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quinta-feira, 5 de março de 2026

CRÔNICA DO DIA: Vinte e Quatro Horas de Fortaleza: O Amor sem Pausas



O despertador de Teresa Cristina não precisa de som. Às quatro e meia da manhã, o silêncio do bairro de Messejana, em Fortaleza, é quebrado pelo primeiro espasmo de Tiago no quarto ao lado. Teresa desperta instantaneamente, como se um fio invisível ligasse seu sistema nervoso ao do filho de dez anos. Tiago nasceu com paralisia cerebral e um diagnóstico severo de autismo, uma combinação que faz de cada segundo da vida de sua mãe um exercício de vigília absoluta.

Ela se levanta antes que o sol invada as frestas da janela. A primeira tarefa das suas vinte e quatro horas é a higiene de Tiago. O manejo exige força física e uma delicadeza infinita. Teresa, uma mulher miúda cujas mãos carregam calos de anos levantando um corpo que não lhe oferece sustentação, realiza a troca de fraldas e o banho com a precisão de um ritual sagrado.

— Bom dia, meu príncipe. O sol já vai aparecer. — Sussurra ela, embora Tiago responda apenas com um olhar vago e um leve estalo de língua. Para ela, aquele estalo é um bom-dia completo.

Às seis horas, começa a alquimia da cozinha. A dieta de Tiago é restrita, pastosa, calculada para evitar engasgos e crises alérgicas. Entre bater o liquidificador e conferir as dosagens das medicações anticonvulsivas, Teresa engole uma xícara de café frio, em pé, olhando para o relógio de parede. O tempo para uma mãe cuidadora em Fortaleza não corre; ele fustiga.

O deslocamento para a primeira terapia, no centro da cidade, é um capítulo aparte de resistência urbana. O ônibus de integração é um território de batalhas. Teresa precisa manobrar a cadeira de rodas pesada, lidar com as rampas hidráulicas que frequentemente quebram e, o que é pior, com os suspiros de impaciência dos outros passageiros que veem no embarque de Tiago um atraso para seus próprios destinos.

— Mais rápido, dona, tem gente com pressa! — Grita um homem no fundo do coletivo.

Teresa não olha para trás. Ela aprendeu a ensurdecer para o desrespeito. Sua energia é finita e ela não a desperdiçará com quem não consegue enxergar a montanha que ela sobe todos os dias carregando o filho no asfalto quente da capital cearense.

A manhã é uma sucessão de salas de espera: fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional. Enquanto Tiago está dentro dos consultórios, Teresa não descansa. Ela usa o Wi-Fi da clínica para pesquisar recursos judiciais, responder mensagens no grupo das "Mães de Luta" e tentar organizar a papelada do Benefício de Prestação Continuada (BPC), que o governo insiste em burocratizar. Sua mente é um escritório jurídico e uma clínica médica funcionando em paralelo.

Ao meio-dia, o calor de Fortaleza atinge o ápice. O asfalto parece exalar fogo. Teresa busca uma sombra perto do Hospital Infantil para dar o almoço a Tiago. Ela usa uma seringa para hidratá-lo, gota a gota, com a paciência de quem sabe que o tempo do filho é diferente do tempo do mundo. As pessoas passam, olham, algumas com pena, outras com um estranhamento que beira a repulsa. Teresa Cristina é invisível para a metrópole, mas ela é o universo inteiro para o menino que agora sorri levemente ao sentir o vento batendo no rosto.

A tarde reserva o atendimento escolar. Teresa luta para que o Atendimento Educacional Especializado (AEE) seja cumprido. Ela senta-se no corredor da escola municipal, pronta para intervir caso Tiago tenha uma crise sensorial ou precise de aspiração. Ela é a mediadora, a sombra protetora, o suporte que o Estado muitas vezes falha em prover.

— Você não se cansa, Teresa? — Perguntou uma vez uma vizinha, admirada com a rotina.

— Eu não tenho o direito de me cansar. — Respondeu ela na época. Mas, na intimidade de suas vinte e quatro horas, o cansaço é seu companheiro mais fiel. É uma exaustão que dói nos ossos, mas que é silenciada pelo amor sem pausas.

O anoitecer em Fortaleza traz o retorno para casa. O ritual matinal se inverte: jantar, banho, medicações da noite, troca de fraldas. Quando Tiago finalmente adormece, por volta das dez da noite, o dia de Teresa ainda não terminou. Ela precisa lavar as roupas especiais, esterilizar os equipamentos e, finalmente, tomar seu primeiro banho demorado, onde o choro reprimido durante o dia pode, enfim, misturar-se à água do chuveiro.

Ela deita-se por volta da meia-noite, sentindo cada músculo do corpo pulsar de fadiga. Mas o sono de uma mãe típica é leve como uma pluma. Qualquer ruído no monitor eletrônico, qualquer alteração na respiração de Tiago, e ela estará de pé no segundo seguinte.

Essa rotina de vinte e quatro horas não é um feriado, não tem final de semana e não tem férias. É uma dedicação total que retira da mulher o direito ao lazer, ao autocuidado e, muitas vezes, à saúde mental. A invisibilidade das mães cuidadoras em Fortaleza é uma chaga social que ninguém quer curar. Elas são os pilares que seguram as vidas que a sociedade prefere não ver.

Ao fechar os olhos, Teresa pensa no dia de amanhã. Será quase idêntico ao de hoje. A mesma luta no ônibus, a mesma paciência na seringa de comida, o mesmo amor incondicional que a mantém íntegra no meio da tempestade.

Teresa Cristina adormece com o toque suave da mão de Tiago, que em um movimento reflexo durante o sono, buscou a mão da mãe no lençol. Esse pequeno gesto, essa conexão elétrica e pura, é o que recarrega suas baterias para as próximas vinte e quatro horas. O amor sem pausas de Teresa não é um sacrifício romântico; é o ato político mais forte que existe: a afirmação de que toda vida, por mais complexas que sejam suas condições, merece ser vivida com ternura, cuidado e um respeito que não dorme, nunca.

Por José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade





quarta-feira, 4 de março de 2026

CRôNICA DO DIA : A Brevidade das Horas em Alto Alegre


Em Alto Alegre do Maranhão, o tempo não se mede em horas, mas em sombras. Quando o sol atinge o pico, não é meio-dia; é a hora em que a enxada para. O poeta, recém-chegado da capital com a bagagem cheia de livros e a cabeça lotada de metáforas barrocas, sentou-se num toco de madeira observando o movimento da roça. Diante dele, a vastidão da terra batida exigia uma descrição, e sua mão, viciada em floreios, começou a traçar no caderno: "A terra vermelha, sedenta e ancestral, estendia-se como um tapete sangrento sob o pálido manto do céu equatorial..."

Ele parou. Releu. A frase parecia uma mentira.

Olhou para Seu Inácio, um homem cuja pele tinha a textura de couro curtido e que estava ali perto, amolando um facão com uma pedra lisa. O movimento era rítmico, preciso. Chissss, chissss. Não havia desperdício de energia. O poeta sentiu vergonha de seus adjetivos. Chamar a terra de "ancestral" era uma redundância que a própria terra ignorava; ela simplesmente era. Chamar o céu de "manto equatorial" era enfeitar o que servia apenas para cobrir e queimar.

— O senhor acha que chove hoje? — Perguntou o poeta, tentando quebrar o silêncio denso que se formava entre a literatura e a realidade.

Seu Inácio parou o facão no ar, testou o fio com a polegar calejada e olhou para cima.

— Chove.

A resposta veio seca, um substantivo e um verbo implícito na certeza do tom. Não houve "talvez", nem "quem sabe", nem descrições sobre a umidade relativa do ar ou a cor das nuvens. A vida rural, percebeu o poeta, não tinha paciência para advérbios de dúvida. A sobrevivência em Alto Alegre dependia da precisão. Se a chuva vem, planta-se. Se não vem, espera-se. O rodeio linguístico era um luxo urbano, uma extravagância de quem tem tempo garantido e supermercado na esquina.

O poeta riscou a frase anterior no caderno. Tentou de novo, buscando mimetizar a economia do homem ao seu lado.

"A terra é vermelha. O céu queima."

Melhor. Mas ainda sentia que sobrava algo. "Vermelha" e "queima" eram óbvios para quem estava ali. A redundância era o pecado capital daquele lugar. Na cidade, o excesso de palavras servia para preencher o vazio existencial dos elevadores e das reuniões corporativas. Ali, o vazio não existia; tudo estava cheio de propósito. A galinha ciscava para comer. O vento soprava para espalhar semente. A palavra, portanto, só deveria existir se tivesse a função de uma ferramenta: cortar, plantar, colher, curar.

Ele observou uma mulher passando com uma trouxa de roupa na cabeça, equilibrando o peso com uma dignidade vertical invejável. Quis escrever que ela caminhava "com a elegância de uma rainha destronada", mas se conteve. A mulher caminhava para lavar roupa. Ponto. A poesia não estava na comparação que ele forçava sobre a cena, mas na ação bruta e necessária dela. Adjetivar o caminhar daquela mulher era desrespeitar o peso que ela carregava. O adjetivo, pensou ele com um travo amargo na boca, é muitas vezes a maquiagem da covardia de encarar o substantivo nu.

A tarde avançava e a luz mudava, tornando as sombras mais longas e nítidas. O poeta percebeu que a brevidade das horas no campo era uma ilusão. O dia parecia curto porque não havia tédio, apenas ciclo. O texto que tentava nascer ali precisava obedecer a essa mesma lei física. Cada palavra tinha que pagar seu aluguel na página. Se uma vírgula não sustentasse o sentido da oração, deveria ser capinada como erva daninha que rouba nutrientes do feijão.

— A escrita do senhor rende? — Perguntou Seu Inácio, guardando a pedra de amolar no bolso da calça frouxa.

— Rende muito mato, Seu Inácio. Estou tentando limpar — Respondeu o poeta, aceitando a metáfora agrícola.

— Mato alto esconde cobra. — Sentenciou o velho, levantando-se. — Melhor deixar o terreiro limpo.

Aquela frase ecoou na mente do escritor como um mandamento estético definitivo. "Mato alto esconde cobra". O excesso de palavras escondia o sentido, camuflava a intenção, permitia que a mentira se alinhasse nas entrelinhas. O texto limpo, o "terreiro batido" da página, era perigoso porque revelava tudo. Não havia onde se esconder num texto sem adjetivos. A verdade ficava exposta, nua sob o sol a pino.

Voltou ao caderno. As páginas, antes promessas de romances épicos e descrições caudalosas, agora pareciam pedir silêncio. Ele começou a cortar. Riscou "magnífico", eliminou "estrondoso", assassinou "indelével". A cada corte, sentia um alívio físico, como se tirasse pedras da mochila. O que restava era pouco, quase nada aos olhos de um leitor apressado, mas tinha o peso específico do chumbo.

A noite caiu sobre Alto Alegre sem o protocolo gradual dos crepúsculos românticos; a fachada da escola Rosimeire Torres Nunes simplesmente escureceu, e os grilos assumiram o turno do som. O poeta fechou o caderno, agora contendo apenas três frases que sobreviveram ao massacre da tarde. Eram frases curtas, diretas, duras como a madeira do toco onde sentara. A simplicidade, concluiu, não era pobreza; era a máxima sofisticação da urgência.

Caminhou de volta para a casa, guiado apenas pelo cheiro de café e pela luz amarela de uma lamparina na janela. Seus passos na terra seca faziam um som abafado, sem eco. Ele entendeu que, para escrever sobre aquele lugar, ou sobre qualquer verdade humana, precisaria se tornar um exterminador de excessos. A partir de agora, cada palavra sua teria que ter a solidez da enxada de Seu Inácio: feita de ferro e madeira, sem brilho, mas capaz de abrir a terra e garantir o sustento. O vazio da página em branco, que antes o assustava, agora parecia um campo arado, esperando apenas a semente certa, e nada mais.

Por José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade









terça-feira, 3 de março de 2026

Francinalva Muniz é eleita para a Academia Bacabalense de Letras


Na noite da última sexta-feira, dia 27, a cadeira da memória ganhou nova guardiã na Academia Bacabalense de Letras. Autora de outras obras, a escritora Francinalva Muniz foi eleita para integrar a instituição após a avaliação de sua obra "Por alguns minutos, eles", um livro que transforma lembrança em arquitetura narrativa e faz da história familiar um espelho coletivo.

O livro chegou às mãos da comissão avaliadora carregando mais que papel e tinta. Trouxe a trajetória de Joaquim Coimbra Muniz e Benevenuta Carvalho Muniz, protagonistas de uma saga que atravessa décadas e geografias, costurando a formação da família Muniz no tecido social maranhense.

A narrativa se desenrola entre as décadas de 1940 e 1970, tendo como cenário principal o estado do Maranhão, especialmente os municípios de Vargem Grande e Sao Luis, com breves passagens pelo Rio de Janeiro e referências a países europeus. O pano de fundo histórico inclui guerras, recessões, pandemias, o endurecimento político e a implantação da ditadura militar no Brasil. Ainda assim, o foco da autora permanece no cotidiano da resistência silenciosa: a luta por alimento, moradia e educação em meio às adversidades.

O enredo alterna momentos narrativos e descritivos, expondo carências que marcaram, e em muitos casos ainda marcam, famílias brasileiras. Escassez de comida, moradia precária e poucas oportunidades escolares contrastam com valores que sustentam a espinha dorsal da obra: honestidade, integridade, força de trabalho e amor como elemento estruturante da esperança.

Entre os clímax da narrativa estão a doença da mãe quando os filhos ainda eram pequenos, a mudança de cidade motivada por conflitos locais e o impacto decisivo da educação na transformação de vida das novas gerações. A morte de dona Vanuta e o novo casamento do viúvo encerram ciclos e inauguram outros, numa cadência que respeita o ritmo imprevisível da existência.

A obra também se destaca pelo uso de recursos poéticos complementares. A história em prosa é ratificada por um acróstico intitulado Francinaldo Carvalho Muniz e por uma ode dedicada à senhora Muniz, ambos assinados por Cinaldo, ampliando o caráter afetivo e autorreferencial do livro.

Memórias sensoriais percorrem as páginas: o toucinho de porco estalando na frigideira, o bolo frito, o cheiro de café e querosene, o sal, o açúcar, a laranja, a bandinha e o parque de diversões. Elementos culturais como o tradicional festejo de Sao Raimundo do Mulundus compõem o cenário religioso e comunitário. A biodiversidade regional também se faz presente com nambus, preás, rolinhas e peixes de rio como traíra, mandi e piau-de-coco, além de culturas agrícolas como feijão, milho, arroz, mandioca e batata.

Ao eleger Francinalva Muniz, a Academia reconhece não apenas uma escritora, mas uma narradora de raízes. Por alguns minutos, eles é mais que memorial familiar: é um registro de tempo, território e valores que atravessam gerações. A cerimônia de posse deverá ser anunciada nos próximos dias, marcando oficialmente a entrada da autora no seleto quadro de imortais da literatura bacabalense.

segunda-feira, 2 de março de 2026

CRÔNICA DO DIA : O Silêncio de Bacabal



O ventilador de teto da sala de espera girava com uma lentidão doentia, emitindo um estalo rítmico que parecia cortar o ar abafado. No auge do verão maranhense, a cidade de Bacabal ardia sob um sol implacável, e dentro do posto de saúde o calor se misturava ao cheiro de álcool etílico e suor. Sentada em uma cadeira de plástico azul com o encosto rachado, Maria Helena sentia a blusa colar nas costas. Seus olhos, contudo, não acompanhavam as gotas de suor que escorriam pela própria testa. Eles estavam fixos no garoto de quatro anos agachado a seus pés.

Luís segurava um carrinho de plástico vermelho. Ele não o fazia deslizar pelo chão de azulejos encardidos. Em vez disso, mantinha o brinquedo de cabeça para baixo, girando a roda traseira esquerda com o dedo indicador. Girava, parava, girava novamente. Seus olhos escuros acompanhavam o movimento circular em um transe absoluto, alheio ao choro de um bebê recém-nascido no colo da mãe ao lado, alheio ao barulho do trânsito na rua, alheio à própria respiração ofegante de Helena.

— Senhora? — Chamou a recepcionista pela terceira vez, a voz anasalada atravessando a barreira de vidro do guichê.

Helena piscou, emergindo abruptamente de seus pensamentos, e se apressou até o balcão.

— Desculpe, não ouvi. É a vez do Luís? — Perguntou, a voz carregando noites acumuladas de insônia.

— Ainda não, mãe. A ficha dele é a verde. A doutora Sônia está terminando um atendimento e depois ainda tem três na frente. Vai ter que ter paciência.

Helena olhou para trás. Luís havia parado de girar a roda. Ele agora batia o carrinho contra o próprio joelho, o som oco do plástico contra a pele criando um novo padrão rítmico. A frequência das batidas estava aumentando. Helena conhecia as engrenagens daquela pequena bomba-relógio. O aumento da frequência significava que a sobrecarga sensorial estava atingindo o limite. O estalo do ventilador, a luz fluorescente falhando no corredor, as vozes embaralhadas das outras pessoas na sala. Para a maioria, era apenas desconforto. Para Lucas, era uma agressão física intensa e invisível.

— Moça, por favor — Sussurrou Maria Helena, agarrando a borda do balcão para evitar que as mãos tremessem. — Ele não consegue esperar. Ele está começando a se desregular. Não existe uma prioridade para atendimento?

A recepcionista, exausta por seu próprio turno estressante e mal remunerado, olhou por cima dos óculos.

— Prioridade pela lei é para idoso, gestante e cadeirante. O menino tem os braços e as pernas perfeitos. Se ele está chorando de manha, a senhora tente acalmar dando um passeio ali fora. Quando chegar a vez, eu grito.

A resposta desceu pela garganta de Helena com o amargor do fel. Manha. A palavra maldita que a perseguia há pelo menos dois anos. Desde que Luís fez dois anos e o vocabulário, em vez de florir, murchou. Desde que os olhares fugiram, desde que as festinhas de aniversário se tornaram campos minados de choro e isolamento. Sua sogra dizia que era preguiça. O cunhado falava em falta de pulso firme. As vizinhas trocavam olhares carregados de julgamento silencioso quando, no meio do supermercado, o menino se jogava no chão tapando os ouvidos.

Helena voltou para a cadeira azul. Sentou-se no chão, ignorando a sujeira, e abriu os braços, formando um pequeno casulo protetor ao redor do filho. Ela não tentou tirar o carrinho de suas mãos, não exigiu que ele olhasse para ela. Apenas pressionou suavemente as palmas das mãos contra as têmporas de Lucas, abafando o som do ambiente. O corpo do menino tensionou e, lentamente, cedeu sob a pressão firme.

O tempo naquela sala de espera pareceu se dilatar. Mas, finalmente, o chamado soou.

O consultório da Dra. Sônia era um oásis. O ar-condicionado funcionava perfeitamente e a luz era indireta, filtrada por uma cortina de tom creme. A neuropediatra era uma mulher de cabelos prateados, olhos profundos e uma expressão que carregava a gravidade e a ternura de quem lidava com os labirintos do desenvolvimento infantil há décadas.

Lucas entrou e, imediatamente, foi para o canto da sala, encontrando uma fileira de blocos lógicos matemáticos. Sentou-se de costas para as duas mulheres e começou a alinhar os blocos por cor, não formando castelos, mas linhas infinitas, precisas, exatas.

Dra. Sônia observou a cena em silêncio por um longo minuto antes de olhar para Helena. Em sua mesa, um prontuário espesso reunia relatórios da creche, avaliações fonoaudiológicas preliminares e questionários preenchidos ao longo dos últimos meses.

— Helena. — Começou a médica, a voz suave, escolhendo as palavras com o cuidado de quem desarma uma armadilha. — Nós já vínhamos conversando sobre as avaliações do Lu´s desde o início do ano. O atraso na fala, a dificuldade na interação social recíproca, os interesses restritos e esses movimentos repetitivos...

Maria Helena engoliu a seco. O coração batia na base da garganta. Ela queria que a médica parasse de falar, mas ao mesmo tempo precisava desesperadamente ouvir. A dúvida eterna era uma tortura muito maior que qualquer certeza.

— A avaliação neurológica e os laudos multidisciplinares convergem de forma muito clara. — Dra. Sônia pegou uma caneta e um bloco de receituário oficial do SUS. — O Lucas está dentro do Transtorno do Espectro Autista. O que nós chamamos de TEA. Vou colocar aqui o código, o 6A02.

A palavra caiu na sala com o peso de uma bigorna, mas não fez barulho. Autismo. Helena já havia pesquisado na internet nas madrugadas insones, já havia lido relatos, mas ouvir aquilo de uma profissional diplomada, ver a nomenclatura ser escrita em um papel timbrado, transformou o que era uma sombra de suspeita em um muro de concreto tátil e intransponível.

— Eu fiz alguma coisa errada? — A pergunta escapou dos lábios de Helena antes que pudesse filtrá-la. Uma lágrima teimosa correu pelo lado do nariz. — Foi porque eu trabalhei muito na costura enquanto estava grávida? Foi algo que ele comeu?

Dra. Sônia parou de escrever e estendeu a mão, segurando o pulso de Helena por cima da mesa. O toque era firme.

— Absolutamente não. Olhe para mim, Helena. Não há culpa aqui. O autismo é uma condição do neurodesenvolvimento. O cérebro do Luís funciona sob outro sistema operacional. Ele capta o mundo com uma intensidade diferente da nossa. Não é uma doença que se cura, é uma forma de existir no mundo. E o nosso trabalho, a partir de hoje, não é consertar o seu filho, pois ele não está quebrado. Nosso trabalho é adaptar o mundo para que ele possa caminhar nele sem se machucar.

A médica girou o papel do laudo, empurrando-o para Helena.

— Sei que essa palavra assusta. A sociedade não sabe lidar com a diferença. Mas este papel, Helena, é uma ferramenta. Uma ferramenta muito poderosa.

Helena enxugou o rosto com as costas da mão, olhando para os rabiscos médicos.

— A moça lá fora disse que ele não tem direito a prioridade porque não tem deficiência física. — Murmurou a mãe, a raiva começando a tomar o lugar do luto inicial.

Dra. Sônia suspirou, um som carregado de frustração institucional.

— Esse é o nosso maior problema. A invisibilidade. Mas preste muita atenção: pela Lei 12.764, a Lei Berenice Piana, o Transtorno do Espectro Autista é considerado deficiência para todos os efeitos legais. Isso não serve para estigmatizar o Luís. Serve para garantir que o Estado não o ignore. Na fila do posto, na senha do banco, e, principalmente, na escola. Ele tem direito a uma mediadora, a um Plano de Atendimento Educacional Especializado. A inclusão tem que ser real, não apenas uma matrícula no papel.

Helena olhou para o filho no canto da sala. Ele havia terminado a linha amarela de blocos e estava começando a organizar os azuis. Havia uma beleza silenciosa naquela mente matemática, uma ordem secreta que somente ele acessava. O medo no peito de Helena começou a transmutar-se. O luto pelo filho idealizado, fruto das expectativas normativas, estava derretendo sob o ar-condicionado daquela sala. Em seu lugar, nascia uma lealdade feroz à criança real que respirava a dois metros de distância.

Ao saírem do posto de saúde meia hora depois, o impacto da realidade externa as golpeou. O sol do meio-dia no centro de Bacabal escaldava o asfalto. Perto do Mercado Central, o fluxo era caótico: vendedores ambulantes gritando promoções de roupas íntimas, carrinhos de mão carregados de frutas desviando de motos apressadas, o batuque alto e distorcido de uma caixa de som em uma loja de sapatos.

Helena segurava a mão de Luis com firmeza. Na outra mão, dentro da bolsa, o laudo repousava como uma espada recém-forjada, ainda quente. Ela queria chegar em casa rápido, mas faltavam seis quarteirões.

De repente, uma motocicleta com o escapamento adulterado passou zunindo pela rua, estourando um som seco e ensurdecedor, semelhante a um tiro.

Foi o limite. O gatilho que a mente já saturada de Luís não pôde processar.

O menino soltou a mão da mãe, tapou as duas orelhas com violência e desabou no meio da calçada. O choro não era de birra, era um lamento primitivo de pura dor neurológica. Ele se contorcia no chão sujo, tentando se esconder da luz, do som, da existência do mundo. Aos olhos de qualquer neurotípico, era uma birra monumental.

E então aconteceu. O fenômeno que Helena mais detestava. O silêncio da cidade.

Não era a ausência de som, o trânsito continuava, a música continuava, mas uma barreira invisível de julgamento que se formava ao redor deles. As pessoas na calçada pararam. Passos desaceleraram. Olhares perfuravam como agulhas cegas, cheios da ignorância enraizada no moralismo punitivo. Formou-se uma roda a três passos de distância.

Maria Helena se jogou no chão imediatamente, rasgando o joelho do tecido de sua calça. Ajoelhou-se ao lado de Lucas, ignorando a poeira que manchava sua roupa. Ela envolveu o menino com seu corpo, pressionando as juntas dos braços dele contra o peito, proporcionando a compressão profunda que ajudava a organizar as sinapses em pane.

— Está tudo bem, meu amor. A mamãe está aqui. É muito barulho, estou sentindo também. Vai passar. — Susurrava ela repetidamente, a boca encostada nos cabelos úmidos de suor do filho.

Do meio da roda improvisada de curiosos, uma senhora segurando uma sacola de laranjas estalou a língua.

— Olha que absurdo. Um menino desse tamanho rolando no chão. Falta de laço em casa dá nisso. No meu tempo, uma chinelada bem dada resolvia esse drama no ato.

A frase flutuou no ar pesado de Bacabal. Semanas atrás, Helena teria sentido vergonha. Teria se desculpado baixinho, puxaria o filho pelo braço, vermelha de constrangimento, tentando sumir com sua dor para não incomodar a paisagem da cidade.

Mas não depois do consultório da Dra. Sônia. Não com o CID-11 6A02 guardado na bolsa.

Helena virou o rosto lentamente. Seus olhos encontraram os da senhora com uma intensidade vulcânica. O choro ruidoso de Luís continuava, mas a mãe havia encontrado uma ancoragem absoluta na fúria de quem protegeria os direitos do filho até as últimas consequências.

— A senhora guarde seus conselhos para a sua vida! — A voz de Helena cortou a distância com uma clareza cortante. Não havia hesitação. — O meu filho tem Transtorno do Espectro Autista. O cérebro dele processa os sons dessa rua como se fossem navalhas, enquanto a senhora processa a dor dos outros com completa ignorância e capacitismo. Eu não estou aqui para educar a vizinhança. Por favor, deem espaço e continuem a caminhar. Ele precisa de ar, não da sua pena disfarçada de arrogância.

A senhora piscou, desconcertada pela resposta articulada e implacável. Os outros curiosos ao redor remexeram-se em seus lugares, envergonhados pela repreensão direta. Aos poucos, como neblina varrida pelo vento, a pequena multidão se desfez. Ninguém se ofereceu para ajudar, mas ninguém tentou atrapalhar novamente.

Quando o ambiente ficou mais calmo, a respiração de Lucas perdeu a característica ofegante. O choro cedeu lugar a soluços baixos. Ele tirou as mãos das orelhas e olhou para a mãe. Seus olhos encontraram os dela por uma fração de segundo, rara e valiosa.

— Acabou. Vamos para casa. — Disse Maria Helena, beijando-lhe a testa e erguendo-o do chão.

O dia seguinte iniciou com um ar de urgência burocrática. A primeira lição que Helena aprendera nessa nova realidade era que o respeito à neurodivergência no Brasil raramente vinha por empatia natural; ele precisava ser extraído a fórceps de porões institucionais, acompanhado de cópias autenticadas e documentos assinados.

Às sete da manhã, Helena já estava na fila da Secretaria Municipal de Assistência Social. O prédio público cheirava a cera barata e desinfetante de eucalipto. Em sua pasta plástica, ela carregava os documentos pessoais, o comprovante de endereço e o precioso laudo médico. Ela buscava a Ciptea — Carteira de Identificação da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista. Aquilo não era apenas um crachá; era o fim da peregrinação das justificativas nos caixas de supermercado, o alvará visual que impediria as recepcionistas de postos de saúde de mandá-la passear lá fora.

O atendente humano, contudo, revelou-se a próxima barreira em sua jornada de inclusão. Um homem jovem, de crachá virado e fones de ouvido pendurados no pescoço, pegou a pasta de Helena sem olhar para ela.

— Para que é essa solicitação, dona? — Perguntou ele, abrindo um chiclete com lentidão exasperante.

— Vim solicitar a Ciptea para o meu filho. A carteirinha de identificação.

O rapaz folheou os papéis, olhou friamente para Lucas, que estava estranhamente calmo, analisando os vincos rodapé do balcão, e soltou uma gargalhada curta e descrente.

— Mas senhora... o menino é esperto. Ele não tem cara de deficiente, não tem nada errado com o corpo dele. Para fazer essa carteirinha de prioridade, a pessoa tem que ter prova. Não é só querer furar fila. Criança hiperativa a gente não cadastra não.

Helena fechou os olhos por três segundos. A exaustão quase a convenceu de se virar e voltar para casa, esperar que a sociedade evoluísse sozinha no seu próprio ritmo letárgico. Mas então se lembrou do choro desesperado na calçada no dia anterior. Lembrou-se do ventilador girando e da agonia do filho sem que nenhuma porta de alívio fosse aberta no ambiente.

Seu olhar se abriu afiado e inflexível.

— Eu não perguntei a sua opinião baseada em achismos médicos que você não possui. — Ela bateu a mão sobre o balcão, o impacto seco fazendo o rapaz sobressaltar-se na cadeira. — O artigo terceiro da Lei Federal 13.977 foi criado justamente para proteger o meu filho da sua falta de instrução. A deficiência dele não precisa estar estampada no formato do rosto dele para ser real e validada. O laudo é de uma médica neuropediatra do SUS. A legislação é federal, e não é uma sugestão para a Prefeitura, é uma obrigação do Estado. Você vai processar esse pedido agora, ou nós deixaremos de falar no balcão de triagem e passaremos a conversar na sala do Ministério Público desta cidade, que fica na rua de trás. A escolha e o trabalho são inteiramente seus.

O silêncio do atendente não foi o mesmo silêncio punitivo de Bacabal. Foi o silêncio do recuo. Ele endireitou a postura, abandonou a goma de mascar e começou a digitar vigorosamente no sistema com os olhos baixos, digitando as informações do laudo no banco de dados. Vinte minutos depois, o protocolo da Ciptea estava nas mãos de Helena.

Uma batalha vencida no que se anunciava como uma longa guerra.

Quando a noite finalmente engoliu a umidade sufocante de Bacabal e o breu trouxe uma falsa sensação de trégua térmica, a casa de Helena assumiu um ritmo profundamente singular. A rotina rígida, tão necessária para a autorregulação do filho, cumpria-se religiosamente. O banho tinha que ter a mesma temperatura, a toalha amarela precisava estar no cabide específico, e a luz do corredor permanecia acesa no nível mais baixo.

Maria Helena observou Luís dormir na penumbra de seu quarto. Seu semblante durante o sono era plácido, livre do excesso de informações sensoriais que o castigavam durante o dia. As mãos pequenas repousavam abertas sobre o lençol recém-lavado; o carrinho vermelho estava cautelosamente estacionado na mesa de cabeceira, milimetricamente alinhado com a beirada de madeira. O diagnóstico não mudara a criança, mas havia rasgado definitivamente o véu de inocência da mãe.

Ao caminhar de volta para a cozinha e sentar-se na cadeira gastas pela rotina, ela abraçou uma xícara de chá morno. A sensação de inadequação e medo das horas passadas haviam deixado seu sangue. Uma claridade inabalável acomodara-se em seu peito. As ruas movimentadas da cidade não a intimidavam mais. A ignorância cravada naquelas calçadas maranhenses seria combatida em cada balcão burocrático, em cada escola de ensino regular, em cada olhar hostil e sussurro indiscreto.

Naquela mesma noite, sob o céu pesado e denso de Bacabal, Helena sentiu a dor crua de morrer como a mãe convencional que fora ensinada a ser. Simultaneamente, viu-se nascer como uma força instintiva e inquebrável. Não imploraria mais desculpas pelo silêncio social, nem pelas reações atípicas de sua prole. Ela redesenharia as linhas de respeito. O universo de seu filho não era o de falhas, era de uma percepção aguçada e ritmos que ela desbravaria com honra absoluta. Observando através da pequena janela sobre o balcão, percebeu que a luta não se extinguiria nos confins de uma pequena cidade do interior, pois o mundo transbordava de expectativas rígidas, aguardando que mentes inquietas e extraordinárias se recusassem, para toda a eternidade, a encolher as asas. E ela, a partir daquele instante, seria a ventania a garanti-las.

Por José Casanova
Professor,Jornalista,Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras  da Humanidade

domingo, 1 de março de 2026

Sessão ordinária marca os trabalhos na Câmara de Bacabal

 

A Câmara Municipal de Bacabal realizou nesta quarta-feira (25) sessão ordinária que marcou de fato a abertura dos trabalhos sob a condução da Presidente da Casa Natália Duda, reunindo vereadores e público no plenário composto em sua maioria por mototaxistas .

A solenidade foi iniciada com a leitura bíblica feita pelo vereador Feitosa, momento que tradicionalmente antecede as deliberações legislativas. Em seguida, o vereador Reginaldo do Posto realizou a leitura da ata da sessão anterior, que foi submetida à apreciação e aprovada pelo plenário.

Dando prosseguimento, o vereador Alberto Sobrinho fez a leitura do Expediente do Dia, apresentando as matérias protocoladas e os encaminhamentos previstos para a sessão.

Entre os destaques, esteve a apresentação do Título de Cidadã Bacabalense à dra. Tatiane, iniciativa da vereadora Ivonete, reconhecendo os relevantes serviços prestados ao município. A proposta recebeu apoio dos parlamentares.

Durante a ordem do dia, requerimentos e projetos foram colocados em votação e aprovados por unanimidade, demonstrando consenso entre os vereadores nas pautas apreciadas.

Fizeram uso da palavra os vereadores Cândido de Madeira, Feitosa, Professor Maninho, Alex Abreu e Alberto Sobrinho, que abordaram temas de interesse da população, destacando ações, demandas comunitárias e encaminhamentos legislativos.

A sessão reforçou o compromisso do Legislativo bacabalense com o diálogo e a construção de propostas voltadas ao desenvolvimento do município.












sábado, 28 de fevereiro de 2026

César Brito é eleito para Academia Bacabalense de Letras

A literatura bacabalense ganhou um novo capítulo nesta sexta-feira (27). O escritor César Brito foi eleito para integrar a Academia Bacabalense de Letras (ABL), após cumprir todas as etapas regimentais que envolvem análise crítica da obra e avaliação formal por comissão especializada da Casa.

A eleição ocorreu durante Sessão Interna da Academia liderada pelo Presidente José Casanova, momento reservado aos imortais para deliberações institucionais. Antes da votação, o candidato passou pelo crivo da Comissão de Parecer, responsável por examinar a consistência literária, a relevância cultural e a contribuição intelectual de sua produção. O relatório conclusivo, apresentado pelo relator do processo, destacou a maturidade estilística do autor, a coerência temática de sua obra e sua inserção no cenário cultural local e regional.

Com parecer favorável da Comissão, o nome de César Brito foi submetido ao plenário da ABL, que confirmou sua eleição por votação dos membros efetivos. A escolha reafirma o compromisso da instituição com a valorização da produção literária contemporânea e com o fortalecimento da memória cultural de Bacabal.

A posse está prevista para o dia 24 de março, em Sessão Pública da Academia Bacabalense de Letras, solenidade aberta à comunidade e que deverá reunir autoridades, escritores, familiares e representantes da sociedade civil. Na ocasião, o novo acadêmico fará seu discurso de ingresso, rito tradicional que marca oficialmente sua integração ao sodalício.

César será Membro Sucessor de Raimundo Laércio de Oliveira, o porta Triste e terá como Patrono o Poeta, cantor e compositor João do Vale.

A eleição de César Brito representa não apenas o reconhecimento de sua trajetória literária, mas também a renovação simbólica da ABL, que segue ampliando seu quadro de intelectuais comprometidos com a palavra escrita, a reflexão crítica e a difusão da cultura. Em Bacabal, onde a literatura encontra eco nas vozes de seus cronistas, poetas e pesquisadores, a chegada de um novo acadêmico é sempre mais que um ato formal: é a celebração da permanência da palavra.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

CRÔNICA DO DIA: O Giz Enigmático do Joaquim Nogueira



O pó de giz é a caspa da literatura. Ele se acumula nas mangas do paletó, entra nas unhas e seca a garganta, um lembrete constante de que a palavra escrita na lousa é, por natureza, efêmera. Na sala 3B da Escola Joaquim Nogueira, em Fortaleza, o calor de meio-dia não respeitava a gramática normativa. A luz entrava pelas janelas basculantes, transformando o ar em uma massa densa que desafiava a concordância entre o sujeito e o predicado.

Eu estava no estrado, aquela pequena elevação de madeira que separa o detentor da norma culta do caos criativo da adolescência. Minha missão era clara: ensinar a oração subordinada substantiva subjetiva. Mas, diante de trinta e cinco rostos suados e inquietos, a sintaxe parecia uma ferramenta enferrujada, incapaz de desapertar os parafusos da realidade daqueles meninos.

— Professor, na moral, essa frase aí tá "paia" demais !— Disse Wellington, um garoto magro sentado no fundo, girando uma caneta entre os dedos com a destreza de um malabarista.

Parei com o giz suspenso no ar. A palavra "paia". Não estava no Aurélio com a acepção que ele lhe dava. Para Wellington e para o resto da turma, "paia" não era apenas palha, algo sem valor. Era um adjetivo de decepção, de falsidade, de tédio, uma ferramenta de julgamento estético e moral.

— "Paia"? — Repeti, sentindo o gosto seco do giz na boca. — Explique a função sintática de "paia" na sua vida, Wellington.

A turma riu. O riso coletivo era o som da cumplicidade linguística que eu, estrangeiro em minha própria língua, tentava decifrar.

— É que não cola, "fessor. O sujeito da oração não pode ser inexistente, porque "nós existe". Se a gente tá aqui, o sujeito tá aqui. O senhor tá ensinando uma parada que não conversa com o "corre".

Baixei a mão. O giz verde, pequeno toco de esperança pedagógica, repousou na calha do quadro-negro. Wellington, sem saber, acabara de propor uma nova teoria linguística: a Gramática da Existência. Para ele, a sintaxe não era uma estrutura abstrata de regência e dependência; era um reflexo direto do "corre", da luta diária pela sobrevivência e pela identidade.

Comecei a ouvir, realmente ouvir, o que ecoava nos corredores e entrava pela porta aberta. Eles não falavam errado; eles falavam com urgência. O dialeto de Fortaleza, aquela mistura veloz de humor e fatalismo, não era um desvio da norma, mas uma tecnologia de compressão. Quando um aluno dizia "aí dento", ele não estava apenas usando uma interjeição vulgar; ele estava executando um ato de defesa, uma negação filosófica do absurdo do mundo, rejeitando uma situação com duas palavras o que eu levaria um parágrafo parnasiano para recusar.

Minha prática pedagógica estava impregnada de preconceito linguístico.

Olhei para a frase morta no quadro: "É necessário que façamos silêncio."

Uma oração subordinada subjetiva. Fria. Impessoal.

Apaguei. O apagador levantou uma nuvem branca que dançou na luz do sol.

— Vamos reescrever. — Eu disse, tossindo levemente. — Como vocês diriam isso?

— "Bora baixar o faxo que o homem quer falar". — Sugeriu uma menina na primeira fila, arrancando risos nervosos.

Escrevi a frase. A grafia no quadro parecia vibrar.

— Analisem. — Pedi. — Onde está o imperativo? Onde está a ação?

Eles se inclinaram para a frente. De repente, a gramática não era mais um esqueleto num laboratório de anatomia, mas o próprio corpo vivo da comunicação. Percebi que o ensino ali, no Joaquim Nogueira, não podia ser sobre impor uma língua morta sobre uma língua viva. Tinha que ser sobre tradução. O meu papel não era exterminar o "cearensês" deles, mas mostrar que a caneta, assim como a gíria, era uma arma.

Passei o resto da aula dissecando as estruturas do "arriégua" e do "valha". Mostrei que a ênfase que eles davam nas vogais abertas era um recurso retórico tão válido quanto as inversões de Bilac. O giz voava, quebrando-se em pedaços menores à medida que eu tentava acompanhar o ritmo do pensamento deles. A lousa ficou caótica, cheia de setas e círculos, unindo a norma culta à fala da rua.

Quando o sinal tocou, estridente e definitivo, a sala se esvaziou numa explosão de mochilas e gritos. Fiquei sozinho, coberto de pó branco, olhando para o quadro. Ali estava o mapa de uma batalha onde ninguém perdeu. As orações subordinadas conviviam com as gírias de sobrevivência.

Peguei o apagador novamente. Era hora de limpar o terreno para a próxima turma, para o próximo turno. Enquanto apagava as frases vibrantes que havíamos construído, senti um peso estranho, uma melancolia súbita. Aquelas palavras, nascidas do calor do momento, eram voláteis. Elas existiam apenas enquanto eram faladas, enquanto o "corre" acontecia. Diferente dos livros encadernados que repousavam na biblioteca, a língua daquela escola era feita de giz: intensa, branca, mas fácil de ser soprada pelo vento.

O quadro voltou a ser um abismo negro e silencioso. Limpei as mãos no jaleco, sentindo a textura áspera do resíduo. Aquele pó em meus dedos era tudo o que restava das vozes que preencheram a sala. Eram fragmentos de uma sintaxe existencial que se recusava a ser fossificada. Guardei o toco de giz no bolso, como quem guarda um segredo, e saí para o corredor, onde a vida continuava a ser escrita em voz alta, sem borracha e sem rascunho. O silêncio da lousa limpa, contudo, já me preparava para outra lição, uma que eu intuía que aprenderia longe dali, onde o tempo, e não o giz, dita a duração das palavras.

Por José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras daHumanidade



segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

CRÔNICA DO DIA - A Primeira Poda: O Alfabeto de Bacabal



O calor em Bacabal não se limita à temperatura; é uma entidade física que pressiona os ombros, uma mão pesada feita de luz e poeira que obriga tudo e todos a um ritmo mais lento. Na varanda daquela casa antiga, onde a madeira do assoalho rangia em lamentos secos a cada passo, Bento não segurava uma caneta para criar mundos, mas para destruí-los. Diante dele, sobre a mesa coberta por uma fina película de terra vermelha trazida pelo vento, repousava um dicionário volumoso, de capa dura e lombada gasta. Para qualquer outro habitante da Terra das Bacabas, aquilo era um repositório de saber. Para Bento, era um jardim infestado de ervas daninhas que precisava desesperadamente de uma poda.

Ele sempre acreditara que o maior erro da humanidade foi a prolixidade. O excesso. Havia palavras demais para sentimentos de menos. A cidade lá fora, com seu trânsito de motocicletas e o som distante de uma brega a tocar em algum bar na Estrada da Bela Vista, parecia confirmar sua tese: havia muito ruído preenchendo o vazio, muita casca para pouca polpa. Bento ajustou os óculos no nariz suado e abriu o livro na letra A. Seu instrumento de trabalho não era o teclado de um computador, mas uma caneta de tinta preta, grossa e definitiva. O ato de escrever, pensava ele, era vulgar quando comparado à nobreza do corte.

A primeira vítima foi "abracadabrante". Riscou-a com violência. Uma palavra que se pavoneava, cheia de sílabas desnecessárias para dizer algo surpreendente. O traço negro cobriu o verbete como uma cicatriz. O silêncio da tarde pareceu agradecer. Bento não buscava o minimalismo por uma questão estética de moda, mas por uma necessidade fisiológica de respiração. O texto, assim como o pulmão, precisava expulsar o ar viciado para que o novo pudesse entrar. Se ninguém cortasse os galhos mortos da língua, a árvore do pensamento sufocaria sob o peso de sua própria folhagem adornada.

Ele olhou para o quintal através da grade de ferro. Uma bacabeira erguia-se majestosa, suas palmas desenhando sombras no chão batido. A natureza sabia o que fazia. A bacaba não pedia licença para ser exata; era fruto, caroço, vinho e óleo. Não havia desperdício em sua constituição. A linguagem, contudo, havia se tornado obesa. As pessoas falavam "neste momento presente" quando "agora" bastava. Escreviam "subir para cima" com a naturalidade de quem ignora a gravidade. Bento sentia-se um cirurgião em um hospital de campanha, amputando o desnecessário para salvar o paciente.

— O que você está fazendo, menino? — A voz da mãe veio da cozinha, acompanhada pelo cheiro de café passado na hora. Era uma pergunta retórica, daquelas que ele estava prestes a eliminar de seu dicionário pessoal, mas a ternura no tom a salvava do extermínio.

— Limpando o terreno, mãe. — Respondeu ele, sem levantar os olhos da página manchada de tinta. — Tirando o mato do meio das letras.

Ela riu, um som curto e cristalino, e voltou aos seus afazeres. Ela não entendia, e talvez fosse melhor assim. A ignorância da complexidade linguística era uma bênção que permitia às pessoas viverem a poesia sem precisarem dissecá-la. Mas ele, amaldiçoado pela consciência da sintaxe e pela tirania da semântica, tinha um dever. Ele era o exterminador.

O termo soava agressivo, quase bélico. Exterminador. Aquele que põe fim. Mas Bento ressignificava a função a cada risco no papel. Não era a morte da língua, era a sua purificação. Michelangelo dizia que a estátua já estava dentro da pedra; cabia ao escultor apenas retirar o excesso. Bento aplicava a mesma lógica às frases. O romance perfeito, o poema definitivo, a crônica imortal, todos eles já existiam, soterrados sob toneladas de advérbios terminados em "mente" e adjetivos decorativos. Seu trabalho era escavar.

Voltou ao dicionário. "Alarido". Riscou. O som da palavra já incomodava. "Algazarra". Fora. Ele queria chegar ao osso da língua portuguesa, àquela estrutura branca e dura que sustenta o significado sem precisar de carne mole ao redor. Bacabal, com seu sol inclemente, ensinava isso. Aqui, a sombra era valiosa porque era escassa. A água do Mearim corria barrenta, carregando sedimentos, mas em sua essência, era vida líquida. O escritor precisava ser como aquele rio: carregar o peso da terra, mas continuar fluindo, ignorando as margens que tentavam contê-lo.

À medida que a tarde caía e o calor dava uma trégua momentânea, dando lugar a uma brisa morna que agitava as folhas das mangueiras, Bento sentiu o peso da responsabilidade. Cada palavra que ele poupava, cada termo que ele decidia manter, ganhava uma gravidade nova. "Amor". Ele parou a caneta sobre o verbete. Era uma palavra gasta, usada em canções ruins e em promessas falsas. Merecia ser exterminada? O dedo indicador pairou sobre o papel. Se riscasse "amor", o que sobraria para definir o aperto no peito que sentia ao lembrar de um rosto perdido ou a devoção de sua mãe coando café na cozinha?

Ele suspirou e deixou a palavra intacta. O exterminador também precisava saber a hora de embainhar a espada. A lição da poda não era deixar a árvore nua, mas deixá-la forte. Havia uma linha tênue entre a síntese e o silêncio absoluto. Se ele cortasse tudo, restaria apenas a página em branco, a perfeição inatingível e inútil. O desafio não era o vazio, mas a precisão. Escolher a palavra certa era como escolher a bacaba certa no cacho: exigia olho treinado e respeito pelo tempo de maturação.

A luz alaranjada do pôr do sol invadiu a varanda, tingindo o dicionário mutilado de cores quentes. Bento percebeu que sua tarefa em Bacabal era apenas o começo. A cidade, com suas contradições, sua poeira e sua vida pulsante, era o cenário ideal para essa primeira poda. Aqui, onde a terra é fértil mas cobra seu preço em suor, ele aprendeu que escrever é, antes de tudo, um ato de renúncia. Para que uma frase brilhe, mil outras precisam morrer na escuridão do não-dito.

Fechou o livro com um baque surdo. A poeira subiu, dançando nos raios de luz. Ele não havia escrito uma única linha naquele dia, e no entanto, sentia que havia produzido mais do que em anos de frenesi literário. Havia aberto clareiras na floresta densa do idioma. Amanhã, continuaria. Ainda havia todo o resto do alfabeto para enfrentar, e a cada letra, a promessa de encontrar a essência escondida sob a casca grossa da linguagem. O silêncio, agora, parecia menos um vazio e mais uma tela.

Com a caneta repousando ao lado do dicionário, Bento olhou para as próprias mãos, sujas de tinta e pó. Eram mãos de trabalhador, não muito diferentes das mãos dAs quebradeiras de coco de São Sebastião do Pretos ou dos pescadores do Mearim. A ferramenta mudava, mas o suor era o mesmo. A busca era a mesma: extrair o sustento, a verdade, a polpa. Naquela varanda em Bacabal, sob o testemunho mudo das árvores que davam nome à terra, ele aceitou sua vocação. Não seria um criador de labirintos, mas aquele que derruba as paredes para que se possa ver o horizonte. A primeira poda estava feita, e o que restava no papel, embora pouco, era finalmente verdadeiro.

Por José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humannidade

domingo, 22 de fevereiro de 2026

CRÔNICA DOI DIA: O Ritmo das Pedras de Cantaria


O brilho da estrela mais próxima da terra às três da tarde em São Luís não perdoa poetas nem azulejos. Refletia-se nas fachadas coloniais da Praia Grande com uma insolência que transformava a história em um espelho cegante. Brilha mais anda nos couros bordados do Bumba-meu-meu, patrimônio imaterial de nossa cultura. Lázaro estava sentado em uma mesa de ferro bamba, na sombra precária de um sobrado da Rua do Giz, tentando capturar a alma daquela cidade em uma folha de papel pautado. Mas a alma de São Luís era uma substância escorregadia, feita de paradoxos. Diante dele, a herança da Atenas Brasileira impunha uma gravidade solene; atrás dele, vindo de algum bar na Rua da Estrela, o grave de uma radiola anunciava que ali também era a Jamaica Brasileira.

Ele segurava a caneta como quem segura um bisturi, buscando a incisão perfeita, mas a mão tremia. Não de medo, mas de vibração. O problema residia na sintaxe. Como conciliar a rigidez gramatical de Odorico Mendes, aquele purismo que parecia emanar das pedras de cantaria que calçavam as ladeiras, com a liberdade sincopada de um roots reggae que invadia os ouvidos e desorganizava os batimentos cardíacos?

Lázaro escreveu: "A cidade repousa sobre ombros de pedra..."

Parou. Riscou.

Muito estático. A cidade não repousava; ela dançava, mesmo quando parada. As pedras de cantaria, trazidas de Portugal como lastro de navios séculos atrás, compunham o chão onde pisavam os fantasmas dos grandes literatos. Ali, diziam, falava-se o melhor português do Brasil. O fantasma da ênclise e da mesóclise assombrava cada esquina. "Dier-se-ia que a beleza..." , não, impossível. Lázaro olhou para o copo de Guaraná Jesus à sua frente, o líquido cor-de-rosa tremulando em anéis concêntricos a cada batida do baixo que vinha do sistema de som distante.

Aquele tremor no líquido era a verdadeira crônica.

Ele tentou novamente. Queria descrever o casarão à sua frente, com seus arcos ogivais e o lodo verde que crescia na junção das pedras, testemunha da umidade equatorial que apodrecia livros e memórias. Mas a música era uma intrusa persistente. Era uma "pedra" — gíria local para uma faixa de reggae clássica e pesada — girando em algum vinil arranhado. O som "chiado" e o "bum-bum-bum" do baixo formavam uma métrica que não cabia nos versos decassílabos que a tradição da Atenas exigia.

— Está brigando com o papel de novo, Lázaro? — A voz rouca do garçom, um homem idoso que já vira mais poetas fracassados do que marés no Rio Anil, o tirou do transe.

— Estou tentando costurar dois tecidos que não combinam, Seu Zé. — Respondeu Lázaro, largando a caneta sobre a mesa. — A cidade quer ser mármore, mas o corpo dela é ginga. Como é que se escreve o som de um paredão de som usando a gramática de Gonçalves Dias?

O velho riu, recolhendo um prato vazio da mesa vizinha.

— O senhor pensa demais. O povo aqui dança agarrado no azulejo. A pedra fria gosta do calor do corpo. Não tem briga não, doutor. É tudo a mesma quentura.

Lázaro observou o homem se afastar com a bandeja equilibrada numa dança natural. Talvez ele estivesse certo. A dualidade não era um duelo, era um dueto. Ele olhou para o calçamento irregular da rua. As pedras de cantaria, blocos brutos de lioz, eram irregulares, cheias de texturas, assim como o ritmo que flutuava no ar parado da tarde.

Fechou os olhos e tentou ouvir a cidade não como um cenário, mas como um texto. Havia o barulho seco dos sapatos sociais dos advogados subindo a ladeira, marcando um compasso binário, rígido, burocrático. Havia o grasnar das gaivotas sobre o cais, pontuando o céu como vírgulas aéreas. E havia o reggae, onipresente, uma linha de base, um travessão contínuo que sustentava todo o discurso urbano.

A escrita precisava perder a gravata. Lázaro percebeu que seu erro era tentar "explicar" a mistura, quando deveria apenas "ritmá-la". A erudição de São Luís não estava na pureza vocabular, mas na capacidade antropofágica de engolir o mundo e devolvê-lo transformado. A cidade absorvera a métrica europeia e a percussão caribenha e criara algo que só existia ali, naquela ilha magnética como um dia afirmara César Nascimento.

Pegou a caneta novamente. Dessa vez, não buscou adjetivos grandiloquentes. Buscou o som.

"O azulejo estala no contratempo."

Melhor. Começava a fazer sentido. A arquitetura não era um monumento morto; era uma caixa de ressonância. O poema precisava ser lido no tempo da música. As sílabas tônicas deviam cair onde o pé batia no chão. A erudição da "Atenas" fornecia o vocabulário, vasto, rico, cheio de nuances, mas a "Jamaica" fornecia a sintaxe do corpo, a ordem em que as palavras se moviam no espaço da página.

Um grupo de turistas passou, guiado por alguém que recitava datas e nomes de governadores mortos. Eles olhavam para as sacadas de ferro fundido, admirados. Mas não viam o que Lázaro via: que aquelas sacadas eram pautas musicais vazias esperando as notas. Não sentiam que a umidade que fazia o reboco descascar era a mesma que lubrificava as articulações dos dançarinos nos clubes de reggae da periferia.

A escrita, pensou ele, é um ato de ritmo. Se a frase não tem balanço, ela cai morta antes do ponto final. O escritor em São Luís tem que ser um DJ de fonemas. Tem que saber a hora de soltar a frase longa, melancólica como um fado, e a hora de cortar, secar, sincopar como um dub.

A música no bar aumentou. O refrão, em um inglês macarrônico que ninguém se importava em traduzir porque o sentido estava na vibração e não na letra, invadiu a praça. Lázaro deixou-se levar. Sua letra cursiva, geralmente tão desenhada e escolar, começou a ficar mais solta, mais agressiva. As letras ganharam ângulos, perderam a curvatura barroca e ganharam a urgência da rua.

Ele escreveu sobre a "pedra" que é música e a "pedra" que é muro. Sobre como ambas são duras, mas só uma faz flutuar. Escreveu sobre o poeta que morre de tuberculose e o rastafári que vive de brisa. No papel, as duas figuras se encontravam no Beco da Catarina Mina, trocavam um cumprimento silencioso e seguiam juntas, uma recitando versos em latim, a outra cantarolando Bob Marley.

De repente, a tinta falhou. Lázaro sacudiu a caneta. O fluxo parou justamente na palavra "silêncio". Uma ironia fina. A cidade nunca estava em silêncio, nem mesmo em suas bibliotecas. Os livros sussurravam, as pedras estalavam com o calor, o mar batia nas muralhas do palácio. O silêncio era uma invenção dos gramáticos. A vida era ruído.

Ele olhou para o resultado. O poema era torto, assimétrico, sujo. Tinha marcas de suor onde ele apoiara o punho e uma mancha rosa de guaraná no canto inferior. Não era um soneto parnasiano. Não ganharia prêmios na Academia Maranhense de Letras pela correção formal. Mas tinha pulso. Se ele encostasse o ouvido no papel, podia jurar que ouviria o baixo retumbando. Algo que faria Lourival Serejo julgar que aquilo era pura literatura Maranhense das mais brasileiras possíveis.

O entardecer trouxe uma mudança na luz. O amarelo agressivo tornou-se um dourado melancólico, típico daquela posição equatorial. As pedras de cantaria pareciam amolecer, transformando-se em ouro líquido por alguns minutos. Lázaro sentiu uma exaustão física, como se tivesse dançado a noite inteira, embora não tivesse saído da cadeira. Escrever duelando com a cidade exigia músculos que a anatomia desconhecia.

Não adiantava duelar com a história, a ideologia Ludovicense não deixava a ilha do amor melhor do que ninguém, a cultura estava após o estreito dos mosquitos fazendo da Atenas e da Jamaica brasileiras corpos inseparáveis de gêmeos siameses.

Levantou-se, guardando o caderno no bolso de trás da calça jeans. O volume do papel amassado pressionava contra o corpo, um lembrete físico da batalha travada. Pagou a conta com notas miúdas, amassadas como seus rascunhos.

Saiu caminhando em direção à Fonte do Ribeirão. Seus passos, inconscientemente, seguiam o ritmo que ainda ecoava em sua cabeça. Um pé na erudição, outro na vibração. Tinha capturado algo, sim. Não a cidade inteira , isso seria impossível, pois São Luís se reinventava a cada maré, mas capturara o atrito. E era no atrito, na faísca entre a pedra erudita e o som popular, que a literatura acontecia de verdade.

Enquanto descia a ladeira, cruzou com um grupo de estudantes uniformizados, rindo alto e falando numa velocidade que desafiava qualquer dicionário. Suas gírias cortavam o ar, rápidas e incompreensíveis para os ouvidos destreinados, uma nova camada de linguagem sendo cimentada sobre as pedras antigas. Lázaro sorriu. O ritmo das pedras de cantaria havia, finalmente, encontrado seu compasso na página, mas a cidade já estava criando, ali na calçada, a próxima gramática que ele precisaria decifrar. A fusão entre a Atenas e a Jamaica não era o fim do processo, era apenas a base, o alicerce sólido e vibrante sobre o qual novos neologismos continuariam a ser erguidos e demolidos.

Por José Casanova
professor, Jornalista, Escritor  e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade