rico, cheio de nuances, mas a "Jamaica" fornecia a sintaxe do corpo, a ordem em que as palavras se moviam no espaço da página.
Um grupo de turistas passou, guiado por alguém que recitava datas e nomes de governadores mortos. Eles olhavam para as sacadas de ferro fundido, admirados. Mas não viam o que Lázaro via: que aquelas sacadas eram pautas musicais vazias esperando as notas. Não sentiam que a umidade que fazia o reboco descascar era a mesma que lubrificava as articulações dos dançarinos nos clubes de reggae da periferia.
A escrita, pensou ele, é um ato de ritmo. Se a frase não tem balanço, ela cai morta antes do ponto final. O escritor em São Luís tem que ser um DJ de fonemas. Tem que saber a hora de soltar a frase longa, melancólica como um fado, e a hora de cortar, secar, sincopar como um dub.
A música no bar aumentou. O refrão, em um inglês macarrônico que ninguém se importava em traduzir porque o sentido estava na vibração e não na letra, invadiu a praça. Lázaro deixou-se levar. Sua letra cursiva, geralmente tão desenhada e escolar, começou a ficar mais solta, mais agressiva. As letras ganharam ângulos, perderam a curvatura barroca e ganharam a urgência da rua.
Ele escreveu sobre a "pedra" que é música e a "pedra" que é muro. Sobre como ambas são duras, mas só uma faz flutuar. Escreveu sobre o poeta que morre de tuberculose e o rastafári que vive de brisa. No papel, as duas figuras se encontravam no Beco da Catarina Mina, trocavam um cumprimento silencioso e seguiam juntas, uma recitando versos em latim, a outra cantarolando Bob Marley.
De repente, a tinta falhou. Lázaro sacudiu a caneta. O fluxo parou justamente na palavra "silêncio". Uma ironia fina. A cidade nunca estava em silêncio, nem mesmo em suas bibliotecas. Os livros sussurravam, as pedras estalavam com o calor, o mar batia nas muralhas do palácio. O silêncio era uma invenção dos gramáticos. A vida era ruído.
Ele olhou para o resultado. O poema era torto, assimétrico, sujo. Tinha marcas de suor onde ele apoiara o punho e uma mancha rosa de guaraná no canto inferior. Não era um soneto parnasiano. Não ganharia prêmios na Academia Maranhense de Letras pela correção formal. Mas tinha pulso. Se ele encostasse o ouvido no papel, podia jurar que ouviria o baixo retumbando. Algo que faria Lourival Serejo julgar que aquilo era pura literatura Maranhense das mais brasileiras possíveis.
O entardecer trouxe uma mudança na luz. O amarelo agressivo tornou-se um dourado melancólico, típico daquela posição equatorial. As pedras de cantaria pareciam amolecer, transformando-se em ouro líquido por alguns minutos. Lázaro sentiu uma exaustão física, como se tivesse dançado a noite inteira, embora não tivesse saído da cadeira. Escrever duelando com a cidade exigia músculos que a anatomia desconhecia.
Não adiantava duelar com a história, a ideologia Ludovicense não deixava a ilha do amor melhor do que ninguém, a cultura estava após o estreito dos mosquitos fazendo da Atenas e da Jamaica brasileiras corpos inseparáveis de gêmeos siameses.
Levantou-se, guardando o caderno no bolso de trás da calça jeans. O volume do papel amassado pressionava contra o corpo, um lembrete físico da batalha travada. Pagou a conta com notas miúdas, amassadas como seus rascunhos.
Saiu caminhando em direção à Fonte do Ribeirão. Seus passos, inconscientemente, seguiam o ritmo que ainda ecoava em sua cabeça. Um pé na erudição, outro na vibração. Tinha capturado algo, sim. Não a cidade inteira , isso seria impossível, pois São Luís se reinventava a cada maré, mas capturara o atrito. E era no atrito, na faísca entre a pedra erudita e o som popular, que a literatura acontecia de verdade.
Enquanto descia a ladeira, cruzou com um grupo de estudantes uniformizados, rindo alto e falando numa velocidade que desafiava qualquer dicionário. Suas gírias cortavam o ar, rápidas e incompreensíveis para os ouvidos destreinados, uma nova camada de linguagem sendo cimentada sobre as pedras antigas. Lázaro sorriu. O ritmo das pedras de cantaria havia, finalmente, encontrado seu compasso na página, mas a cidade já estava criando, ali na calçada, a próxima gramática que ele precisaria decifrar. A fusão entre a Atenas e a Jamaica não era o fim do processo, era apenas a base, o alicerce sólido e vibrante sobre o qual novos neologismos continuariam a ser erguidos e demolidos.
Por José Casanova
professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade