A UNEGRO APOIA O BLOG DIÁRIO DO MEARIM

PONHA AQUI A PROPAGANDA DE SUA EMPRESA

Roberto Costa é eleito presidente da FAMEM para o biênio 2025/2026

FAMEN coloca Bacabal e Roberto Costa em evidência

Flamengo pode ter mudança diante do Bangu em São Luís

Técnico Cléber do Santos pode apostar em trio de ataque nesta noite no Castelão.

Sessão Solene na Câmara Municipal de Bacabal Celebra o Dia Internacional da Mulher

Vereadoras Nathália Duda e Regilda Santos conduzem Sessão Solene

Mostrando postagens com marcador JAMAICA BRASILEIRA. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador JAMAICA BRASILEIRA. Mostrar todas as postagens

domingo, 22 de fevereiro de 2026

CRÔNICA DOI DIA: O Ritmo das Pedras de Cantaria


O brilho da estrela mais próxima da terra às três da tarde em São Luís não perdoa poetas nem azulejos. Refletia-se nas fachadas coloniais da Praia Grande com uma insolência que transformava a história em um espelho cegante. Brilha mais anda nos couros bordados do Bumba-meu-meu, patrimônio imaterial de nossa cultura. Lázaro estava sentado em uma mesa de ferro bamba, na sombra precária de um sobrado da Rua do Giz, tentando capturar a alma daquela cidade em uma folha de papel pautado. Mas a alma de São Luís era uma substância escorregadia, feita de paradoxos. Diante dele, a herança da Atenas Brasileira impunha uma gravidade solene; atrás dele, vindo de algum bar na Rua da Estrela, o grave de uma radiola anunciava que ali também era a Jamaica Brasileira.

Ele segurava a caneta como quem segura um bisturi, buscando a incisão perfeita, mas a mão tremia. Não de medo, mas de vibração. O problema residia na sintaxe. Como conciliar a rigidez gramatical de Odorico Mendes, aquele purismo que parecia emanar das pedras de cantaria que calçavam as ladeiras, com a liberdade sincopada de um roots reggae que invadia os ouvidos e desorganizava os batimentos cardíacos?

Lázaro escreveu: "A cidade repousa sobre ombros de pedra..."

Parou. Riscou.

Muito estático. A cidade não repousava; ela dançava, mesmo quando parada. As pedras de cantaria, trazidas de Portugal como lastro de navios séculos atrás, compunham o chão onde pisavam os fantasmas dos grandes literatos. Ali, diziam, falava-se o melhor português do Brasil. O fantasma da ênclise e da mesóclise assombrava cada esquina. "Dier-se-ia que a beleza..." , não, impossível. Lázaro olhou para o copo de Guaraná Jesus à sua frente, o líquido cor-de-rosa tremulando em anéis concêntricos a cada batida do baixo que vinha do sistema de som distante.

Aquele tremor no líquido era a verdadeira crônica.

Ele tentou novamente. Queria descrever o casarão à sua frente, com seus arcos ogivais e o lodo verde que crescia na junção das pedras, testemunha da umidade equatorial que apodrecia livros e memórias. Mas a música era uma intrusa persistente. Era uma "pedra" — gíria local para uma faixa de reggae clássica e pesada — girando em algum vinil arranhado. O som "chiado" e o "bum-bum-bum" do baixo formavam uma métrica que não cabia nos versos decassílabos que a tradição da Atenas exigia.

— Está brigando com o papel de novo, Lázaro? — A voz rouca do garçom, um homem idoso que já vira mais poetas fracassados do que marés no Rio Anil, o tirou do transe.

— Estou tentando costurar dois tecidos que não combinam, Seu Zé. — Respondeu Lázaro, largando a caneta sobre a mesa. — A cidade quer ser mármore, mas o corpo dela é ginga. Como é que se escreve o som de um paredão de som usando a gramática de Gonçalves Dias?

O velho riu, recolhendo um prato vazio da mesa vizinha.

— O senhor pensa demais. O povo aqui dança agarrado no azulejo. A pedra fria gosta do calor do corpo. Não tem briga não, doutor. É tudo a mesma quentura.

Lázaro observou o homem se afastar com a bandeja equilibrada numa dança natural. Talvez ele estivesse certo. A dualidade não era um duelo, era um dueto. Ele olhou para o calçamento irregular da rua. As pedras de cantaria, blocos brutos de lioz, eram irregulares, cheias de texturas, assim como o ritmo que flutuava no ar parado da tarde.

Fechou os olhos e tentou ouvir a cidade não como um cenário, mas como um texto. Havia o barulho seco dos sapatos sociais dos advogados subindo a ladeira, marcando um compasso binário, rígido, burocrático. Havia o grasnar das gaivotas sobre o cais, pontuando o céu como vírgulas aéreas. E havia o reggae, onipresente, uma linha de base, um travessão contínuo que sustentava todo o discurso urbano.

A escrita precisava perder a gravata. Lázaro percebeu que seu erro era tentar "explicar" a mistura, quando deveria apenas "ritmá-la". A erudição de São Luís não estava na pureza vocabular, mas na capacidade antropofágica de engolir o mundo e devolvê-lo transformado. A cidade absorvera a métrica europeia e a percussão caribenha e criara algo que só existia ali, naquela ilha magnética como um dia afirmara César Nascimento.

Pegou a caneta novamente. Dessa vez, não buscou adjetivos grandiloquentes. Buscou o som.

"O azulejo estala no contratempo."

Melhor. Começava a fazer sentido. A arquitetura não era um monumento morto; era uma caixa de ressonância. O poema precisava ser lido no tempo da música. As sílabas tônicas deviam cair onde o pé batia no chão. A erudição da "Atenas" fornecia o vocabulário, vasto, rico, cheio de nuances, mas a "Jamaica" fornecia a sintaxe do corpo, a ordem em que as palavras se moviam no espaço da página.

Um grupo de turistas passou, guiado por alguém que recitava datas e nomes de governadores mortos. Eles olhavam para as sacadas de ferro fundido, admirados. Mas não viam o que Lázaro via: que aquelas sacadas eram pautas musicais vazias esperando as notas. Não sentiam que a umidade que fazia o reboco descascar era a mesma que lubrificava as articulações dos dançarinos nos clubes de reggae da periferia.

A escrita, pensou ele, é um ato de ritmo. Se a frase não tem balanço, ela cai morta antes do ponto final. O escritor em São Luís tem que ser um DJ de fonemas. Tem que saber a hora de soltar a frase longa, melancólica como um fado, e a hora de cortar, secar, sincopar como um dub.

A música no bar aumentou. O refrão, em um inglês macarrônico que ninguém se importava em traduzir porque o sentido estava na vibração e não na letra, invadiu a praça. Lázaro deixou-se levar. Sua letra cursiva, geralmente tão desenhada e escolar, começou a ficar mais solta, mais agressiva. As letras ganharam ângulos, perderam a curvatura barroca e ganharam a urgência da rua.

Ele escreveu sobre a "pedra" que é música e a "pedra" que é muro. Sobre como ambas são duras, mas só uma faz flutuar. Escreveu sobre o poeta que morre de tuberculose e o rastafári que vive de brisa. No papel, as duas figuras se encontravam no Beco da Catarina Mina, trocavam um cumprimento silencioso e seguiam juntas, uma recitando versos em latim, a outra cantarolando Bob Marley.

De repente, a tinta falhou. Lázaro sacudiu a caneta. O fluxo parou justamente na palavra "silêncio". Uma ironia fina. A cidade nunca estava em silêncio, nem mesmo em suas bibliotecas. Os livros sussurravam, as pedras estalavam com o calor, o mar batia nas muralhas do palácio. O silêncio era uma invenção dos gramáticos. A vida era ruído.

Ele olhou para o resultado. O poema era torto, assimétrico, sujo. Tinha marcas de suor onde ele apoiara o punho e uma mancha rosa de guaraná no canto inferior. Não era um soneto parnasiano. Não ganharia prêmios na Academia Maranhense de Letras pela correção formal. Mas tinha pulso. Se ele encostasse o ouvido no papel, podia jurar que ouviria o baixo retumbando. Algo que faria Lourival Serejo julgar que aquilo era pura literatura Maranhense das mais brasileiras possíveis.

O entardecer trouxe uma mudança na luz. O amarelo agressivo tornou-se um dourado melancólico, típico daquela posição equatorial. As pedras de cantaria pareciam amolecer, transformando-se em ouro líquido por alguns minutos. Lázaro sentiu uma exaustão física, como se tivesse dançado a noite inteira, embora não tivesse saído da cadeira. Escrever duelando com a cidade exigia músculos que a anatomia desconhecia.

Não adiantava duelar com a história, a ideologia Ludovicense não deixava a ilha do amor melhor do que ninguém, a cultura estava após o estreito dos mosquitos fazendo da Atenas e da Jamaica brasileiras corpos inseparáveis de gêmeos siameses.

Levantou-se, guardando o caderno no bolso de trás da calça jeans. O volume do papel amassado pressionava contra o corpo, um lembrete físico da batalha travada. Pagou a conta com notas miúdas, amassadas como seus rascunhos.

Saiu caminhando em direção à Fonte do Ribeirão. Seus passos, inconscientemente, seguiam o ritmo que ainda ecoava em sua cabeça. Um pé na erudição, outro na vibração. Tinha capturado algo, sim. Não a cidade inteira , isso seria impossível, pois São Luís se reinventava a cada maré, mas capturara o atrito. E era no atrito, na faísca entre a pedra erudita e o som popular, que a literatura acontecia de verdade.

Enquanto descia a ladeira, cruzou com um grupo de estudantes uniformizados, rindo alto e falando numa velocidade que desafiava qualquer dicionário. Suas gírias cortavam o ar, rápidas e incompreensíveis para os ouvidos destreinados, uma nova camada de linguagem sendo cimentada sobre as pedras antigas. Lázaro sorriu. O ritmo das pedras de cantaria havia, finalmente, encontrado seu compasso na página, mas a cidade já estava criando, ali na calçada, a próxima gramática que ele precisaria decifrar. A fusão entre a Atenas e a Jamaica não era o fim do processo, era apenas a base, o alicerce sólido e vibrante sobre o qual novos neologismos continuariam a ser erguidos e demolidos.

Por José Casanova
professor, Jornalista, Escritor  e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade