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quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Mais um lavrador é assassinado em assentamento de Santa Luzia

POR OSWALDO VIVIANI-nJP

O lavrador João Conceição da Silva, de 29 anos, foi assassinado no início da noite de sábado (24), no assentamento Flexal (município de Santa Luzia do Tide, a 294 quilômetros de São Luís). João Conceição foi morto com um tiro de espingarda calibre 20, perto de um açude, a 3 quilômetros da sede do assentamento. O disparo acertou a vítima no peito esquerdo.
Há pelo menos duas versões quanto à motivação do crime. Pode estar ligado, segundo o irmão do lavrador, o mecânico lanterneiro Antônio Conceição da Silva, 33, ao conflito entre líderes de associações de assentados por recursos do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) ou, de acordo com declaração do delegado Carlos Alessandro Rodrigues Assis, de Buriticupu, a um desentendimento vinculado ao tráfico de drogas.
A versão de motivação ligada ao conflito entre assentados se apóia no fato de o pai da vítima – Antonio Ribeiro da Silva, de 63 anos – ter sido vice-presidente da Associação dos Pequenos Trabalhadores Rurais do Povoado Flexal, que teve seu presidente, Francisco Vieira Viana, o “Chico Caçador”, assassinado por pistoleiros, em 4 de abril do ano passado.
Segundo investigações da polícia e do Ministério Público Estadual, a empresa Flechal Construções e Empreendimentos Ltda ganhou licitação para construir 31 casas no assentamento. Como adiantamento sacou R$ 44 mil reais da conta da associação, mas nunca ergueu nenhuma moradia. “Chico Caçador” denunciou o sumiço do dinheiro e foi executado. Os donos da Flechal Construções – Francisco de Araújo Sales e Francisco Matias da Silva – foram presos dois meses depois do assassinato de “Chico Caçador”, mas já estão soltos.
As fraudes envolvendo desvios de recursos do Incra que deveriam ser destinados à construção e reforma de casas em assentamentos rurais levaram a Polícia Federal e desencadear, no final de fevereiro passado, a Operação Donatário, que
cumpriu 39 mandados de busca e apreensão de documentos na sede do órgão, no Anil. Dois ex-presidentes do Incra-MA, Benedito Terceiro e Raimundo Monteiro estão entre os envolvidos na investigação da PF
Tráfico de drogas – Já de acordo com a versão sustentada pelo delegado Carlos Alessandro, o lavrador João Conceição da Silva teria sido visto, momentos antes de ser morto, bebendo na companhia de três homens – Antonio Alves Martins, conhecido como “Índio”; Getúlio Lopes de Melo; e e Dioquino dos Santos da Silva. Segundo o delegado, os três são usuários de maconha, e João Conceição lhes fornecia a droga. Um desentendimento durante a negociação teria gerado o homicídio de João Conceição.
Ontem à tarde, o delegado Carlos Alessandro informou ao Jornal Pequeno que Índio, Getúlio e Dioquino foram presos por policiais de Buriticupu na terça-feira (27), às 17h, no assentamento Flexal, sendo conduzidos na manhã de ontem (28) para Santa Luzia.
Com Getúlio e Dioquino, a polícia encontrou espingardas de fabricação artesanal. Já “Índio” guardava em sua casa uma espingarda calibre 20, compatível com a arma do crime.
O caso será investigado pelo delegado Estefânio Assunção Aragão, da delegacia regional de Santa Luzia. O delegado agrário Domingos Cartaxo também acompanhará a apuração do crime.
Ontem (28), o irmão da vítima, Antonio Conceição Silva, que mora em Parauapebas (PA), esteve na sede do Comando da Polícia Militar, onde pediu ao coronel Flávio Antonio Silva de Jesus (representante agrário da PM-MA) segurança policial para retirar do assentamento Flexal seu pai, Antonio Ribeiro da Silva, sua mãe, Maria da Conceição, e seu irmão, Miguel Conceição da Silva.
Segundo Antonio Conceição afirmou ao JP, seus familiares correm risco de morte caso permaneçam na região.
O comandante da PM-MA, coronel Franklin Pachêco, acatou o pedido, e o pai, a mãe e o irmão do lavrador assassinado devem ir para o município de Lago Verde.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Capturada quadrilha especializada em roubo de cargas em Santa Luzia

Policiais civis prenderam, no município de Santa Luzia do Tide, quatro pessoas acusadas de integrar uma quadrilha especializada em roubo de cargas. Os suspeitos foram presos após uma denúncia anônima, passada ao delegado Marconi Matos, titular do 2° Distrito Policial de Santa Inês, informando que um caminhão havia deixado várias mercadorias em uma residência.
Foto: Divulgação
Membros da quadrilha presa em Santa Luzia do Tide
Com isso, os investigadores se deslocaram para o local suspeito e lá encontraram vários eletrodomésticos. “Ao constatarmos a veracidade da denúncia prendemos a proprietária do domicílio, Vânia Rocha; e começamos a investigar até chegar aos donos da mercadoria, quando conseguimos prender Gilson Magno dos Santos, de 31 anos”, relatou o delegado. O acusado confessou o crime e disse ter praticado junto com seu companheiro, identificado apenas como “Robson”, que está preso no Pará.
Segundo Gilson, foi Robson que teve a ideia de matar o vigilante do local de onde subtraíram o caminhão, lotado de móveis e eletrodomésticos, mercadorias avaliadas em cerca de R$ 100 mil. A carga havia sido subtraída na cidade de Parauapebas, no Pará. Em seguida foram presos Raimundo de Lima Conceição e Cláudio Alencar Traquino, que estavam à espera dos produtos roubados.
Os acusados foram interrogados pelo delegado Marconi Matos. Gilson, Raimundo e Cláudio foram autuados por latrocínio e formação de quadrilha, e Vânia por receptação.
FONTE: Por Valquíria Ferreira

domingo, 4 de setembro de 2011

Moradores de Campo Grande, povoado de Santa Luzia/MA, reivindicam estrada

POR ZEMA RIBEIRO*
ESPECIAL PARA O JORNAL PEQUENO

Mesmo no “conforto” do banco traseiro de uma caminhonete com tração nas quatro rodas, a viagem da sede de Santa Luzia – município distante 294 km de São Luís – até o povoado Campo Grande é dolorida e cansativa. Imaginemos agora a situação de quem tem de fazê-la no desconforto de bancos dos chamados “paus de arara” – que ali servem até mesmo de transporte escolar – ou em situações piores, como será relatado.
São “apenas” 62 km, mas as aspas colocadas aí se justificam pelo fato de a distância não ser percorrida em menos de duas horas – raro é o trecho em que o motorista consegue ultrapassar a média de 30 km/h. Terra, barro e areia se alternam na geografia do tortuoso caminho, com o carro “sobrevoando” mais de 20 pontes – todas de madeira e em péssimo estado de conservação; em alguns locais, já nem existem – e muita poeira.
Sorte que o veículo ultrapassa os córregos mais rasos. Em algumas das pontes precárias o equilíbrio do veículo – e, antes, das pontes, em si – impressionava fiéis católicos e/ou evangélicos: os padres, no carro, tinham mesmo parte com o homem lá em cima, só um milagre impede a queda daquelas estruturas de madeira. “É a vida como ela é”, alertou-me um dos passageiros, citando um Nelson Rodrigues que provavelmente nunca leu, “sem palavras para enfeitar. Por que às vezes a linguagem distorce a realidade”, mandou, já sabendo que eu era “o jornalista”; o repórter viajou a convite das Redes e Fóruns de Justiça e Cidadania do Maranhão.
Na tarde quente da última segunda-feira, 29 de agosto, a reportagem encontrou mais de 200 pessoas, de 25 povoados acessados pela estrada – ou o estirão que deveria ser uma – em audiência marcada para reivindicá-la. Convocada pela Organização de Cidadania e Combate às Injustiças Sociais de Santa Luzia (OCCIS-SL), organização não-governamental que trabalha “em prol da efetivação de direitos no município e região”, como se define em sua página na internet, contou ainda com a presença de representantes da Igreja Católica, Redes e Fóruns de Justiça e Cidadania do Maranhão, Cáritas Brasileira Regional Maranhão e Ministério Público Estadual, além de lideranças comunitárias.
A reivindicação da população é justa: da Parada do Gavião – primeiro povoado, vizinho ao asfalto, na divisa com a sede – ao Campo Grande, passando por tantos outros, o que se vê é o descalabro já narrado em nossos primeiros parágrafos. O prefeito Márcio Leandro Antezana Rodrigues, no entanto, alega que a estrada está 80% pronta, de acordo com relatos dos presentes. A vista míope do repórter, no entanto não se engana: vê, in loco, a situação da estrada, e lê a ação civil pública ajuizada pelo promotor de Justiça Joaquim Ribeiro de Souza Junior, em 28 de junho passado, de que colhemos trecho: “A aludida estrada vicinal, em razão da falta de conservação a cargo do Poder Público, praticamente não existe mais. O que resta são buracos, lama e pedaços de pontes suficientes apenas para a travessia dos que desejarem expor sua vida a perigo”. Outra ação civil pública, por ato de improbidade administrativa, foi ajuizada, na mesma data, ambas fundamentadas em abaixo-assinados com milhares de assinaturas de luzienses.
Não é ficção de qualquer mestre da literatura que use o Nordeste como cenário. Vários relatos foram ouvidos na audiência sobre mulheres em trabalho de parto, doentes e até mesmo mortos transportados em redes, carregados por pessoas a pé, ao longo da estrada até a sede, em busca de atendimento médico ou cemitério – no inverno, com as atuais condições da estrada, veículos simplesmente não trafegam. A produção agrícola da região não pode ser escoada e outros produtos não conseguem chegar, ao menos enquanto o tempo não seca.
Os povoados dispõem apenas de ensino fundamental; alunos do ensino médio têm que se deslocar até a sede. No período chuvoso, todos ficam sem aula e alimentação escolar: no caso dos segundos, não a como levar; no dos primeiros, não a como as professoras viajarem. Mais de sete mil pessoas dependem da estrada, quase 10% da população luziense, estimada em 85 mil habitantes pelo último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Cadê o dinheiro? – Ninguém sabe onde foram parar os R$ 720 mil oriundos de convênio, assinado em 1º de junho de 2010, entre a Prefeitura de Santa Luzia e o Departamento Estadual de Infraestrutura (Deint), destinados justamente à recuperação de estradas vicinais. Um documento assinado pelo secretário de Obras do município, Francisco Carlos Nascimento Braide, dá conta da construção e/ou recuperação das pontes do percurso.
“A estrada foi eleita como primeiro problema: ela é um direito negado, o de ir e vir; e com ele, todos os outros direitos são também negados: saúde, educação, alimentação”, afirmou Dimas da Silva, monitor estadual das Redes e Fóruns de Cidadania do Maranhão.
Até o fechamento da matéria, a reportagem não conseguiu ouvir algum representante da Prefeitura de Santa Luzia.
*Zema Ribeiro é assessor de comunicação da Cáritas Brasileira Regional Maranhão