O domingo amanheceu com um silêncio estranho, desses que não são vazios, mas cheios de algo prestes a acontecer. Jerusalém respirava devagar, como se temesse acordar de vez e dar de cara com a lembrança ainda fresca da cruz.
As ruas estavam menos barulhentas. O comércio tardava a abrir. Até os pássaros pareciam medir o canto.
No alto de uma pequena elevação, longe do movimento mais intenso, estavam Davi e Rebeca. Não eram conhecidos entre seguidores de Jesus Cristo, nem desejavam ser. Naqueles dias, ser lembrado podia custar mais que o anonimato estava disposto a pagar.
Eles também esperavam um messias revolucionário, alguém que os libertasse do jugo romano. Os zelotes, porém, não foram capazes de erguer esse líder. Foi assim que, pouco a pouco, se aproximaram do jovem galileu e acabaram cativados por suas ideias estranhas, quase perigosamente belas.
Resolveram seguir Jesus a distância pois não podiam ser visto em meio à multidão que o seguiam. Tinham parentes próximos que ocupavam cargos importantes no Império Romano.
— A cidade não é mais a mesma. — Disse Rebeca, apertando o manto contra o vento leve.
— Nem nós somos! — Respondeu Davi, sem tirar os olhos do caminho que levava ao sepulcro.
Eles não tinham ido até lá. Não por falta de fé, mas por excesso de medo. Desde a crucificação, aprenderam que acreditar também podia ser perigoso. E, ainda assim, permaneciam ali, como quem não consegue ir embora de uma história que ainda não terminou.
De repente, um movimento diferente chamou atenção. Algumas mulheres vinham apressadas, quase correndo, carregando no rosto algo entre susto e espanto.
Eram mulheres com quem o mestre mantinha amizade e respeito. Algumas carregavam histórias marcadas pelo julgamento alheio, outras haviam sido curadas de males antigos. Impedidas de ocupar o lugar de discípulas por um sistema rígido, ainda assim o seguiam com uma coragem que, naquele momento, faltou a muitos dos doze mais próximos.
Rebeca deu um passo à frente, instintivamente.
— Tem algo errado… ou certo demais... — Murmurou.
Davi franziu a testa. O coração, até então contido, começou a bater com mais força, como se reconhecesse um sinal invisível.
— Dizem… — Começou uma das vozes ao longe, entrecortada pelo vento. — Dizem que o corpo não está lá.
O mundo pareceu inclinar por um instante.
Rebeca levou a mão à boca. Não era apenas surpresa. Era medo de acreditar. Porque acreditar, naquele momento, era atravessar um limite do qual não se volta igual.
— E se for verdade? — Ela perguntou, quase em segredo. — E se a morte não teve a última palavra?
Davi não respondeu de imediato. Olhou para o céu, que agora deixava escapar uma luz mais firme, dourando as pedras da cidade como se tudo estivesse sendo reescrito diante deles.
— Então. — Disse, por fim. — Tudo o que parecia perdido… só estava esperando a hora de voltar.
O vento passou novamente, mas já não era o mesmo. Trazia calor. Trazia movimento. Trazia vida.
Eles continuaram ali, sem correr, sem gritar, sem se expor. Ainda eram os que observavam de longe. Ainda eram os que temiam.
Mas dentro deles, algo já não se escondia.
Naquele domingo, enquanto alguns procuravam respostas no sepulcro vazio, outros começaram a encontrá-las no próprio peito.
E foi assim, quase em segredo, quase em silêncio, que a esperança deixou de ser lembrança… e voltou a ser caminho.
Por José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade







Maravilhada com sua análise! Parabéns
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