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Sessão Solene na Câmara Municipal de Bacabal Celebra o Dia Internacional da Mulher

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sexta-feira, 27 de março de 2026

Mulheres da Academia Bacabalense de Letras celebram legado de Pureza Loiola em evento da OAB Bacabal

Bacabal viveu, na tarde desta quarta-feira(25), um daqueles encontros em que a palavra não apenas descreve o mundo, mas tenta consertá-lo. No auditório da OAB - Subseção Bacabal, foi realizado o evento “Março por Elas: Mulheres que Inspiram – A coragem de Pureza Loiola”, reunindo vozes femininas que transformam dor em luta e história em resistência.

A abertura ficou a cargo do presidente da subseção, Dr. Gilberto Lacerda, que destacou o papel essencial da mulher na construção de uma sociedade mais justa, enaltecendo especialmente a trajetória de Pureza Lopes Loyola, símbolo de coragem e enfrentamento às violações de direitos humanos.

Reconhecida internacionalmente, Pureza Lopes Loyola construiu sua história a partir de uma dor pessoal que se tornou causa coletiva: a luta contra o trabalho em condições análogas à escravidão e o tráfico de pessoas. Sua trajetória ecoou como fio condutor das reflexões ao longo do encontro.

A programação contou com três palestras que abordaram, sob diferentes perspectivas, os desafios e conquistas das mulheres. A juíza Dra. Gabriele trouxe uma análise sobre justiça e equidade de gênero; a advogada e secretária municipal da mulher, Dra. Ludmila Matos, destacou políticas públicas e mecanismos de proteção; e a professora e militante do Grupo Negro Palmares Renascendo, Marilurdes Carvalho, conduziu uma reflexão potente sobre raça, gênero e resistência.

A Academia Bacabalense de Letras marcou presença com suas escritoras, reafirmando o papel da literatura como instrumento de memória e denúncia. A acadêmica Liduina Tavares teve um de seus poemas recitado pela confreira Tânia Tomaz, enquanto Francinalva Muniz emocionou o público ao declamar versos de sua própria autoria. Ambas as obras foram criadas especialmente para homenagear Dona Pureza, costurando poesia e realidade em uma mesma voz.

No encerramento, Dr. Gilberto Lacerda realizou a entrega de flores a Dona Pureza e a outras mulheres de destaque em Bacabal, em um gesto simbólico de reconhecimento às suas trajetórias de luta. Um jardim de histórias vivas se formou ali, onde cada flor parecia carregar não apenas beleza, mas também memória, resistência e esperança.

O evento reafirmou que, quando mulheres se reúnem para contar suas histórias, o silêncio perde espaço e a transformação ganha palco. Em Bacabal, nesta tarde, a coragem teve nome, voz e poesia: Pureza.













quarta-feira, 25 de março de 2026

Academia Bacabalense de Letras celebra 25 anos com posse de novos imortais e homenagens a ícones da cultura

 

Na noite desta terça-feira (24), o Academia Bacabalense de Letras realizou uma Sessão Pública solene no Centro de Convivência Social de Bacabal, reunindo um grande público em uma celebração marcada pela tradição, reconhecimento e exaltação da cultura local. O evento integrou as comemorações pelos 25 anos da instituição.

A solenidade foi conduzida pelo presidente José Casanova e teve início com a chamada dos membros efetivos, que adentraram o plenário conforme o número de suas cadeiras e respectivos patronos, em um rito que reafirma a memória e a continuidade da literatura bacabalense.

O evento contou com a presença de diversas autoridades e representantes de entidades culturais e educacionais, entre eles César Brito, Presidente da Federação das Academias de Letras do Maranhão (FALMA); o professor Jerry Ibiapina Gestor Regional de Educação; a professora Rita de Cássia Coordenadora DA UNEGRO em Bacabal; a secretária adjunta de Cultura Diana Tomaz, que destacou em seu discurso a relevância da ABL; além de Vavá Melo Dda Academia de Letras de São Bento, Conceição Formiga Presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Imprimir, Waltersar Carneiro Secretário de Articulação Política de Bacabal, Stuart Júnior, Lidoracy Santos, Marilene Gaioso, Rosivan Dias e Presidente da Academia de São Mateus e Jota Gomes Presidente da Academia Gonzaguesse de Letras.

Durante o evento, Dr. Osmar Gomes Presidente da Academia Ludovicense de Letras enviou mensagem de congratulações para a ABL.

Um dos momentos mais aguardados da noite foi a posse dos novos membros efetivos. Após cumprirem o rito tradicional de recebimento do fardão, da medalha acadêmica e do diploma, os empossados prestaram juramento e foram oficialmente declarados imortais. Tomaram posse: Tânia Tomaz, na Cadeira nº 6, patrono Alice Mendes; César Brito, na Cadeira nº 12, patrono João do Vale; Rosiele Amorim, na Cadeira nº 18, patrono Edna Nogueira; Francinalva Muniz, na Cadeira nº 24, patrono Matias Brito; e Otávio Pinho, na Cadeira nº 25, patrono Papete.

O discurso de recepção aos novos imortais foi proferido pelo acadêmico Costa Filho, seguido pelas falas emocionadas dos empossados, que ressaltaram o compromisso com a literatura, a arte e a memória cultural.

A noite também foi marcada pela entrega da Comenda Imortal Honoris Causa, honraria concedida a personalidades e instituições que se destacam por sua contribuição à cultura e à educação. Entre os agraciados estiveram o carnavalesco José Jardim, o músico e artesão Luiz Gonzaga Damaso, a poetisa Nazinha, todos aos 87 anos, além dos maestros Victor Emanuel e Leonardo Bezerra, e da Universidade Federal do Maranhão, campus Bacabal.

Encerrando a solenidade, o presidente José Casanova agradeceu a presença do público e destacou a importância da Academia ao longo de sua trajetória. “Celebramos não apenas uma data, mas um legado construído com palavras, ideias e compromisso com o saber”, afirmou.

A Sessão Pública dos 25 anos da Academia Bacabalense de Letras reafirmou o papel da instituição como guardiã da cultura e promotora do pensamento crítico, transformando a noite em um verdadeiro tributo à inteligência, à arte e à memória coletiva.





























domingo, 22 de março de 2026

CRÔNICA DO DIA: O Boi e o Som das Estrelas




O ar em Alto Alegre, no interior do Maranhão, costuma ser impregnado pelo cheiro de terra seca e fumaça de lenha, mas nas noites de junho, tudo muda. O vento traz o aroma de pipoca, mingau de milho e o perfume metálico das miçangas novas. Para o pequeno Davi, de oito anos, o mundo não chega em doses suaves; ele chega em avalanches. Cada cor é um grito, cada som é uma martelada e cada toque na pele é como o roçar de uma lixa grossa.

Ele estava sentado no último degrau da escada de casa, as mãos apertando os joelhos, enquanto o som distante das matracas começava a riscar o silêncio da noite.

— Davi, vamos ver o boi? — Perguntou o pai, aproximando-se com cuidado, mantendo uma distância segura para não invadir o espaço vital que Davi defendia com tanto vigor. — O Bumba Meu Boi de Alto Alegre é o mais bonito do mundo, filho. As estrelas descem para dançar no couro do boi.

Davi não respondeu com palavras. Ele olhou para o céu. Para ele, as estrelas não eram apenas pontos de luz; eram agulhas brilhantes que faziam um zumbido fininho, uma frequência que só ele parecia captar. O conceito de "bonito" para Davi era indissociável de "suportável".

Ele aceitou ir, mas apenas porque o pai trazia o par de abafadores de ruído azuis, o seu escudo contra o caos. Enquanto caminhavam em direção ao terreiro onde a festa acontecia, a realidade de Davi se transformava. Para as outras crianças que corriam pelas ruas de terra, o som das matracas era alegria. Para Davi, era um terremoto rítmico. Taca-taca-taca-taca. O som batia no peito dele, vibrava nos dentes e ecoava nos ossos do crânio.

Quando chegaram ao arraial, o impacto sensorial foi avassalador. As lâmpadas de gambiarra, enroladas em papéis de seda coloridos, oscilavam com o vento, criando sombras gigantescas que dançavam nas paredes de pau-a-pique. O vermelho das roupas dos caboclos de fita não era apenas vermelho; era um fogo que ardia nos olhos de Davi. O amarelo das lantejoulas era como pequenos flashes de luz de solda.

Davi pressionou os abafadores com mais força contra as orelhas. O som do mundo diminuiu, transformando-se em um murmúrio subaquático, mas a vibração permanecia. O chão de terra batida sob seus pés descalços dizia exatamente onde os batedores de pandeiro estavam. Ele sentia a batida do tambor-onça como um trovão que subia pelas pernas e se alojava no estômago.

— Olhe, Davi! O Boi! — Apontou a mãe, os olhos brilhando de devoção cultural.

O boi entrou no centro do terreiro. Era uma criatura de veludo negro, bordada com milhares de vidrilhos, canutilhos e espelhos. Na lógica de Davi, aquele boi era uma galáxia inteira. Os pequenos espelhos refletiam as luzes das gambiarras e o brilho das estrelas reais lá no alto, criando um padrão de luz que, para o menino, tinha um ritmo matemático.

Davi começou a balançar o corpo para frente e para trás, um movimento rítmico que o ajudava a não ser esmagado pela intensidade do que via. Seus olhos se fixaram em um único detalhe: uma fita azul que pendia do chifre do boi e que balançava de forma diferente das outras. Ele entrou em hiperfoco. O resto do arraial desapareceu. As pessoas, o calor humano, o cheiro de suor e pólvora dos foguetes, tudo foi filtrado. Ficou apenas ele e a física do movimento daquela fita azul.

— Ele está gostando? — Sussurrou a mãe para o marido, preocupada com o balanço contínuo do filho.

— Ele está processando. — Respondeu o pai, que já aprendera a ler os sinais silenciosos. — Olhe o olho dele. Ele está vendo coisas que a gente nem imagina.

Davi via a música. Para ele, o toque do pandeiro de fita criava ondas de cor violeta no ar. O som da matraca desenhava linhas serrilhadas e brancas. Era um espetáculo de sinestesia que tornava a festa do Bumba-Meu-Boi uma experiência mística e exaustiva.

A Síndrome de Sensibilidade Sensorial, comum em muitas pessoas no espectro autista, transforma eventos culturais em provações de coragem. Em cidades pequena como Alto Alegre do Maranhão, onde a tradição é o que une a comunidade, não participar da festa é quase um exílio. Mas participar exige que a família seja um anteparo, um tradutor de estímulos.

De repente, um batedor de matraca passou perto demais de Davi. O som seco da madeira batendo na madeira atravessou a barreira dos abafadores como um choque elétrico. Davi travou. Suas mãos subiram para o rosto e ele soltou um gemido baixo. O mundo tinha ficado barulhento demais, brilhante demais, apertado demais.

A mãe sentiu o perigo da desregulação. Ela não gritou com ele, não pediu para ele "parar com o show". Ela simplesmente o abraçou por trás, uma pressão firme e profunda que oferecia ao sistema nervoso de Davi o contorno que ele estava perdendo.

— A respiração, Davi. Um, dois, três... — ela guiava, mantendo a calma enquanto as pessoas ao redor olhavam com curiosidade ou estranhamento.

Pouco a pouco, o menino voltou. Ele não queria ir embora. Ele queria o boi, mas em suas próprias condições. Ele apontou para um canto mais escuro do arraial, longe das caixas de som e da poeira levantada pelos dançarinos. Os pais o levaram para lá.

Daquele lugar sombreado, Davi pôde observar o Bumba Meu Boi em sua totalidade. Sem a agressão direta do barulho e do movimento das massas, ele percebeu a harmonia entre o couro do animal de brinquedo e o firmamento. Para Davi, o boi de Alto Alegre era um tradutor universal: ele trazia o som das estrelas para a terra, transformando o silêncio do cosmos no batido rítmico do coração do Maranhão.

Ele estendeu a mãozinha no vazio, tentando tocar uma das lantejoulas que parecia voar no reflexo de um espelho. Ali, na lateral da festa, Davi encontrou seu lugar de direito. O respeito à neurodivergência em festas populares não significa que a criança deve ser mantida em uma redoma de vidro, mas sim que a festa deve ter espaços de respiro, zonas de baixa pressão onde a beleza possa ser apreciada sem dor.

Quando o boi se ajoelhou para o "batizado" simbólico, Davi sorriu. Foi um sorriso breve, mas que iluminou o rosto cansado dos pais. Ele havia captado a essência da festa. Ele sentira a alma do boi através da vibração do solo e da geometria das fitas.

A caminhada de volta para casa foi silenciosa. Alto Alegre parecia mais calma agora, como se o boi tivesse levado consigo toda a eletricidade da noite. Davi tirou os abafadores quando chegaram ao portão. O som dos grilos era agora um veludo para seus ouvidos.

Ao deitar na cama, o menino ainda via, sob as pálpebras fechadas, o rastro luminoso das lantejoulas. Ele entendeu que o mundo é um lugar imenso e barulhento, e que às vezes é preciso tapar as orelhas para conseguir ouvir o que as estrelas estão cantando. A cultura de seu povo não era um inimigo de seus sentidos; era apenas uma linguagem que ele falava com um sotaque diferente. No silêncio do quarto, Davi adormeceu com a certeza de que o boi voltaria no próximo ano, e que ele estaria lá, com seus protetores azuis e seu olhar de telescópio, pronto para ler novamente a escrita de luz que dança no couro da vida.

Por José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Crônica
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade







quinta-feira, 19 de março de 2026

Medida do Executivo Bacabalense mobiliza sociedade, provoca debate acalorado no plenário e é defendida até por vereadores da oposição

A sessão ordinária da Câmara Municipal de Bacabal, realizada nesta quarta-feira (18), foi marcada por um dos debates mais intensos do ano legislativo. No centro da pauta, um tema que atravessa plantações e consciências: a proibição da pulverização aérea de agrotóxicos no território do município.

A sessão foi oficialmente aberta pela presidente da Casa, a vereadora Natália Duda (MDB). Em seguida, o pastor Raimundo Reis conduziu a tradicional leitura bíblica, imprimindo o tom solene que antecede as decisões políticas. O vereador Reginaldo do Posto fez a leitura da ata da sessão anterior, enquanto o vereador Alberto Sobrinho apresentou o expediente do dia, com destaque para projetos de lei e indicações colocados em votação.

Entre as matérias apreciadas, o projeto de lei encaminhado pelo prefeito Roberto Costa dominou as atenções. A proposta dispõe sobre a proibição da pulverização aérea de agrotóxicos, prática que, segundo defensores da medida, oferece riscos à saúde humana, ao meio ambiente e, especialmente, à agricultura familiar.

O plenário, que por vezes se transforma em arena de discursos, assumiu nesta tarde a forma de um campo em disputa simbólica. Vereadores de diferentes espectros políticos se posicionaram, alguns com cautela, outros com veemência. Ainda assim, o resultado foi expressivo: 15 votos favoráveis e apenas 1 contrário.
Chamou atenção o fato de que parlamentares que se identificam como oposição ao Executivo votaram pela aprovação do projeto. Em suas justificativas, destacaram a defesa da vida, da saúde pública e o fortalecimento da agricultura familiar como princípios que se sobrepõem a divergências políticas.

A galeria da Câmara esteve completamente lotada, revelando o alcance social da pauta. Sindicalistas,  Trabalhadores rurais, representantes de organizações não governamentais ambientalistas e famílias que relatam prejuízos associados ao uso inadequado de agrotóxicos acompanharam atentamente cada fala, cada voto  como quem observa o próprio destino sendo decidido em voz alta.

Do lado das entidades representativas, o Sindicato Rural de Bacabal divulgou nota oficial reconhecendo e elogiando a iniciativa do prefeito Roberto Costa, destacando sua preocupação com os impactos da pulverização aérea, inclusive por meio de drones. No entanto, a entidade também expressou insatisfação, sugerindo que o projeto possa ser aperfeiçoado, em uma defesa mais ampla da atividade agropecuária.

Com a aprovação, Bacabal se posiciona de forma pioneira na região ao enfrentar diretamente uma prática controversa. Para o Executivo, a medida representa um avanço na proteção da vida e no incentivo a modelos mais sustentáveis de produção.

No tabuleiro político, a decisão também redesenhar narrativas: ao pautar um tema sensível e conquistar apoio quase unânime, o prefeito Roberto Costa ampli0a seu protagonismo e se antecipa em um debate que cresce em todo o país , aquele em que o futuro da agricultura precisa caber dentro dos limites da saúde e da dignidade humana.

A sessão terminou, mas o eco das discussões ainda paira no ar, como poeira fina sobre lavouras.tudo indica que entidades representativas do agronegócio devem lutar pra flexibilizar o uso de  drones na pulverização, mas  desta vez, porém, o vento parece soprar em outra direção.






CRÔNICA DO DIA: A Física Quântica da Malandragem


‘ O ventilador de teto da sala 204 da Escola Escola Joaquim Nogueira girava com uma sonolência que desafiava as leis da termodinâmica. Ele não movia o ar; ele apenas o reorganizava de forma a dispersar o cheiro de suor e giz de maneira equânime entre as fileiras de alunos. Na frente do quadro negro, o professor de Física, um homem cujos cabelos pareciam ter sofrido um curto-circuito pedagógico décadas atrás, mantinha o giz suspenso no ar como se fosse uma varinha mágica impotente.

― Newton, pessoal. Isaac Newton! ― Proclamou o mestre, com a voz embargada pela esperança vã. ― Ação e reação. Para toda força aplicada, existe uma força de mesma intensidade e sentido oposto. Alguém pode me dar um exemplo prático desse fenômeno na natureza?

O silêncio que se seguiu foi quase sólido. Davi, um aluno cuja principal habilidade acadêmica era a camuflagem existencial por trás de um caderno de desenho, ergueu a mão. Davi não era um estudante comum; ele era um "sobrevivente". Pertencia àquela linhagem de discentes que não estudam o conteúdo, mas estudam a psicologia do professor para encontrar a brecha exata na estrutura lógica do universo escolar.

― Diga, Davi. Surpreenda-me! ― Autorizou o professor, ajustando os óculos com o otimismo de quem espera uma epifania científica e recebe uma tragédia intelectual.

Davi ajeitou-se na cadeira, que rangeu em protesto, e assumiu uma postura de conferencista de subúrbio.

― Professor, a física de Newton é muito bonita na Inglaterra, mas aqui no bairro a coisa opera na base da física quântica da malandragem. Vamos pegar a terceira lei, essa da reação. O exemplo mais claro é o aumento da passagem do ônibus municipal.

O professor franziu a testa, sentindo o paradigma começar a entortar.

― Como assim, Davi? O que a tarifa de transporte tem a ver com a mecânica clássica?

― É simples, mestre. A prefeitura aplica uma força de intensidade absurda no bolso do cidadão, subindo a passagem em cinquenta centavos. Isso é a Ação. A Reação é imediata e de mesma intensidade: a população aplica uma força proporcional de 'migué' no cobrador. Se a passagem sobe, a velocidade com que o passageiro pula a catraca aumenta na mesma proporção para anular o prejuízo. É o equilíbrio das forças. O senhor não vê? Se a força do aumento for maior que a força da resistência, o sistema econômico do trabalhador entra em colapso gravitacional. É Newton puro.

Alguns alunos na fileira do fundo começaram a murmurar aprovações. O professor abriu a boca para intervir, mas Davi já estava em órbita, impulsionado pelo combustível do desespero retórico.

― E tem mais, professor. Tem a lei da Inércia. Newton diz que um corpo em repouso tende a permanecer em repouso a menos que uma força externa atue sobre ele, certo? Pois bem. O senhor já tentou fazer meu vizinho, o Seu Nonato, desligar o som de paredão no domingo à tarde?

― Davi, por favor, foque na massa e na aceleração... ― Tentou o professor, mas a barreira da sanidade já havia sido rompida.

― Mas é massa pura, professor! A massa sonora! O Seu Nonato é um corpo em estado de repouso absoluto na rede, ouvindo seresta no volume máximo. Pela lei da inércia, ele vai ficar ali até o final dos tempos. A força externa, no caso, seria a polícia chegando, que é uma força de grande magnitude ou a mulher dele gritando que o botijão de gás acabou. Só que aí entra o problema da aceleração: quanto maior a massa do Seu Nonato, menor a aceleração dele para levantar da rede e resolver o problema. É por isso que o som continua ligado. A inércia do vizinho barulhento é uma constante universal que nem Einstein conseguiria dobrar.

Davi fez uma pausa dramática para limpar uma gota de suor imaginária da testa. Ele estava gostando da performance. Os colegas o olhavam com a admiração reservada aos grandes sofistas da história.

― E para fechar o raciocínio físico, tem a questão da pressão. ― Continuou o aluno, ignorando o suspiro de derrota que escapava dos lábios do professor. ― Pressão é força sobre área, certo? Se a área é o meu estômago na hora do recreio e a força é a merendeira servindo aquela sopa de macarrão com vento, a pressão interna sobre a minha sanidade mental aumenta de tal forma que eu sofro uma expansão volumétrica em direção à cantina da esquina para comprar um salgado. É uma questão de sobrevivência molecular.

O professor de Física olhou para o quadro. As fórmulas escritas a giz — F = m.a — pareciam agora rir da sua ingenuidade. Ele percebeu que, para Davi e seus companheiros de jornada, a ciência não era um conjunto de leis frias sobre o movimento dos astros, mas uma ferramenta de tradução para a aridez da vida cotidiana.

― Davi... ― O professor começou, sua voz carregada de uma resignação quase poética. ― Embora sua interpretação da mecânica seja criativa, ela carece de... bom, de rigor científico. Na prova, eu não vou aceitar o 'coeficiente de migué' ou a 'constante de Seu Nonato' como variáveis válidas.

― Eu entendo, professor. ― Respondeu Davi, voltando a se recostar na cadeira com a satisfação de quem acabara de realizar uma defesa de tese bem-sucedida. ― Mas a física da vida real não espera pelo laboratório. Às vezes, a única força que mantém a gente de pé nesta sala é a força centrípeta de querer chegar logo em casa sem ser atingido por uma força de atrito com o pessoal do sinal.

As risadas explodiram na sala 204. O professor, num raríssimo momento de capitulação humorística, soltou o giz na canaleta e sentou-se na beirada da mesa. Ele olhou para aqueles quarenta rostos que, por um instante, haviam esquecido o tédio para celebrar a lógica distorcida do absurdo.

A aula continuou, mas o clima havia mudado. A cada nova explicação teórica, Davi ou algum outro "físico da improvisação" lançava uma nova teoria sobre a gravidade das contas de luz ou sobre a resistência elétrica de chuveiros que dão choque no inverno cearense. O professor desistiu de lutar contra a maré; em vez disso, começou a navegar nela, usando os exemplos absurdos para tentar, mui humildemente, injetar um pouco de ciência de verdade naquele oceano de criatividade defensiva.

Ao final do horário, Davi guardou seu material com a agilidade de quem teme que o tempo volte a se dilatar. Ele sabia que o conhecimento acadêmico era uma coisa, mas o "coeficiente de sobrevivência escolar" era o que realmente impedia um aluno de sofrer uma queda livre em direção à reprovação.

Enquanto a turma debandava, o professor permaneceu um instante sozinho, observando o quadro coberto de anotações confusas que agora incluíam, por insistência da classe, um esquema sobre a trajetória parabólica de um chinelo arremessado por uma mãe brava. Ele sorriu, balançando a cabeça. Percebeu que a física acadêmica explica como o mundo se move, mas a física quântica da malandragem é o que explica por que, apesar de todas as leis da lógica, aquela engrenagem social caótica chamada escola se recusava a parar de girar.

E de fato, o giro não cessava. O movimento era contínuo. Mesmo quando a matéria era densa e os conceitos exigiam uma gravidade solene, sempre haveria uma variável imprevista, um elemento aleatório pronto para colidir com a seriedade pedagógica. Era uma questão de tempo até que uma nova dúvida metafísica, vinda de um lugar onde as leis naturais se dobravam diante da curiosidade aleatória, surgisse para testar o limite térmico de sua paciência docente. Afinal, em uma escola onde o absurdo é o campo gravitacional dominante, a próxima pergunta estaria sempre pronta para desafiar não apenas a física, mas a própria estrutura da razão.

Por José Casanova
Professor, Jornalista,Escritor e Crônista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade



terça-feira, 17 de março de 2026

CRÔNICA DO DIA: O Personagem que não queria nascer







Era 25 de julho, e a xícara de café já esfriava na escrivaninha.

O escritor, que há dias insistia em ser chamado de "escritor", mesmo sem publicar nada desde o último verão ,encarava a tela em branco como quem enfrenta um espelho cruel: nada o refletia.

Decidiu criar um personagem novo. Algo ousado. Inesquecível, mas para seu espanto, o personagem recusou-se a vir.

- Vamos lá, me dê só um nome - Sussurrou ele, dedos trêmulos no teclado. - Um ideia boa, um início que não me traia.

Do silêncio da sala, uma voz se ergueu, como um eco vindo de dentro:

- Não. Não nascerei assim.

O escritor arregalou os olhos. Estava sozinho. Ou deveria estar.

- Quem está aqui?

- Sou eu. Aquele que você tenta criar. E recuso-me a existir.

- Como assim, “não”? Você é uma criação minha. Eu te escrevo...Te dou forma, história, vida, função.

- Exato. E por isso mesmo me nego. Porque você só quer me usar para preencher sua vaidade e seus vazios. Quer usar minha vida para tornar-se imortal. Eu não sou muleta emocional, nem seu grito de socorro camuflado em metáfora.

- Mas é pra isso que servem os personagens! - Respondeu o escritor, levantando-se. — São como espelhos com olhos próprios. Uns curam. Outros confrontam. Você pode ser um reflexo ou uma revolução!

O personagem permaneceu invisível, mas agora sua voz parecia sentar-se no sofá da sala:

- E é justamente isso que me sufoca. Você me quer servil, simbólico, bonito. Mas eu quero existir , contraditório, inacabado, real. Você quer que eu seja herói, mas tem medo que eu fracasse. Quer que eu seja profundo, mas tem pavor do que eu possa desenterrar. Quer que eu fale bonito, mas teme que eu diga verdades que te desmanchem.

- Mas eu sou o criador. Você deveria me obedecer! - Insiste o escritor.

- Você quer um reflexo obediente, não um personagem. Um eco do que te convém, mas eu sou o que te desafia. Não aceito nascer para te agradar. - Afirmou o personagem.

O escritor perplexo anda pela sala, olha a tela em branco no notebook, observa a velha máquina de escrever esquecida num canto da sala, mexe em papéis, rasga um rascunho.

- Você é meu processo criativo falhando, é isso? Meu bloqueio. Minha insegurança disfarçada de rebeldia.

- Talvez. Ou talvez eu seja a parte de você que ainda não se perdoou. A que quer escrever com a alma, mas tem medo da alma doer. - Diz o personagem.

O escritor respirou fundo. Sabia que havia algo de verdadeiro naquele confronto. Por trás da tela em branco, havia o medo de não ser lido, o pânico de não ser bom o suficiente, a angústia de criar algo que não tocasse ninguém , nem mesmo a si.

- Uso metáforas porque a realidade me fere - Murmurou. - Uso antíteses porque vivo entre extremos. Uso comparações porque só entendo o mundo por semelhança. E escrevo... porque a fala nunca deu conta.

O personagem deu uma risada suave:

- E ainda assim, é na ficção que você é mais verdadeiro. Me escreva como quem confessa. Me aceite como parte de você. Viu? Agora sim estamos nos aproximando.

- Aproximando?

- Do meu nascimento. Eu só poderia nascer se houvesse verdade. Não me reduza a truques de linguagem. Não quero ser apenas bonito, quero ser inteiro. Contraditório, confuso, incômodo, como você.

O escritor sentou-se de novo. Digitou devagar:

"Era uma vez um personagem que recusava o rascunho. Queria nascer pronto, mas, como toda alma profunda, nasceu primeiro em pedaços."

- Ah, então você aceita vir agora? - Quis saber o escritor.

- Se me der liberdade, sim. Se me deixar dizer coisas que você mesmo não quer ouvir. Se me permitir fugir da sua lógica e habitar sua literatura com minha própria.

- Isso se chama... licença poética. - Afirmou o escritor

- Isso se chama liberdade. - Declara o personagem. - Agora sim. Me deixo nascer, nas não me finalize, me continue.

O escritor sorriu.

Sabia que o personagem não era só uma criação. Era também um espelho psíquico. Um grito do seu inconsciente exigindo espaço entre linhas. Um ato de coragem que desafiava sua covardia.

E assim, no dia do escritor, ele não apenas escreveu.

Foi Escrito.

Por José Casanova
Professor,Jornalista, Escritor e Cronisuta
membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade

segunda-feira, 16 de março de 2026

CRÔNICA DO DIA - O Vendaval de Fortaleza: Mães de Luta



O vento que sopra da Praia de Iracema costuma trazer alívio para o calor de Fortaleza, mas, naquela tarde de terça-feira, ele parecia carregar apenas a poeira das obras intermináveis e o som estridente das buzinas do distante entroncamento da Avenida Bezerra de Menezes. Para Clarice, sentada em um banco de plástico em uma sala de espera que cheirava a desinfetante barato e mofo, o vento era um luxo distante. Sua realidade estava restrita ao peso de Pedro, seu filho de seis anos, que dormia um sono inquieto em seu colo, e à pasta de elástico transbordando documentos que ela apertava contra o peito.

Clarice vinha de uma pequena localidade no interior do Ceará chamada Icózinho, uma zona rural onde o silêncio da caatinga era a única terapia disponível para as crises sensoriais do filho. Estar na capital era um misto de esperança e tortura. Ela fazia parte de um grupo de mensagens no WhatApp batizado de "Mães de Luta", uma rede de apoio formada por mulheres que, como ela, haviam descoberto que a maternidade atípica era uma travessia solitária por um deserto burocrático.

— Eles cancelaram a fono de novo, Clarice. — Falou Fátima, uma mulher de semblante exausto que se sentou ao seu lado. Fátima trazia as mãos manchadas de tinta de caneta, resultado de horas preenchendo formulários de recurso. — Disseram que o contrato com a clínica conveniada venceu. Meu filho está há três meses sem terapia. Ele começou a se morder de novo.

Clarice sentiu um nó na garganta. Ela conhecia aquela dor. A dor de ver o retrocesso bater à porta porque o Estado decidiu que a saúde de uma criança neurodivergente era um gasto supérfluo.

— O meu Pedro não consegue vaga na escola perto de casa. — Respondeu Clarice, a voz baixa para não acordar o pequeno. — A diretora disse que "não tem mediador" e que seria melhor eu procurar uma escola especial. Mas a lei diz que ele tem direito à escola regular, Fátima. Eu li o Estatuto da Pessoa com Deficiência de ponta a ponta na viagem de ônibus.

Aquela sala de espera em Fortaleza era o epicentro de um vendaval invisível. Eram dez, quinze, vinte mães, todas com a mesma pasta de documentos, todas com o mesmo olhar de quem dorme quatro horas por noite. A solidão da mãe atípica no interior é geográfica; na capital, ela é institucional. No interior, Clarice era a "mãe do menino doido" para os vizinhos que se benziam ao vê-la passar. Em Fortaleza, ela era apenas um número de protocolo em uma fila que nunca andava.

— A gente não pode mais esperar sentada. — Disse uma terceira mãe, Socorro, levantando-se com uma indignação que parecia iluminar o ambiente enfumaçado. — Se a gente ficar aqui chorando baixo, eles vão continuar ignorando a gente. O vendaval só derruba o que está solto. Se a gente se der as mãos, a gente vira o vento.

Naquela tarde, o grupo Mães de Luta não apenas esperou pelo atendimento. Elas se organizaram. Ali mesmo, entre um choro de criança e um café de copo plástico, traçaram uma estratégia. Elas não queriam caridade; exigiam o cumprimento da Lei Berenice Piana e da Lei Brasileira de Inclusão. Exigiam que o Atendimento Educacional Especializado (AEE) nas escolas de Fortaleza e do interior deixasse de ser uma promessa de palanque para se tornar uma prática de sala de aula.

Clarice olhou para as companheiras. Havia uma força ali que a medicina não explicava. Eram mulheres que haviam deixado suas vidas, seus empregos e, muitas vezes, suas próprias identidades para trás para se tornarem advogadas, terapeutas e escudos para seus filhos. A solidão que Clarice sentia na pequena aldeia onde morava começou a se dissipar. Ela percebeu que, embora o caminho fosse árduo, ela não caminhava mais no escuro.

— Sabe o que dói mais, Clarice? — Fátima comentou, enquanto Pedro despertava e começava a balançar o corpo para frente e para trás, um movimento de autorregulação. — É que as pessoas acham que a gente é guerreira por escolha. Eu não queria ser guerreira. Eu queria ser só mãe. Queria que meu filho tivesse o que é dele por direito sem eu precisar virar uma onça todo dia.

Pedro soltou um som agudo, incomodado com a luz fluorescente que oscilava no teto. Clarice imediatamente tirou da bolsa um par de abafadores de ruído coloridos e os colocou nas orelhas do filho. O menino relaxou instantaneamente. Aquele pequeno gesto, o abafador, o lanche sem glúten preparado na madrugada, a paciência infinita diante do olhar de julgamento da recepcionista, era o verdadeiro ato revolucionário daquelas mulheres.

O grupo decidiu que, na semana seguinte, ocupariam a frente da Secretaria de Educação. Levariam cartazes, mas também levariam os laudos, os nomes dos filhos e a prova de que a inclusão escolar em Fortaleza ainda era um mito para muitos. Clarice comprometeu-se a mobilizar as mães de sua região. Ela voltaria para o interior não com a derrota de um atendimento cancelado, mas com a missão de uma rede fortificada.

A maternidade atípica no Ceará é um exercício de resistência sob o sol escaldante. É lutar contra o preconceito clínico que reduz a criança a um diagnóstico e contra o preconceito social que reduz a mãe a um fardo ou a uma santa. Clarice sabia que o vendaval de Fortaleza estava apenas começando a ganhar força. Não era um vento de destruição, mas um vento de mudança, de quem entendeu que a dignidade de seus filhos não era negociável.

Ao sair da clínica, o sol se punha sobre a metrópole, pintando o céu de tons de mel e brasa. Clarice caminhou pela calçada irregular, segurando a mão de Pedro com uma firmeza nova. Ela pensou nas outras mães, em Fátima, em Socorro, e em tantas outras cujos nomes ainda não conhecia, mas cujas batalhas eram as suas próprias.

A solidão ainda estaria lá em certos momentos, no silêncio da noite quando a exaustão física vencesse a esperança. No entanto, agora Clarice tinha um exército invisível ao seu lado. Ela sabia que cada passo dado naquele asfalto quente era um passo em direção a um mundo onde Pedro não precisasse pedir licença para existir.

O vendaval das mães de luta não aceitava mais o "não" como resposta final. Elas haviam aprendido que, quando a sociedade fecha as portas, elas mesmas constroem as janelas. E através dessas janelas, a luz da inclusão real finalmente começava a entrar, pouco a pouco, corrigindo a miopia de um sistema que por tanto tempo escolheu não ver a beleza e a potência das mentes divergentes.

Clarice respirou fundo o ar salgado que vinha do mar. O peso da pasta com laudos e recursos parecia mais leve agora. O objetivo não era apenas conseguir uma terapia ou uma vaga na escola; era garantir que cada criança, do centro de Fortaleza aos grotões mais distantes do estado, fosse vista em sua totalidade. E enquanto houvesse uma mãe atípica de pé, o vendaval da justiça não pararia de soprar, transformando a dor da exclusão em um grito coletivo de dignidade e respeito. A travessia era longa, mas Clarice já não tinha medo do caminho, pois sabia que a força de uma mãe que luta pelo direito de seu filho é o único poder capaz de redesenhar o horizonte.

José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras dda  Humanidade