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segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

Rogério Santos apoia grupos culturais em Bacabal

O ex-vereador Rogério Santos sempre apoiou grupos culturais em Bacabal e região, principalmente no Bairro da Cohab onde o mesmo reside e tem um  ótimo relacionamento com a comunidade. Neste período Carnavalesco, Rogério foi convidado pela comunidade a ser padrinho do Bloco dos Sem?, grupo que já surgiu forte na cidade.

Rogério deu todo apoio para que o bloco fosse ás ruas, acompanhado do seu irmão Carlos Jorge, da família e dos amigos, Rogério mais uma vez consegue se destacar na comunidade, o Bloco dos Sem? já faz planos para se fortalecer no  ano que vem.

A brincadeira entre amigos da Cohab não teve incidentes e colaborou para fortalecer os laços de amizade no bairro Cohab, Rogério Santos agradeceu o apoio dos Deputados Davi Bradão e Roberto Costa para colocar a brincadeira na rua.















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CRÔNICA DO DIA: Memórias de um menino Poeta

 

Quando faço o download dos arquivos das lembranças da minha infância, sou transportado para um mundo de magia e descobertas. Lá dentro, encontro os tesouros que moldaram quem eu sou hoje, memórias preciosas que guardo com carinho.

Lembro-me das tardes que passei brincando no quintal de casa. Quando havia casas e quintais. Hoje as árvores dos quintais são derrubadas para dá lugar a quitinetes de aluguel. Quando o espaço é pouco, constrói-se para cima e chamam de condomínio fechado, espaços onde as pessoas se fecham a fugir de si mesmas.

 Os quintais eram um mundo à parte, onde a imaginação reinava e qualquer objeto podia se transformar em um artefato mágico. Uma simples caixa de papelão se tornava um navio pirata navegando por mares desconhecidos, enquanto um pedaço de pau virava uma espada afiada, pronta para enfrentar perigos imaginários. Jogávamos peteca, soltámos Papagaio (Pipa) sem cerol , o importante  era colorir o céu com a brincadeira, no futebol sonhávamos em ser Pelé, Zico, Garrincha, Dr. Sócrates e praticávamos inocentes roubos no pé de manga rosa na casa do vizinho.

As histórias que inventávamos naquele quintal me ensinaram muito sobre criatividade e trabalho em equipe. Aprendi a valorizar a amizade e a importância de sonhar grande, mesmo que isso significasse enfrentar monstros e dragões em nossas brincadeiras. Éramos tão inocentes que brincávamos de bandido e polícia, mas nunca de políticos. A inocência tinha sabor de liberdade.

Outra lembrança que se destaca é a dos passeios de bicicleta pelas ruas tranquilas do bairro. Nessas pedaladas, aprendi sobre perseverança e dedicação, pois não desistir era a única opção já que minhas pedaladas não davam para acompanhar os colegas de perto.

Meu pai sempre me dizia que a vida é como andar de bicicleta: é preciso manter o equilíbrio e seguir em frente, mesmo quando parece difícil. Essa lição ficou gravada em minha mente e me acompanha até hoje, lembrando-me de nunca desistir diante dos obstáculos que a vida apresenta.

Lembro-me de minha primeira professora;  Maria, dona Conceição Miranda , era assim que eu a chamava com orgulho, não posso esquecer da professora auxiliar Jesus Miranda. No expositor das lembranças também guardo os momentos em que me refugiava nos livros, viajando para mundos distantes e vivendo aventuras inesquecíveis através das palavras. Essas histórias me ensinaram sobre empatia, coragem e a importância de nunca deixar de sonhar, mesmo quando o mundo real parecia sombrio.

Hoje, olho para trás e vejo como essas experiências moldaram quem eu sou. A criança que brincava no quintal se tornou um adulto que valoriza a criatividade e a imaginação, o menino que roubava manga do quintal do vizinho, um adulto que respeita o direito de propriedade.  O garoto que pedalava na bicicleta Monareta  se transformou em alguém que sabe a importância da perseverança e da determinação. E o jovem que se refugiava nos livros se tornou um amante da literatura, sempre em busca de novas histórias para se inspirar, como esta crônica que você está a ler.

Caso meus país fossem vivos, diriam que  o baú  das minhas lembranças está cheio de momentos que moldaram quem eu sou hoje. São lembranças que guardo com carinho e que me lembram todos os dias da magia da infância e do poder transformador das experiências vividas naqueles anos preciosos. Gostaria de viver outra vez, em outra época, em outro corpo, pra terminar a história que comecei...

Por José Casanova
Professor, Jornalista e Escritor membro da
Academia Bacabalense de Letras

 

domingo, 18 de fevereiro de 2024

CRÔNICA DO DIA: Primeiro dia de aula em Alto Alegre

 

No pequeno e próspero  município de Alto Alegre do Maranhão, a chegada do novo ano letivo é sempre aguardada com expectativa. O primeiro dia de aula, em especial, é como a abertura de um grande espetáculo, onde cada personagem tem seu papel definido.

Os professores, ansiosos e dedicados, prepararam suas salas de aula com carinho e atenção aos mínimos detalhes. No entanto, nem todos agem assim, há aqueles que já chegam na escola catando os feriados no calendário, ou até mesmo numa total falta de empatia com os colegas, mau bate o horário, já querem saber que faltou para subir os horários para irem embora mais cedo.

Vale lembrar que cartazes coloridos, murais com boas-vindas e material didático impecavelmente organizado demonstravam o zelo da equipe pedagógica em receber os alunos.

Por outro lado, os alunos, em sua maioria, parecem alheios à agitação que toma conta da cidade. Para muitos deles, o retorno às aulas representava não apenas o reencontro com os amigos, mas também o reinício das cobranças e responsabilidades escolares. Para outros é um sacrifício voltar para escolas, estudar para eles é chato e cansativos, por mais que  os professores pensem um projeto de  vida para eles, a família não sabemos se é viva ou morta, a maioria são criados pelos avós, muitas vezes vítimas da violência domestica praticada pelos próprios netos.

Os gestores, por sua vez, buscavam fazer diferente a cada ano, assim age professra Sandra e professor Gidean , diretores da escola  Santa Mônica e professor Renato da escola Mamede Pires e outros gestores escolares ,implementando projetos pedagógicos inovadores e aprimorando a infraestrutura das escolas. As reuniões ,às vezes são intermináveis, os planejamentos minuciosos e as expectativas elevadas são características marcantes desse período.

Enquanto isso, no sindicato dos professore , o pequeno grande homem, professor Mano cobra os direitos trabalhistas e luta por melhores condições de trabalho para  categoria. As reivindicações são constantes e, muitas vezes, conflitantes com as possibilidades financeiras da secretaria de educação.

Por falar em secretaria de educação, a mesma é liderada pelo professor Ribamar Moura , grande mestre desse jogo de xadrez educacional. Conduzindo a política pública de educação com habilidade e estratégia, ela precisa equilibrar as demandas dos professores, dos alunos, dos gestores, do sindicato e da comunidade, garantindo que todas as peças do tabuleiro se movam de forma harmoniosa e produtiva.

Cá estou eu a pensar e observar as  águas turvas do Tapuio,  será  que receberei os precatórios antes de Morrer? Nem Camilo explica... Deixarei de herança para meus filhos...

Portanto, o primeiro dia de aula em Alto Alegre é muito mais do que o início de um novo ano letivo. É o reflexo de um sistema complexo, onde cada peça tem sua importância e seu papel a desempenhar, em busca de um objetivo comum: a construção de um futuro melhor  para cidade, através da educação.

Por José Casanova
Professor, Jornalista e Escritor  membro da
Academia Bacabalense de Letras

 

 

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024

CRÔNICA DO DIA - URQUIZA: O Mestre do Origami

No coração da Terra da Bacaba, entre o caos dos carros e o burburinho das pessoas, vive Urquiza, um artesão cujas mãos habilidosas transformam simples folhas de papel em obras de arte impressionantes. Parece que há mágica nas mãos de Urquiza. Esse magnetismo oculto em suas mãos o  tornou conhecido como  Mestre do Origami, Urquiza não apenas dobra e molda o papel, mas também conta histórias através de suas criações.

Toda manhã, Urquiza inicia uma verdadeira via sacra visitando pequenas lojas locais em busca do papel perfeito. Cada loja é uma estação que lembra o sofrimento do Cristo no caminho para o calvário. Fazer cultura na Terra da Bacaba é um martírio social. Em sua busca pela matéria prima, ele procura  texturas únicas e cores vibrantes, pois cada papel conta uma história diferente. De volta ao seu modesto estúdio, mergulha em seu mundo de dobras e vincos, transformando o papel em belas formas que ganham vida sob suas mãos habilidosas.

Cada peça de Urquiza tem uma história por trás, uma experiência vivida que ele compartilha através de sua arte.  Em cada peça produzida há as digitais dos  seus dedos leves e enigmáticos Uma águia que representa a liberdade após um período difícil, uma rosa que simboliza o amor eterno, um dragão que retrata a força e a sabedoria. Cada dobra é cuidadosamente planejada, cada peça é única e carregada de significado.

O que pensa o artesão em seu estaze criativo só eles mesmo sabem, mas nem tudo são dobras suaves e perfeitas para o artista do  pepel. Urquiza enfrenta desafios em seu ofício. A busca por papel de qualidade nem sempre é fácil, e a constante inovação para manter viva uma arte tradicional em um mundo moderno é um desafio constante. No entanto, para Urquiza, cada desafio é uma oportunidade de crescimento e aprendizado.

Para Urquiza, o significado por trás de seu trabalho vai além da arte visual. Além da estética do origami, há uma imagem acústica nas suas peças. Cada peça é uma expressão de paciência, perseverança e amor pela arte. É um lembrete da importância de preservar e valorizar as tradições artísticas, que não apenas enriquecem nossas vidas visualmente, mas também nos conectam com nossa história e cultura.

Assim, Urquiza , o Mago do Origami, continua sua trajetória criativa, dobrando histórias e criando arte que transcende o papel e toca os corações daqueles que têm a sorte de contemplar sua obra.

Por José Casanova
Professor, jornalista e escritor membro da 
Academia Bacabalense de Letras

 

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

CRÔNICA DO DIA: O último Carnaval

 

O planeta terra havia crescido culturalmente, com avanços científicos e a ascensão da inteligência artificial, que  competia com a raça humana, que do ponto de vista ético e moral entrara em declínio sem solução. A guerra tomara conta da história. No Brasil as ruas estavam vazias, os prédios em ruínas, e o céu cinzento parecia pesar sobre os ombros daqueles que ainda resistiam. Em um mundo à beira do colapso, onde cada dia era uma batalha pela sobrevivência, um grupo de pessoas decidiu que era hora de celebrar a vida de uma maneira única e especial: realizar o último carnaval antes do fim do mundo.

Nada unia mais o povo a não ser a cultura, tão desvalorizada pelas autoridades planetárias. Reunido as últimas forças , começaram os  preparativos semanas antes, com os poucos recursos que ainda restavam sendo cuidadosamente guardados e compartilhados entre os sobreviventes. Músicos improvisaram instrumentos com o que tinham à mão, e artesãos trabalharam incansavelmente para criar fantasias coloridas e máscaras elaboradas.

O tempo não representava nada  para as pessoas, o apocalipse paralisou todos os relógios digitais, os  únicos a funcionarem era os jurássicos relógios a corda, que os mais  novos nem sabiam como usar. Quando o dia finalmente chegou, as ruas ganharam vida de uma maneira que há muito não se via. O som dos tambores ganharam as ruas desertas, e as pessoas saíam de suas casas, vestidas com seus trajes festivos, prontas para esquecer, nem que fosse por um momento, as agruras do mundo em decadência.

Dona Maria improvisara uma bandeira verde e rosa, e com   muito zelo e habilidade manual, fizera sua fantasia de porta bandeira, e seu filho com fragmentos de uma bomba improvisou sua roupa de Mestre Sala. Os sorrisos de ambos eram genuínos, as risadas do povo contagiantes. Por um instante, as preocupações do amanhã foram deixadas de lado, e as pessoas se permitiram apenas serem felizes, mesmo que fossem pela última vez.

Enquanto o sol se punha no horizonte, pintando o céu de tons de laranja e rosa, o grupo se reuniu em torno de uma fogueira improvisada. Ali, sob as estrelas, eles dançaram e cantaram, celebrando a vida e a cultura que estavam prestes a desaparecer. A mídia noticiou o fato como folclore, comportamento primitivos de um país chamado Brasil, os robôs com inteligência artificial se divertiam achando tudo aquilo muito engraçado.

E, quando a última chama se apagou e o último tambor parou de ecoar, as pessoas se abraçaram, sabendo que aquele momento seria eternamente guardado em suas memórias. Havia cheiro de gente no que fizeram, o colorido das roupas improvisadas contrastavam com o  cotidiano cinza que criaram para si ao aceitarem serem manipulados por falsos líderes políticos e religiosos.

Ao longe perceberam o brilho de mais um cogumelo gigante de uma bomba atômica. Um  robô passou apressado e disse:

_ Corram humanos, que o tempo é curto e a Sapucaí é grande!

 Os humanos olharam-se apreensivos e, calmamente ,  saíram em retirada , pois mesmo em meio ao caos e à escuridão, o carnaval trouxera luz e esperança, lembrando a todos que, enquanto houver vida, há também possibilidade de alegria e sobrevivência.

 Por José Casanova

terça-feira, 13 de fevereiro de 2024

CRÔNICA DO DIA: O mundo é dos espertos!

 

No movimento constante de pessoas que chegam e partem do terminal rodoviário da minha cidade natal, vindas de diferentes lugares ou rumando para destinos diversos, encontramos os agentes das empresas de ônibus. Seu trabalho consiste em atrair passageiros para suas respectivas companhias, enquanto fazem comparações entre a eficiência de sua empresa e a suposta lentidão das concorrentes, chegando até mesmo a comparar seus ônibus a aeronaves.

O frenesi é palpável quando um passageiro desembarca de seu veículo de origem, seja ele um motociclista, um taxista ou o condutor de um veículo de pequeno porte. Conhecendo essa dinâmica, decidi testar os vendedores de passagens em u ma ocasião em que cheguei à rodoviária e fui abordado por um deles.

_ Bom dia meu patrão! – Disse solícito um dos jovens, vestido numa farda surrada da empresa.

Estava, como sempre, acompanhado de outros vendedores de outras empresas é claro. Vivi ali o ritual do voo dos urubus sobre a carniça   do lucro. Para eles o passageiro não passa de uma cifra monetária. 

_ Bom dia meu filho! – Respondi com carinho.

_ O Senhor vai viajar pra onde? Posso lhe ajudar? – Insistiu o rapaz pensando na venda da passagem.

_ Vou tirar minha passagem pra Belém. – Respondi.

Enquanto ele me acompanhava dei a cartada final:

_ Há alguma possibilidade de passagem gratuita para idosos? – perguntei fingindo inocência .

Pronto. Era o que faltava para estragar o dia do vendedor de passagens. Não tenho culpa se tenho sessenta anos e o governo acha que sou idoso. Passagens gratuita pra idosos e pessoas com deficiência é o terror dos agentes de viagem.  Naquele momento os “urubus” que planejavam comer a carniça da terceira idade, saíram todos de perto me deixando a falar sozinho.

Será que foi alguma coisa que eu falei?...  Vida que segue...  E seguiu mesmo, não é que nessa hora chega a famosa Lúcia Correia em sua cadeira de rodas, mulher cadeirante fundadora da associação dos deficientes, estava acompanhada dos filhos Wladimir e Dandara e vinha justamente agendar uma passagem gratuita para pessoa com deficiência e mobilidade reduzida. O teor da conversa dela com os vendedores de passagem deixo a cargo de vocês caros leitores, escrevam o pedaço “indizível’ da crônica.

Testemunhei outro episodio pitoresco na mesma rodoviária. Chegou um cliente e pergunta a uma vendedora qualquer se tinha coxinha. Então a vendedora do box vizinho logo respondeu  que  tinha. Isso garantiu para a mesma a venda da cozinha e um refrigerante . Até aí tudo bem. Como a quantidade de coxinhas estava quase no fim, ela a que foi mais esperta, resolveu colocar mais coxinhas no recipiente, sabe o que aconteceu em seguida?

Um acidente faz com que caíssem no chão pelo menos cinco coxinhas. Esperta, olha para todos os lados e percebe que todos perceberam o incidente e não teve outra opção a não ser jogar as coxinhas no lixo. Veja bem o lucro da venda de uma que ela “espertamente” vendeu foi para lixeira em cinco unidades.

Como diria meu pai: O mundo é dos espertos!... Será?

Por José Casanova
Professor, Jornalista e escritor membro da 
Academia Bacabalense de Letras

P.S.: Esta crônica foi inscrita a  partir e de tema proposto pelo escritor Poeta Triste
 

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

CRÔNICA DO DIA: Falas do silêncio

Prefiro não dizer onde começa essa história, que me veio à cabeça como um poema chega pela inspiração ao poeta. Sei que estou numa metrópole, onde os filhos do concreto permeiam nossas rotinas diárias e noturnas, nesta selva de pedras bem projetada ,existe um som muitas vezes negligenciado: o silêncio. Não é aquele silêncio pacífico das madrugadas serenas, mas sim um silêncio carregado de solidão, de desconexão, de desespero.

Em uma rua barulhenta, onde os motores roncam e as multidões se movem em um frenesi constante, há um homem que se destaca não pelo seu alarido, mas pela ausência dele. Ele está lá todos os dias, sentado em seu banco de madeira, com os olhos perdidos no vazio e a alma sobrecarregada de histórias não contadas.

Meu faro de jornalista decidiu desvendar o enigma por trás da figura silenciosa. Seres humanos enigmáticos sempre me renderam histórias interessantes.

 Aproximei-me do homem silencioso, que está sentava em seu banco de madeira, olhando para o horizonte. Seus olhos refletiam as cores do vazio, e expressavam a aquarela do silêncio.

_Com licença, posso me sentar ao seu lado? – Perguntei ao homem, já ligando meu smartfone na intenção de gravar nossa conversa.

O Homem acenou levemente com a cabeça em consentimento.

_ Obrigado. Meu nome é Marcos, sou jornalista. Eu tenho notado você aqui todos os dias. Você se importaria de me contar um pouco sobre você?

Ele Olha-me atentamente  por um momento, avaliando-me  silenciosamente, como se desvendasse todos meus segredos e falou:

_ Eu costumava ser um poeta.

_Um poeta? Que interessante! Suas palavras chamavam atenção das pessoas, conseguia tocar muitos corações com suas poesias, não é?

_ Sim, elas costumavam. Mas isso foi há muito tempo.

_ O que aconteceu? Por que parou de escrever? – quis saber curioso

O Homem Suspira profundamente. Olha nos meus olhos e volta a olhar para o vazio.

_ Um dia, as palavras simplesmente desapareceram. Não consegui mais encontrá-las, não consegui mais pronunciá-las. – Disse o homem vestido numa camisa onde se via a imagem estampada de Fernando Pessoa.

_Isso deve ter sido difícil. Como você lida com isso agora?  - Insistir.

_Eu aprendi a encontrar paz no silêncio. Nas entrelinhas das coisas não ditas. Nos efeitos de sentidos da vida, nos pedaço indizíveis  dos poemas. – Respondeu o homem.

Agora utilizava a linguagem de um crítico literários, dava pra ver que o homem silencioso deveria ter conhecimento profundo do universo da literatura. Refletir um pouco  falei:

_ O silêncio se tornou sua voz, então?

_Talvez.  – Respondeu secamente. _O que você quer saber realmente, às vezes, é mais fácil ser ouvido quando você não está falando.

Assenti com a cabeça. Há momentos na vida que o melhor a fazer é concordar.

_Você acredita que o silêncio tem algo a nos ensinar? – Voltei a perguntar.

_ Sim, tenho certeza absoluta. O silêncio fala em volumes altos, se você estiver disposto a ouvir. – afirmou o homem.

_ Obrigado por compartilhar sua história comigo. Posso escrever sobre isso? – Perguntei num sorriso.

_ Você acha mesmo que alguém vai se interessar por isso? Não há palavras necessárias para o silêncio. Se elas puderem ajudar alguém a entender, então escreva.

Levantei do banco, agradecendo ao homem, e comecei a fazer minhas primeiras anotações  que dariam origem a essa crônica.

_Adeus, e obrigado mais uma vez.

_ Adeus, amigo. Que suas palavras encontrem o coração daqueles que precisam ouvir.- Ironizou o homem.

Sair o deixando novamente imóvel em seu silêncio contemplativo.Parte superior do formulário Descobri que aquele homem era um poeta renomado, cujas palavras costumavam tocar os corações de muitos. No entanto, em um fatídico dia, em meio ao tumulto da cidade, ele perdera a capacidade de falar. Literalmente vitima de uma depressão grave, que afetou drasticamente sua energia e motivação, levando-o à diminuição da fala e da capacidade de escrever.

Quero com essa crônica revelar como o silêncio desse homem se transformou em uma metáfora para a maneira como tantos de nós existem, aprisionados no estrondo ensurdecedor da vida moderna, incapazes de expressar verdadeiramente nossos sentimentos e emoções.

Como homem das letras, compreendo que o silêncio daquele homem não era um anátema, mas sim uma oportunidade para os outros ouvirem suas próprias vozes interiores, para se reconectarem com a essência da vida frequentemente abafada pelo tumulto ao nosso redor.

Assim, a crônica encerra-se com uma reflexão sobre a importância de encontrar momentos de silêncio em meio ao caos, de escutar as vozes que ecoam dentro de nós e de nos reconectarmos com o que verdadeiramente importa na vida. E, quem sabe, talvez descobrir a beleza no silêncio que grita, fala e sussurra.

Por José Casanova

 

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

CRÔNICA DO DIA: Não, é Não!!!!!



Em uma tarde quente de sexta-feira de carnaval, as ruas pulsavam com a energia típica da cidade grande em período carnavalesco. Entre o vaivém de pessoas, carros e sons urbanos, havia uma conversa que vinha de uma esquina próxima, uma conversa que despertava a atenção de todos que passavam por ali.

_Não é não!!! -  Dizia uma jovem com firmeza, seus olhos transmitindo uma determinação inabalável.

O rapaz que ouvira o Não, olhou perplexo para as pessoas que presenciavam a cena. Nunca se sentiu tão constrangido. Sua masculinidade foi parar na lata do lixo. Perdeu a fantasia viril para brincar o carnaval.

Essas três palavras aparentemente simples carregam consigo um peso imenso, uma mensagem que transcende o momento e mergulhava  profundamente na alma de todos os presentes. Ela estava rejeitando um avanço indesejado de um rapaz que insistia em suas investidas, e seu "não" era mais do que uma simples negação; era um manifesto contra a cultura de violência e desrespeito que muitas vezes assola as mulheres em nossa sociedade.

Não era mulher de muitos nãos, mas sentiu-se incomodada, invadida , assediada pelas as investidas do rapaz. O que poderia ser uma prazerosa paixão de carnaval, tornou-se quase um caso de polícia.

A cena me fez refletir sobre a importância crucial de promover a conscientização e a prevenção da violência contra a mulher. Afinal, a violência não começa no momento em que um golpe é desferido; ela começa muito antes, nas sutilezas do dia a dia, nas palavras e atitudes que desvalorizam e desrespeitam a dignidade das mulheres.

Em nossa busca por uma sociedade mais justa e igualitária, é fundamental reconhecer e combater os comportamentos que perpetuam a cultura do machismo e da violência. Precisamos educar nossos filhos e filhas desde cedo, ensinando-lhes o valor do respeito mútuo, da empatia e do consentimento.

"Não é não" deve ser mais do que uma frase; deve ser um princípio orientador de nossas interações e relacionamentos. Como  disse o poeta da música popular “uma mulher não quer uma cantada, prefere o setimento”. Devemos aprender a ouvir e respeitar os limites das mulheres, reconhecendo que seu corpo e sua autonomia pertencem somente a elas mesmas.

À medida que a tarde avançava e os blocos carnavalesco eram pra fantasia; a conversa na esquina se dissipava, então me vi inspirado pela coragem e determinação daquela jovem. Resolvi escrever essa crônica na certeza que poderei de alguma forma ajudar outras mulheres.  Aquela jovem não apenas defendeu seu próprio direito à autodeterminação, mas também plantou uma semente de mudança na consciência de todos os que testemunharam seu ato de resistência.

Que possamos todos nos unir nessa luta contra a violência e o desrespeito às mulheres, comprometendo-nos a criar um mundo onde o "não" de uma mulher seja sempre respeitado, onde sua segurança e dignidade sejam garantidas, e onde todos possam viver livres do medo e da opressão. Porque, afinal, não é não, e nunca deveria ser de outra forma.

Por José Casanova
Professor, Jornalista e Escritor Membro da
Academia Bacabelense de Letras

 

 

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024

CRÔNICA DO DIA - Jumento: o herói anônimo

Na vastidão da zona rural de algum recanto do Maranhão, onde o tempo parece escorrer em compasso lento, há um personagem que atravessa os caminhos poeirentos carregando o peso da história e da indiferença humana.

Já sabes de quem falo? Ainda não? Tudo bem!

Ele é o jumento, um herói anônimo relegado ao esquecimento pelos caprichos da modernidade e pela crueldade dos homens.

Com seu passo balançante e carregando consigo a carga pesada de cocos babaçu, acondicionados em cestos de jacá, ele é expulso pelo seu suposto dono, como se sua presença fosse apenas um incômodo a ser descartado. Outros jumentos seguem, cada um com sua carga peculiar, seja ela palhas de coco ou outros afazeres agrícolas, transportados em cambitos improvisados. São cenas corriqueiras, mas profundamente simbólicas, de um animal que foi cantado por Luiz Gonzaga como "nosso irmão".

Agora já sabes quem é nosso herói do sertão.

Desde tempos imemoriais, o jumento tem sido companheiro humano, suportando nas suas costas as vicissitudes da jornada pela sobrevivência. Foi nas suas costas que o Menino Jesus, fugindo da perseguição do governador, encontrou refúgio ao lado de sua mãe. Foi ele que ajudou a mitigar a sede do sertão, carregando toneladas de terra para a construção de açudes. Segundo a tradição cantada pelo Rei do Baião, todos os jumentos possuem uma cruz em sua pelagem, marcada pelo momento em que o Menino Deus, em sua inocência divina, fez um pequeno xixi.

O  homem é mau. Depois de tanto usar se livra dele como se descarta o que não presta. Os tempos mudaram, e o reconhecimento se transformou em desdém. Os jumentos, outrora heróis anônimos das estradas, agora são relegados à margem da sociedade, esquecidos e abandonados à própria sorte. São vistos como obstáculos a serem evitados nas estradas asfaltadas e de piçarras, frequentemente atropelados impiedosamente, enquanto a culpa recai injustamente sobre eles.

O homem, em sua crueldade e indiferença, deixou de reconhecer a nobreza e a importância do jumento. Após tantos anos de serviço fiel, são descartados como objetos descartáveis, vendidos para a indústria de cosméticos, onde sua pele é transformada em matéria-prima para produtos de beleza.

E assim, lentamente, o jumento, esse companheiro silencioso e leal, desaparece da paisagem rural, relegado ao esquecimento e à extinção. Num futuro não muito distante, nossos filhos e netos só poderão conhecê-los através de fotografias e relatos nostálgicos. É a triste sina do "nosso irmão", o jumento, um herói anônimo que se tornou vítima da ingratidão humana.

 p.s: Esra crônica foir escrita a partir de tema sugerido pelo escritor Poeta Triste.

Por José Casanova
Professor Jornalista e escritor membro da
Academia Bacabalense de Letras

 

terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

CRÔNICA DO DIA: O Museu das Lembranças Esquecidas

 

No coração de uma cidade anônima, entre becos ocultos e vielas esquecidas, erguia-se um edifício peculiar que escapa à atenção do olhar desatento. Não havia grandes placas indicativas nem sinalizações vibrantes; apenas um portão modesto, quase imperceptível, guardava a entrada para um lugar extraordinário: o Museu das Lembranças Esquecidas. Pensei em encontrar ali lembranças do meu passado apagadas pelo tempo.

Quando me veio a ideia de escrever esta crônica, pensei no poeta Cazuza e seu museu de grades novidades.  Em sua clássica letra ele afirmava ver “ o futuro repetir o passado”, o tempo deixa marcas que só ele mesmo nos faz esquecer.

Ao cruzar o limiar desse museu singular, os visitantes não eram recepcionados por obras de arte ou artefatos históricos, mas sim por uma atmosfera de silêncio e contemplação. O prédio parecia nos penetrar com seus olhos, cheirar nossa alma, ouvir nossos  batimentos cardíacos, sentir o gosto dos nossos medos, e deixar em nós as marcas de suas digitais.

 O ar carregava consigo o peso das memórias depositadas pelos que ansiavam esquecer. Cada corredor, cada sala, revelava histórias e sentimentos que alguém desejava apagar do registro do tempo.

O tempo, o próprio, a segurar sua ampulheta que nunca para de contar o tempo, era o curador desse museu, criado pela imaginação fértil de um poeta. Caso o  tempo fosse algo ou alguém palpável, o trataria com um deus e oferecia minha vida como oferenda materializada nas memórias que não quero esquecer.

As paredes do museu eram testemunhas mudas de dramas pessoais, onde a dualidade entre o desejo de esquecer e a inevitabilidade das memórias se manifestava. Uma sala, por exemplo, exibia caixas de cristal contendo fragmentos de paixões que se desvaneceram com o tempo. Fotografias, cartas antigas e pequenos objetos revelavam histórias de amores perdidos, mas nunca totalmente esquecidos. O Museu contava a história de mim mesmo numa terapia no mínimo exótica, como é a minha vida.

No andar superior, um corredor sombrio abrigava compartimentos trancados que guardavam segredos inconfessáveis. Cada fechadura escondia eventos traumáticos que alguém esperava libertar da própria mente. Contudo, mesmo no Museu das Lembranças Esquecidas, essas lembranças persistiam como fantasmas sutis, sussurrando verdades indomáveis.

Cada visitante vivenciava em sua mente a tortura de suas próprias lembranças. Cada um de acordo  com suas ações na vida. Eu que busquei em vão a felicidade, para minha surpresa, encontrei ali uma das alas mais intrigante, dedicada aos momentos de felicidade que, por razões obscuras, alguém escolhera esquecer. Quadros coloridos e objetos festivos preenchiam o ambiente, revelando que nem todas as memórias depositadas eram sombrias. A dualidade se manifestava novamente, sugerindo que o esquecimento, por vezes, implicava sacrifícios dolorosos.

À medida que eu e outros os visitantes percorríamos os corredores do museu, nos víamos  imersos em uma reflexão profunda sobre a natureza da memória. Onde reside a fronteira entre lembrar e esquecer? Seria possível realmente apagar o passado, ou estaríamos fadados a conviver com suas lembranças?

Ao sair do Museu das Lembranças Esquecidas, os visitantes carregavam consigo não apenas a imagem de um lugar singular, mas também a compreensão de que as memórias, por mais que tentemos esquecer, mostram quem somos. E assim, entre a vontade de esquecer e a inevitabilidade das memórias, a complexidade da experiência humana se desdobrava, revelando-se como um intrincado quebra-cabeça que só o tempo poderia decifrar.

Tempo... Tempo... Tempo... Sobre o que mesmo é esta crônica? Tenho andado muito esquecido ultimamente...

Por José Casanova
Professor, Jornalista e escritor da
Academia Bacabalense de Letras

 imagem: Internet

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

CRÔNICA DO DIA: Entre Cliques e Corações

Estamos a viver em um mundo onde as relações humanas são escritas por linhas digitais, um emaranhado complexo de cliques e corações. Nessa era tecnológica, onde a conexão é medida em megabytes e as palavras são substituídas por emojis, as relações humanas florescem em meio aos algoritmos. A tecnologia que devia diminuir distâncias, nos afastas mesmo estando tão próximos uns dos outros

No epicentro desse fenômeno, encontramos Alice, sim, aquela “Alice no país das maravilhas”, agora já crescida; revela-se uma alma inquieta navegando nas águas tumultuadas da rede. Como qualquer adolescente, seus dias são preenchidos por amizades digitais, aquelas que se manifestam em forma de solicitações de amizade e curtidas. No entanto, por trás da tela brilhante, ela sente um não sei o “quê” de desconexão.

Num mundo onde a comunicação é instantânea, as nuances do contato humano muitas vezes se perdem. A arte de olhar nos olhos e interpretar as entrelinhas parece estar em extinção. Alice continua a correr contra o temo feito o coelho Lewis Carroll. Os relacionamentos, agora, são regidos por algoritmos, verdadeiros magos da previsão de  nossas preferências, mas raramente capturam a complexidade das emoções humanas.

Em meio a essa paisagem digital, Alice se ver mais uma vez perdida em uma encruzilhada. Ela se pergunta se suas conexões virtuais são genuínas ou apenas projeções cuidadosamente editadas da realidade. As conversas reduzidas a caracteres e as emoções expressas em emojis criam uma barreira sutil entre ela e aqueles que considera amigos. O Complexo torna-se simples e o simples perde-se no labirinto do complexo.

Contudo, em meio a esse desafio digital, Alice descobre um oásis de autenticidade. Quando menos esperava,  em uma noite chuvosa, um telefonema inesperado de um amigo distante revelou a magia da verdadeira conexão. As palavras reais, sem filtros, fluíam como música, e as risadas ressoavam mais alto do que qualquer emoji poderia expressar.

Essa experiência trouxe a Alice uma clareza reconfortante. Enquanto a tecnologia abria portas para novas formas de comunicação, a essência da conexão humana ainda residia na simplicidade de ouvir e ser ouvido. Como ser humano, sentia necessidade de ser humana. Porque as coisas mais simples do mundo, de repente se tornam tão complexas?

Na era digital, onde as amizades são quantificadas por seguidores e a intimidade é medida em pixels, é crucial lembrar que, por trás de cada tela, há um coração pulsante em busca de conexão genuína. Afinal, em um mundo de cliques e corações, as relações humanas continuam a desafiar os limites dos algoritmos, perseverando na busca eterna pela autenticidade.

Por José Casanova
Professor, Jornalista e Escritor da 
Academia Bacabalense de Letras

domingo, 4 de fevereiro de 2024

CRÔNICA DE DOMINGO: Grisalhas

 

No universo dos fios que voam ao sabor do tempo, as grisalhas erguem suas cabeças adornadas por uma cor que é, ao mesmo tempo, a marca da passagem dos anos e o testemunho da resiliência diante das tempestades da vida. Não são apenas fios prateados, são reluzentes crônicas entrelaçadas por experiências, conquistas e aprendizados.

Os cabelos sempre foram elemento para identidade feminina. Desde da idade das pedras, as mulheres procuram impressionar os machos com seus cabelos. Quanto mais em desalinho, melhor. A falta de estética era tanto que às vezes se perguntavam para que serviam esses pelos.

Na era da pandemia, um fenômeno silencioso e poderoso começou a ganhar destaque: a escolha de muitas mulheres de deixarem seus cabelos desabrocharem em nuances prateadas. Não se tratava apenas de uma questão estética, mas sim de um movimento intrínseco de aceitação, empoderamento e resistência.

De repente, atrizes famosas começaram a aparecer em lives com os cabelos grisalhos ,sem as  maquiagens ou produtos capilares que a deixavam mais jovens. Com isso, pareciam assumirem suas verdadeiras personalidades. O tempo passou e elas continuavam lindas com seus cabelos brancos.

Os salões de beleza, antes santuários de tinturas e produtos rejuvenescedores, testemunharam uma mudança sutil, porém marcante. As mulheres, confinadas em seus lares durante os períodos de isolamento, descobriram uma nova liberdade nos cabelos que, outrora, eram disfarçados sob camadas de coloração. A pandemia se tornou um catalisador para a reflexão sobre a verdadeira essência da beleza e a aceitação de cada fase da vida.

Diante do espelho da alma, as grisalhas certamente diriam aos seus cabelos que não são apenas fios prateados, mas testemunhas silenciosas de todas as alegrias e desafios que a vida trouxe para elas. Cada fio reflete uma experiência, uma memória, que precisa ser celebrada.

As grisalhas emergiram desse período de introspecção como verdadeiras embaixadoras da autenticidade. Cada fio prateado carrega consigo a história de uma jornada, um livro aberto que sussurra segredos do tempo. Não é apenas uma transformação estética; é uma metamorfose interior que reflete coragem e autoaceitação.

A personalidade das grisalhas transcende a aparência. São mulheres que desafiaram as normas estabelecidas, rejeitaram os padrões impostos pela sociedade e abraçaram a beleza única que surge quando se abandona a busca incessante pela juventude eterna. São guerreiras que aprenderam a valorizar não apenas o que se vê no espelho, mas também a força que pulsa em seus corações.

Segundo a tradição bíblica cristã- judaica, o herói Sansão tinhas nos seus cabelos logos o segredo de sua força descomunal, caso seus cabelos ficassem grisalhos, ele perderia a força por isso?  Não sabemos, até pro que nos homens os grisalhos dão um certo charme, mas  ainda denuncia os efeitos do tempo.

Nas mulheres, os cabelos prateados tornaram-se um símbolo de resistência e sabedoria. São como estandartes de um bloco carnavalesco  que ondulam ao vento, proclamando que a passagem dos anos é um privilégio, não uma derrota. A decisão de se assumir como grisalha é um ato de rebeldia silenciosa contra os estigmas da idade, uma afirmação de que a verdadeira beleza é multifacetada e transcende os limites temporais.

Nas grisalhas, encontramos uma celebração da diversidade e da autenticidade. Cada fio branco é uma linha traçada no livro da vida, um tributo ao passado, ao presente e à promessa do futuro. As mulheres com cabelos prateados não são apenas um reflexo do envelhecimento; são a personificação de uma jornada extraordinária, moldada por experiências que deram forma a uma força inabalável e a uma beleza que se renova a cada dia.

Por José Casanova
Professor, Jornalista e membro da
Academia Bacabalense de Letras


sábado, 3 de fevereiro de 2024

CRÔNICA: O dia em que a tia preta parou

Sou desses boêmios mais observadores  que etílicos. Gosto de degustar a noite na terra da Bacaba como se fosse o último dia de minha vida. Sou avesso  à informação, não me dizem nada a não sei o que já sei. E só “sei que nada sei”. Depois de ter tomado todas num bar pouco frequentado na Avenida Mearim, me desloquei para BR 316 , agora muito bem iluminada com canteiros coloridos.

 Desde o princípio da minha jornada achei estranho. O número de usuários de drogas ilícitas, por que as lícitas os “cidadãos de bem” usam como se fossem água, havia aumentado e diminuíam quanto mais me aproximava da Tia Preta. A Tia Preta não é um Bar, mas uma família de restaurantes populares que pensam ser um clube dançante.

 Lá é o point da madrugada, quando os “cidadãos de bem”, esquecem que são casados e vão em busca de “afogar o ganso” numa fuga semanal da rotina caseira, mesmo que no setor só se ofereça comida caseira.

 Estranho! Não ouço o som da música nem sempre bem tocada, mas que agrada aos ouvidos. O esquema não estava lá, os músicos talvez estivem em outros... esquemas.

As mulheres com  cheiro de perfume barato também não estavam lá. Nem mesmo as  senhoras com 60 anos ou mais com suas maquiagens estranhas e roupas de periguetes novinhas, também não estavam lá.

A Garçonete mau vestida da qual sempre comprava uma cerveja fiado por semana, também não estava lá.

O homem de lata, uma figura exótica em situação de rua, também não estava lá. O moto taxi clandestino que já sabia a hora de me levar pra casa, também não estava lá.

Os repórter policias que iam à Tia Preta em busca de noticia, também não estavam lá.

No Fuzuê havia um zum-zum-zum, eram os frequentadores do lugar que expressavam seu amor pelo novo Delegado da cidade que resolveu não expedir a licença para  realização da tradicional festa do caipirinha.

Com essa deu até vontade de tomar uma caipirinha, dessas bem brasileiras com cheiro do Mearim. Será o Benedito? Não Dr. Benedito não faria uma coisas dessas, ele também é cliente do lugar, afinal depois da meia noite o local é frequentado por gente da “melhor qualidade”.

 O fato é que o novo delegado, dentro da lei é claro, fez toda uma cadeia produtiva da cultura parar, com isso consegue também diminuir o índice de violência, bebedeira descontrolada, prostituição e circulação de drogas. Coisas que fazem parte do cotidiano da vida e que passam despercebidas pelas pessoas envolvidas na matrix.

 É dentro da lei também que essas mesmas pessoas, na falta de outra ocupação, tiram dessas atividades nem sempre tão dignas, o sustento de suas famílias. Aí está a outra face da moeda. E agora José? E agora Maria? Que fazer?

Nos senadinhos da cidade já se comenta que o delegado não ficará muito tempo , nada mau num estado onde as autoridades comemoram a transferência para capital como uma promoção. O fato é que em cidade pequena a vida continua pequena, um jogo de cartas marcas onde não há vencedores. Não aprendemos que a realização de festas exige o mínio de segurança, principalmente quando parte dos frequentadores não inspiram confiança.

 Quer saber de uma coisa? Vocês que são brancos que se entendam. Esse angu tem muito caroço.  E não adianta vir atrás de mim. Não concedo entrevistas. A minha lei sou eu que faço.  Como amigo leitor? Quem sou eu? Eu sou você que critica a “Tia Preta” e vai pra lá depois da meia noite...

José Casanova
Professor, Jornalista e escritor membro da
Academia  Bacabalense de Letras

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

CRÔNICA DO DIA: As Cores da Rotina

 

Roberto Carlos, considerado Rei da juventude, imortalizou-se com uma canção Chamada “Rotina”. O que seria a rotina pra você querido leitor? Podemos imagina  o amanhecer de cada dia, quando o sol desperta timidamente no horizonte, somos apresentados a um espetáculo muitas vezes ignorado. A rotina, como um pano de fundo, se desdobra com suas nuances suaves, expondo os encantos invisíveis que moldam nossas vidas.

Na cozinha, enquanto a cidade ainda dorme, a chaleira sibila com entusiasmo, anunciando o início de um novo dia. A xícara de café, ali, à espera de ser preenchida, é mais do que apenas uma bebida que desperta os sentidos. Ela é um ritual matinal, um convite silencioso para saborear a quietude antes da agitação. O aroma do café paira no ar, e é nesse momento aparentemente trivial que descobrimos a magia contida em um simples gole.

A rotina seria no ritual que espontaneamente realizamos em nosso dia a dia. O trajeto para o trabalho, muitas vezes rotineiro e mecânico, esconde segredos inexplorados. A rua que percorremos diariamente, os rostos que passam, cada semáforo que muda de cor; todos esses elementos formam uma sinfonia silenciosa que se expressa na pulsação da vida. É quando decidimos desacelerar, desviar o olhar para além da pressa, que percebemos como até mesmo o caminho mais familiar pode ser uma oportunidade repleta de descobertas.

E que tal aquelas conversas casuais com amigos, que muitas vezes são relegadas ao segundo plano diante das obrigações cotidianas? São nesses diálogos despretensiosos que se escondem pérolas de sabedoria e momentos que se tornam pedras preciosas na  nossa história. Uma risada compartilhada, um conselho sábio ou simplesmente a sensação de pertencimento; são essas pequenas interações que formam a estrutura invisível de nossas vidas.

A rotina, quando observada com atenção, revela-se como um quadro em constante mutação, pintado com as cores sutis da vida cotidiana. São os detalhes aparentemente insignificantes que adicionam profundidade ao nosso existir. É como se pudéssemos decifrar as entrelinhas de um livro, descobrindo histórias não contadas entre os espaços aparentemente vazios.

Há pessoas que valorizam tanto a rotina que não consegue viver sem ela. Estão sempre a ir pro trabalho pelo mesmo percurso.  Abastecer o carro sempre no mesmo posto. Comprar na mesma loja e frequentar o mesmo bar ou igreja. No entanto, há outros que abominam a rotina, não consegue nem mesmo passar duas vezes no mesmo dia pela mesma rua.

A rotina também tem seu lado bom, contribui para fortalecer laços de amizade e de família, materializa a história e esconde nuances da felicidade e da despretensão de forçar mudanças desnecessárias. O bom senso tona a rotina encantadora.

Portanto, convido a todos a desvendar esses encantos, a saborear o café com a consciência de que cada gole é uma oportunidade de apreciar a arte presente na simplicidade. Que possamos aprender a enxergar as cores invisíveis da rotina, pois é nelas que reside a riqueza extraordinária de nossas vidas.

Por José Casanova
Professor, Jornalista e Escritor membro da
Academia Bacabalense de Letras

CRÔNICA DO DIA: Letras que dançam

 

Era uma tarde quente em Bacabal do Maranhão, os termômetros marcavam quase quarenta graus na Escola Paulo Freire, onde a professora Ana, uma verdadeira entusiasta da educação inclusiva, mergulhava nas águas desafiadoras da alfabetização de adultos e idosos. Sua sala de aula era um microcosmo de histórias não contadas, de vidas que buscavam desesperadamente o domínio das letras.

Naquele dia Professora Ana , escolhera trabalhar em círculo com a Turma, formada por doze alunos, a maioria idosos. No centro da sala, estava Mestre Chico, um respeitável homem negro de 70 anos, depois que começou a estudar, descobrira que tinha o pé na senzala, era neto de escravo vindos da África, tinha linhagem Imperial. Conhecido por ser um vibrante cantador de bumba-meu-boi, no sotaque de zabumba seu Chico brilhava no mês de junho nos terreiros das brincadeiras de São João. No entanto, entre as rimas e batuques, jazia a lacuna de não saber ler ou escrever.

A sala de aula estava impregnada com a ansiedade do aprendizado, mas Ana tinha um plano. Seu método envolvia multiletramentos culturais, reconhecendo as diferentes formas de expressão presentes na comunidade. Ela sabia que para Chico e seus colegas, a aprendizagem não poderia ser limitada a um livro didático pois eles traziam de casa saberes empíricos que eram confirmados pela ciência na escola.

Naquele dia, os olhos de Chico brilharam ao escrever seu próprio nome pela primeira vez. "Mestre Chico", murmurou ele, tocando a folha de papel com reverência, mas ele tinha escrito Francisco Salazar

 Ana, ao lado dele, sorriu com um misto de alegria e emoção contida.

_A leitura é como a melodia de uma canção. -  disse ela. _Você, Mestre Chico, agora pode compreender as notas que compõem a sua própria história.

O diálogo entre a professora e Mestre Chico fluía como uma conversa entre velhos amigos:i

_Nunca é tarde para aprender. -disse Ana, observando as letras ganharem vida nas mãos calejadas e experientes de Chico.

Ele, por sua vez, contou histórias não registradas, descrevendo como o mundo da escrita estava se abrindo diante de seus olhos. Olhos estes bem protegidos por um Óculos novinho que houvera ganhado num projeto da secretaria de educação.

_Antes, eu cantava com o coração, mas agora vejo as palavras dançarem diante de mim. - Afirmou Chico, tocando seu coração e sorrindo.

O coração de Chico agora era outro, batia ao ritmo da zabumba do seu boi de brincar como couro todo bordado em missangas, canutilho e paitês que brilhavam sob a luz do luar.

_ Professora, dona Ana! – Chamou Chico no meio aula.

_ Diga seu Chico.  – Respondeu a professora.

_ A senhora tem uma foto do professor Paulo Freire?

_Tenho seu Chico, por que? – Quis saber a professora.

_ Vou mandar minha mulher bordar Paulo Freire no Boi  Curupira, e ainda vou fazer uma toada pra ele. – Concluiu entusiasmo mestre Chico.

À medida que as semanas passavam, a sala de aula se transformava em um celeiro de descobertas. Outros alunos, também tardiamente imersos na alfabetização, compartilhavam suas conquistas e desafios superados. A atmosfera vibrava com a energia do conhecimento recém-adquirido. Como era gratificante ver o entusiasmo e a evolução daquelas senhoras e senhores de cabelos brancos a descobrir o mundo de conhecimento a desbravar.

O ápice da jornada chegou no dia em que todos, inclusive a professora Ana, se emocionaram ao lerem pequenos textos escritos por eles mesmos. Os rostos enrugados expressavam orgulho, as mãos trêmulas seguravam os papéis como troféus da superação. Ana no seu íntimo sabia que apesar dos pesares, estava no caminho certo.

No encerramento desse ano, Ana, ao olhar para sua turma, sentiu um misto de gratificação e esperança:

 _Vocês não apenas aprenderam a ler e escrever, mas também compartilharam suas riquezas culturais conosco. -  Disse ela, com lágrimas nos olhos.

A Escola Paulo Freire, através de suas estratégias de multiletramentos culturais, não apenas ensinou a ler e escrever, mas cultivou a valorização das diversas formas de expressão presentes na comunidade. Mestre Chico, finalmente, pôde decifrar as palavras que dançavam em sua mente, agora não dependia de ninguém para escrever as todas que compunha e a sala de aula tornou-se um palco de superação, celebrando a aprendizagem em todas as idades.

 Por José Casanova
professor, Jornalista e escritor da 
Academia Bacabalense de Letras