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quarta-feira, 4 de março de 2026

CRôNICA DO DIA : A Brevidade das Horas em Alto Alegre


Em Alto Alegre do Maranhão, o tempo não se mede em horas, mas em sombras. Quando o sol atinge o pico, não é meio-dia; é a hora em que a enxada para. O poeta, recém-chegado da capital com a bagagem cheia de livros e a cabeça lotada de metáforas barrocas, sentou-se num toco de madeira observando o movimento da roça. Diante dele, a vastidão da terra batida exigia uma descrição, e sua mão, viciada em floreios, começou a traçar no caderno: "A terra vermelha, sedenta e ancestral, estendia-se como um tapete sangrento sob o pálido manto do céu equatorial..."

Ele parou. Releu. A frase parecia uma mentira.

Olhou para Seu Inácio, um homem cuja pele tinha a textura de couro curtido e que estava ali perto, amolando um facão com uma pedra lisa. O movimento era rítmico, preciso. Chissss, chissss. Não havia desperdício de energia. O poeta sentiu vergonha de seus adjetivos. Chamar a terra de "ancestral" era uma redundância que a própria terra ignorava; ela simplesmente era. Chamar o céu de "manto equatorial" era enfeitar o que servia apenas para cobrir e queimar.

— O senhor acha que chove hoje? — Perguntou o poeta, tentando quebrar o silêncio denso que se formava entre a literatura e a realidade.

Seu Inácio parou o facão no ar, testou o fio com a polegar calejada e olhou para cima.

— Chove.

A resposta veio seca, um substantivo e um verbo implícito na certeza do tom. Não houve "talvez", nem "quem sabe", nem descrições sobre a umidade relativa do ar ou a cor das nuvens. A vida rural, percebeu o poeta, não tinha paciência para advérbios de dúvida. A sobrevivência em Alto Alegre dependia da precisão. Se a chuva vem, planta-se. Se não vem, espera-se. O rodeio linguístico era um luxo urbano, uma extravagância de quem tem tempo garantido e supermercado na esquina.

O poeta riscou a frase anterior no caderno. Tentou de novo, buscando mimetizar a economia do homem ao seu lado.

"A terra é vermelha. O céu queima."

Melhor. Mas ainda sentia que sobrava algo. "Vermelha" e "queima" eram óbvios para quem estava ali. A redundância era o pecado capital daquele lugar. Na cidade, o excesso de palavras servia para preencher o vazio existencial dos elevadores e das reuniões corporativas. Ali, o vazio não existia; tudo estava cheio de propósito. A galinha ciscava para comer. O vento soprava para espalhar semente. A palavra, portanto, só deveria existir se tivesse a função de uma ferramenta: cortar, plantar, colher, curar.

Ele observou uma mulher passando com uma trouxa de roupa na cabeça, equilibrando o peso com uma dignidade vertical invejável. Quis escrever que ela caminhava "com a elegância de uma rainha destronada", mas se conteve. A mulher caminhava para lavar roupa. Ponto. A poesia não estava na comparação que ele forçava sobre a cena, mas na ação bruta e necessária dela. Adjetivar o caminhar daquela mulher era desrespeitar o peso que ela carregava. O adjetivo, pensou ele com um travo amargo na boca, é muitas vezes a maquiagem da covardia de encarar o substantivo nu.

A tarde avançava e a luz mudava, tornando as sombras mais longas e nítidas. O poeta percebeu que a brevidade das horas no campo era uma ilusão. O dia parecia curto porque não havia tédio, apenas ciclo. O texto que tentava nascer ali precisava obedecer a essa mesma lei física. Cada palavra tinha que pagar seu aluguel na página. Se uma vírgula não sustentasse o sentido da oração, deveria ser capinada como erva daninha que rouba nutrientes do feijão.

— A escrita do senhor rende? — Perguntou Seu Inácio, guardando a pedra de amolar no bolso da calça frouxa.

— Rende muito mato, Seu Inácio. Estou tentando limpar — Respondeu o poeta, aceitando a metáfora agrícola.

— Mato alto esconde cobra. — Sentenciou o velho, levantando-se. — Melhor deixar o terreiro limpo.

Aquela frase ecoou na mente do escritor como um mandamento estético definitivo. "Mato alto esconde cobra". O excesso de palavras escondia o sentido, camuflava a intenção, permitia que a mentira se alinhasse nas entrelinhas. O texto limpo, o "terreiro batido" da página, era perigoso porque revelava tudo. Não havia onde se esconder num texto sem adjetivos. A verdade ficava exposta, nua sob o sol a pino.

Voltou ao caderno. As páginas, antes promessas de romances épicos e descrições caudalosas, agora pareciam pedir silêncio. Ele começou a cortar. Riscou "magnífico", eliminou "estrondoso", assassinou "indelével". A cada corte, sentia um alívio físico, como se tirasse pedras da mochila. O que restava era pouco, quase nada aos olhos de um leitor apressado, mas tinha o peso específico do chumbo.

A noite caiu sobre Alto Alegre sem o protocolo gradual dos crepúsculos românticos; a fachada da escola Rosimeire Torres Nunes simplesmente escureceu, e os grilos assumiram o turno do som. O poeta fechou o caderno, agora contendo apenas três frases que sobreviveram ao massacre da tarde. Eram frases curtas, diretas, duras como a madeira do toco onde sentara. A simplicidade, concluiu, não era pobreza; era a máxima sofisticação da urgência.

Caminhou de volta para a casa, guiado apenas pelo cheiro de café e pela luz amarela de uma lamparina na janela. Seus passos na terra seca faziam um som abafado, sem eco. Ele entendeu que, para escrever sobre aquele lugar, ou sobre qualquer verdade humana, precisaria se tornar um exterminador de excessos. A partir de agora, cada palavra sua teria que ter a solidez da enxada de Seu Inácio: feita de ferro e madeira, sem brilho, mas capaz de abrir a terra e garantir o sustento. O vazio da página em branco, que antes o assustava, agora parecia um campo arado, esperando apenas a semente certa, e nada mais.

Por José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade









segunda-feira, 25 de agosto de 2025

CRÔNICA DO DIA: Quando as Palavras pegam fogo

 

Na praça da Família de Alto Alegre do Maranhão, debaixo da sombra de um velho pé de manga rosa, seu Djalma e Dona Zefinha discutiam como sempre. Não era briga, era só o jeito deles: falavam em tom de novela mexicana, cheio de drama e exagero.

Todo dia seu Djalma chegava primeiro,  sentava no banco e parecia está absorto,  pensando na morte da bezerra. Bastava Zefinha chegar pra começar os dois dedos de prosa de sempre.

-  Pois eu digo, Zefinha, eu ponho a mão no fogo por esse meu sobrinho, ele é trabalhador demais!  -  Garantiu Seu Djalma, estufando o peito.

Dona Zefinha arregalou os olhos, abanando-se com o leque  florido:

-  Oxente, Djalma! Tu tá é doido! Nessa quentura de meio-dia e ainda quer botar a mão no fogo? Vai era ficar sem dedo!

O rapazinho Carlinhos, que estuda na Escola Santa Mônica escutava a conversa, caiu na risada.

- Dona Zefinha, isso é só jeito de falar...

Ela retrucou, indignada:

-Jeito de falar? Pois se eu não entendo essas falas tortas de vocês, fico logo de cabelo em pé!

E ficou mesmo: o vento soprou, arrepiando-lhe a cabeleira desgrenhada.

Na outra ponta do banco, Seu Raimundo, o mais calado da turma, resolveu meter o bedelho:

- Vocês deviam era ficar de olho nesse negócio de expressão. Dia desses a professora do EJAI pediu pra escrever uma redação com “tirar o cavalo da chuva”. Pensei logo: que maldade com o bichinho, coitado do cavalo todo ensopado...

Carlinhos gargalhou.

-Mas, Seu Raimundo, não tem nada a ver com bicho, não! Quer dizer desistir, largar de mão.É apenas uma expressão idiomárica. - Explicou Carlinhos com a corda toda.

-Ah, então quando minha mulher diz “tira o cavalo da chuva que hoje não tem futebol”, é isso? - Perguntou ele, surpreso.

- Exatamente! - Confirmou Carlinhos, rindo. -  É pra o senhor nem insistir.

Dona Zefinha bateu palmas, animada:

- Tá vendo? Eu fico de boca aberta com essas descobertas!

Seu Djalma aproveitou a deixa e emendou:

- Boca aberta? Fecha logo, mulher, senão entra mosquito!

Foi uma gargalhada geral. Até Dona Zefinha, entre resmungos, não segurou o riso.

Enquanto a conversa corria solta, apareceu Toninha, a vizinha fofoqueira da rua do Tucum carregando sacolas da feira e botou a boca no trombone:

-  Ô gente, vocês já souberam da confusão lá no mercado? Zé Grandao chutou o balde com o fiscal, disse que não ia pagar taxa nenhuma!

-Ave Maria! - Exclamou Dona Zefinha. - Chutou o balde, foi? E derramou o quê? Água? Leite?

Carlinhos não aguentou.

- Não, Dona Zefinha! A senhora está viajando na maionese . Quer dizer que ele perdeu a paciência, se revoltou!

Seu Djalma, fingindo ser professor, ajeitou os óculos no nariz:

-Olha, Zefinha, cada expressão é um jeito danado de brincar com as palavras. Quando a gente fala “com a corda no pescoço”, não é que tem alguém enforcado, não. É só pra dizer que a pessoa tá numa situação difícil, devendo, apertada.

Zefinha coçou a cabeça.

- Então por isso que a Prefeita vive dizendo que tá com a corda no pescoço... É dívida pra todo lado!  Toda hora um puxa saco pedinado as coisas.

E todos riram de novo.

No fim da tarde, o sol já se escondia atrás dos telhados. Carlinhos, que não perdia a chance de inventar moda, concluiu a reunião filosófica da praça:

-Sabem de uma coisa? Essas expressões são igual conversa de vizinho: nunca é ao pé da letra, mas todo mundo entende.

Dona Zefinha olhou séria, pensativa, e decretou:

-Pois eu vou usar mais delas, porque ficar calada não é comigo. Agora, Djalma, põe a mão no fogo: amanhã quero meu café quentinho!

E foi embora rindo sozinha, deixando Seu Djalma de olhos arregalados, “com a corda no pescoço” e a turma inteira às gargalhadas.

José Casanova

Professor, Jornalista, Escritor e Crônista

Membro da Academia Bacabalense de Letras

Academia Mundial de Letras da Humanidade

Tutor da Academia Maranhense de Letras Infantojuvennil

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Inscrições para concurso em Alto Alegre do MA encerram nesta segunda

A Prefeitura de Alto Alegre do Maranhão abriu concurso público para 190 vagas de todos os níveis de escolaridade, desde alfabetizado até superior. Os salários variam de R$ 545 a R$ 3.215.

Os cargos para quem é alfabetizado são de auxiliar de serviços gerais e vigia. De nível fundamental, os cargos são de fiscal de postura, guarda municipal e motorista categoria AB.

Os cargos de nível médio são de agente administrativo, professor nível I - 1º ao 5º ano e/ou EJA, fiscal de obras, técnico em radiologia, auxiliar de enfermagem e auxiliar de laboratório.

Os cargos de nível superior são de advogado, assistente social, dentista, enfermeiro, engenheiro civil, farmacêutico/bioquímico, fisioterapeuta, médico, médico veterinário, nutricionista, pedagogo, professor nível II - 6º ao 9º ano (ciências/biologia, educação especial (PNE"s), ensino religioso, filosofia, geografia, história, letras/português, língua estrangeira - inglês e matemática) e psicólogo.

As inscrições podem ser feitas até as 23h59 do dia 12 de setembro, através do site www.fundelta.com.br. Os candidatos que não tiverem acesso à internet, podem se inscrever na sede da Secretaria Municipal de Educação, localizada na Avenida Rodoviária, s/nº, Centro, em Alto Alegre do Maranhão (MA), em dias úteis, das 8h às 12h e das 14h às 17h. As taxas de inscrição variam de R$ 40 a R$ 90.

As provas objetivas para todos os cargos serão aplicadas no dia 16 de outubro.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Lula promete empenho por candidatura de Flávio Dino em São Luís

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse ao presidente do PC do B, Renato Rabelo, que se empenhará pessoalmente para garantir o apoio do PT a dois candidatos do partido nas eleições de 2012: Manuela D’Ávila (Porto Alegre) e Flávio Dino (São Luís).
A informação é do Painel, editado por Renata Lo Prete e publicado na Folha desta quarta-feira (a íntegra da coluna está disponível para assinantes do jornal e do UOL, empresa controlada pelo Grupo Folha, que edita a Folha).
Ao mesmo tempo, o ex-presidente continuará empenhado em convencer os comunistas do Brasil a descartar Netinho de Paula em São Paulo, expandindo o tempo de TV do candidato petista.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Prefeitura de Alto Alegre do MA abre concurso com 190 vagas e salários de R$ 3.215

A Prefeitura Municipal de Alto Alegre do Maranhão abriu concurso público para preencher de 190 vagas. Há oportunidades para os três níveis de instrução - fundamental, médio e superior – e a remuneração varia de R$ 545 a R$ 3.215.

O concurso está sendo organizado pela Fundação Delta do Parnaíba e, de acordo com o edital, o resultado valerá por dois anos. Há vagas para 29 carreiras.

As inscrições só podem ser feitas pela internet pelo link http://www.fundelta.com.br/download-277.html neste link, por meio do site da organizadora do concurso - http://www.fundelta.com.br  até o dia 12 de setembro e será cobrada uma taxa de R$ 40 a R$ 90 de acordo com o nível de instrução escolhido pelo candidato.

Níveis e cargos

Alfabetizado
Serviços Gerais e Vigia.

Nível fundamental
Fiscal de Postura, Guarda Municipal e Motorista categoria "AB".

Nível médio
Agente Administrativo, Professor nível I - 1º ao 5º ano e/ou EJA, Fiscal de Obras, Técnico em Radiologia, Auxiliar de Enfermagem e Auxiliar de Laboratório.

Nível superior
Advogado, Assistente Social, Dentista, Enfermeiro, Engenheiro Civil, Farmacêutico/Bioquímico, Fisioterapeuta, Médico, Médico Veterinário, Nutricionista, Pedagogo, Professor nível II - 6º ao 9º ano (Ciências/Biologia, Educação Especial (PNE"s), Ensino Religioso, Filosofia, Geografia, História, Letras/Português, Língua Estrangeira - Inglês e Matemática) e Psicólogo.