Pular para o conteúdo principal

Livro da Ditadura mantém atualidade 42 anos depois

Por Cezar Xavier


Durante o lançamento, ocorrido em 24 de maio no Memorial da Resistência do Estado de São Paulo, muitos chegaram curiosos e sabendo pouco sobre o livro, que circulou muito restritamente nos anos de chumbo, mas que causou impacto com denúncias que os brasileiros não podiam ver na imprensa da época. Estiveram presentes ao lançamento pessoas que sofreram as atrocidades ali relatadas e que tiveram contato com a publicação à época. Também compareceram jovens que apenas agora estão tomando contato com o tema.

A coordenadora do Memorial da Resistência, Kátia Filipini afirmou que o lançamento do livro é também uma homenagem aos antigos militantes de AP (Ação Popular), entre os quais, aqueles que fizeram o livro, e a tantos outros que lutaram e tombaram naquele período. “A memória do país está em disputa. Enquanto a Marcha com Deus, em defesa do golpe militar não reuniu nem mil pessoas em todo o país, conseguimos realizar 450 atos simultâneos em repúdio à ditadura, sendo que, só no Doi Codi, aqui em São Paulo, tínhamos 1400 pessoas”, destacou ela.



Representando o Núcleo de Preservação da Memória Política, Ivan Seixas coordenou o debate com exposições dos autores, os jornalistas Bernardo Joffily, Carlos Azevedo e Duarte Pacheco Pereira. O autor da capa do livro, o designer Elifas Andreato, também participou da sessão de autógrafos, ao final do evento. Ele lembrou que o livro foi feito em gráfica clandestina, datilografado numa IBM, desenhado em estêncil.


Caráter democrático e indignado

Joffily começou ressaltando a importância da publicação, dizendo que se trata de um livro que “vale a pena ser lido em 2014”. Para ele, o Livro Negro da Ditadura Militar é a prova que derruba as tentativas de inocentar os ditadores de então, ao dizer que se tratava de uma guerra entre vilões de direita e de esquerda. “Ninguém há de negar que este livro tem um profundo e entranhado espírito democrático, indignação e força nas denúncias que faz , de coisas que estavam acontecendo ali. Tem a plataforma explícita, a amplitude e a noção de que a luta era de todos, da igreja, de Rubens Paiva, de quem pegava em armas e de quem não pegava. Era uma batalha de todo brasileiro que tinha vergonha na cara”, explica Joffily. Para ele, é este caráter amplo e democrático que garantiu a derrota dos ditadores. “Perdemos todas as batalhas militares e ganhamos de goleada a guerra político-ideológica”.

Embora houvesse obras do comandante Carlos Marighella sendo distribuídas clandestinamente, à época do Livro Negro da Ditadura, Bernardo lembra que aquelas tinham o objetivo de orientar militarmente a resistência. “A nossa ambição era de denunciar os crimes da ditadura e alcançar uma mobilização que acabou por ocorrer”, explicou.

Bernardo lembra que tinha apenas 21 anos de idade, recém-entrando no aparato de agitação e propaganda de AP. “Escrevi uns três ou quatro capítulos e ajudei a datilografar. Nitidamente, eu e a Jô Moraes [atual deputada federal pelo PCdoB de Minas Gerais], éramos os ‘focas’ daquela redação”, contou.

Após revelar que Duarte foi “o pai da criança”, Joffily abordou a polêmica sobre a impropriedade do nome do livro na atualidade. “Hoje, nenhuma pessoa com desconfiômetro daria um nome como esse”. Mas, salienta que a atenuante para o caso está no fato de que este debate sobre o uso discriminatório e racista das palavras – como denegrir – estava ainda em gestação à época da elaboração do livro. Como ainda estava no começo a luta anti-racista. “Em 1972 estávamos concentrados na luta contra a ditadura militar. Enquanto não acabássemos com ela, não poderiam aflorar a quantidade de movimentos e demandas que vieram depois”.

Circunstâncias editoriais

O jornalista Carlos Azevedo, que foi um dos criadores da revista Realidade, disse que, no início, subestimou a proposta de reedição do Livro Negro. Relendo o trabalho ele voltou a constatar que aquele “é um levantamento primoroso tendo em vista o momento em que vivíamos, feito na mais profunda clandestinidade”, afirmou. Azevedo destacou as dificuldades que implicava participar de um projeto como aquele. Não podendo se reunir em casas ou em escritórios, era preciso marcar encontros periódicos em pontos na rua, com tempo de espera calculado, sempre caminhando. “Costumávamos dizer que uma boa reunião ia da Penha à Lapa para resolver todos os problemas”, brincou ele, referindo-se as caminhadas entre os distantes bairros da Zona Leste e da Zona Oeste de São Paulo.

“Puxa, que documento que se fez naquelas circunstancias, enfrentando um inimigo extremamente poderoso que não respeitava o direito de ninguém.” “Aquela equipe não era mole não!” disse Azevedo sob aplausos do público. Azevedo também fazia o jornal Libertação, órgão oficial da AP, que foi publicado mensalmente durante oito anos, entre 1968 e 1975. A gráfica nunca foi pega pela repressão.


Força e limite do Livro Negro

Duarte Pacheco Pereira afirmou que a diferença fundamental do Livro Negro da Ditadura Militar dos demais livros de denúncia publicados na época era o público alvo. Queriam que as informações sobre sequestros, tortura, mortes e desaparecimentos dos opositores chegassem aos brasileiros para estimular a resistência, enquanto outros documentos visavam o público estrangeiro.

O jornalista Duarte Pacheco Pereira ressaltou o fato das histórias serem suficientemente dramáticas e graves para justificar o impacto que teve à época. “O Livro antecipa questões que viriam depois, como as casas clandestinas, para onde iam todos aqueles que a ditadura queria fazer desaparecer sem deixar vestígios”, disse ele. Para as casas clandestinas iam aqueles militantes que estavam nas listas para serem mortos. Uma sobrevivente, Inês Etiene, e o militar Paulo Malhães, confirmam as práticas macabras de cortes de dedos e retiradas de dentes para evitar identificação de corpos. “Os métodos descritos no Livro Negro são terríveis, inomináveis e ignominiosos, mas muita coisa bem pior viria depois de 1972”, salientando ser esta temporalidade uma das limitações do Livro Negro.

Sobre a polêmica da luta antirracista, ele lembrou que o nome do livro foi uma contraposição ao Livro Branco, publicado pelo Governo Médici em 1971, para defender o governo fora do país, porque as denúncias já chegavam ao exterior. O livro do governo teve vida curta, pois não trouxe uma avaliação positiva para o governo.

Duarte lamentou que haja historiadores que hoje tentam defender a ditadura e argumentem que as torturas só ocorreram depois do AI-5. Ou seja, que até então não se tratava de uma ditadura. A ditadura, para ele, mata e tortura desde os primeiros momentos. Citou os casos de massacres ocorridos no Nordeste nos primeiros dias do golpe. “Centenas de camponeses foram assassinados e largados nos canaviais. Gregório Bezerra foi arrastado nu pelas ruas de Recife, à luz do dia! O corpo do sargento Raimundo Manuel Soares foi encontrado com as mãos amarradas no Rio Guaíba, em Porto Alegre, poucos dias após o golpe”, pontuou ele.


O jornal Correio da Manhã, que estimulara as mobilizações a favor do golpe, começou a criticar esses crimes cometidos pela ditadura. O jornalista Márcio Moreira Alves, em 1966, lançou o livro “Tortura e torturados”, cuja primeira edição foi apreendida. “Algumas das histórias do Livro Negro têm origem naquelas primeiras denúncias”.

As denúncias do Livro Negro da Ditadura vão se confirmando conforme os prisioneiros políticos vão sendo libertados graças aos raptos dos embaixadores. Inclusive foram feitos documentários sobre as torturas sofridas por esses prisioneiros.

No Chile, entre 1970 e 1971, foi editado um livro, produzido por exilados, tratando das violências e torturas no Brasil. Havia um capítulo sobre a violência ocasionada pelo milagre econômico, como a concentração da renda e a mortalidade infantil. Ele foi escrito por José Serra, militante da AP e economista da Cepal. Estes materiais estimularam a publicação do Livro Negro da Ditadura Militar. Como foi dito, a diferença estava no fato dele ser feito para ser divulgado dentro do país. A censura não permitia divulgar essas histórias no próprio país.

Buscava-se uma “mobilização emocional”, por isso a narrativa exigia detalhismo e veracidade. Segundo Pereira, havia até um debate sobre a possibilidade de que o livro provocasse o pânico sobre aqueles que resistiam ao explicitar a crueldade do regime. “Decidimos que não íamos fazer só o livro, mas uma campanha afirmando que a força do povo era maior que a repressão e ia derrotá-la. Existia um selo ilustrado com a figura de um operário, um camponês, um estudante e uma mulher sob os quais era colocado o slogan ‘a força do povo é maior que a repressão’”

Pereira terminou fazendo uma reflexão sobre o clamor por “Ditadura Nunca Mais”. Ele tem uma visão cautelosa sobre o assunto. “O que garante que não farão de novo?”, questiona ele. Ele lembrou que a conjuntura internacional hoje é diferente daquela na qual o presidente dos EUA, Jimmy Carter, introduziu a pauta dos direitos humanos nas relações internacionais. “Agora, a justiça estadunidense utiliza a tortura, as mortes sumárias por drones, sepultamento no mar e casas clandestinas para os acusados de terrorismo em países aliados”, afirmou.

Após o debate, as vendas do livro esgotaram os exemplares disponíveis. Juntos com Elifas Andreato, os autores enfrentaram a enorme fila daqueles que queriam autografar seus livros. Os escritores e alguns militantes, por sua vez, aproveitaram o momento para uma confraternização calorosa de colegas que não se viam há muito.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

CRÔNICA DO DIA: O mundo é dos espertos!

  No movimento constante de pessoas que chegam e partem do terminal rodoviário da minha cidade natal, vindas de diferentes lugares ou rumando para destinos diversos, encontramos os agentes das empresas de ônibus. Seu trabalho consiste em atrair passageiros para suas respectivas companhias, enquanto fazem comparações entre a eficiência de sua empresa e a suposta lentidão das concorrentes, chegando até mesmo a comparar seus ônibus a aeronaves. O frenesi é palpável quando um passageiro desembarca de seu veículo de origem, seja ele um motociclista, um taxista ou o condutor de um veículo de pequeno porte. Conhecendo essa dinâmica, decidi testar os vendedores de passagens em u ma ocasião em que cheguei à rodoviária e fui abordado por um deles. _ Bom dia meu patrão! – Disse solícito um dos jovens, vestido numa farda surrada da empresa. Estava, como sempre, acompanhado de outros vendedores de outras empresas é claro. Vivi ali o ritual do voo dos urubus sobre a carniça     do lucro. Para

CRÔNICA DO DIA : Anseios de um catador de latinhas

  Nas ruas fervilhantes de Salvador, segundo a sabedoria popular; atrás do trio elétrico, só não vai quem já morreu.   Tão invisível quanto quem já morreu, atrás do Trio elétrico segue Fernando com seu corpo naturalmente malhado, cabelos encaracolados e olhar curioso, o catador de latinhas, busca em meio a multidão fragmentos de uma vida melhor. Enquanto os foliões pulam ao som do axé, ele caminha com seu carrinho, recolhendo latinhas e observando a festa com olhos críticos. Fernando sempre foi um observador atento do Carnaval. Para ele, a festa representa muito mais do que música e dança. É um retrato da sociedade, onde a alegria e o consumo contrastam com a realidade de muitos. A ideia que passa é que na Bahia não há tristeza. Ledo engano. A alegria fantasiosa do carnaval não passa de uma máscara social. Enquanto separa as latinhas, Fernando reflete sobre a origem do trio elétrico, criado por Dodô e Osmar nos anos 50. Ele sabe que por trás da festa há uma complexa cadeia produtiv

CRÔNICA DO DIA - URQUIZA: O Mestre do Origami

No coração da Terra da Bacaba, entre o caos dos carros e o burburinho das pessoas, vive Urquiza, um artesão cujas mãos habilidosas transformam simples folhas de papel em obras de arte impressionantes. Parece que há mágica nas mãos de Urquiza. Esse magnetismo oculto em suas mãos o   tornou conhecido como   Mestre do Origami, Urquiza não apenas dobra e molda o papel, mas também conta histórias através de suas criações. Toda manhã, Urquiza inicia uma verdadeira via sacra visitando pequenas lojas locais em busca do papel perfeito. Cada loja é uma estação que lembra o sofrimento do Cristo no caminho para o calvário. Fazer cultura na Terra da Bacaba é um martírio social. Em sua busca pela matéria prima, ele procura   texturas únicas e cores vibrantes, pois cada papel conta uma história diferente. De volta ao seu modesto estúdio, mergulha em seu mundo de dobras e vincos, transformando o papel em belas formas que ganham vida sob suas mãos habilidosas. Cada peça de Urquiza tem uma história

CRÔNICA DO DIA: Primeiro dia de aula em Alto Alegre

  No pequeno e próspero  município de Alto Alegre do Maranhão, a chegada do novo ano letivo é sempre aguardada com expectativa. O primeiro dia de aula, em especial, é como a abertura de um grande espetáculo, onde cada personagem tem seu papel definido. Os professores, ansiosos e dedicados, prepararam suas salas de aula com carinho e atenção aos mínimos detalhes. No entanto, nem todos agem assim, há aqueles que já chegam na escola catando os feriados no calendário, ou até mesmo numa total falta de empatia com os colegas, mau bate o horário, já querem saber que faltou para subir os horários para irem embora mais cedo. Vale lembrar que cartazes coloridos, murais com boas-vindas e material didático impecavelmente organizado demonstravam o zelo da equipe pedagógica em receber os alunos. Por outro lado, os alunos, em sua maioria, parecem alheios à agitação que toma conta da cidade. Para muitos deles, o retorno às aulas representava não apenas o reencontro com os amigos, mas também o re

CRÔNICA DE DOMINGO: Grisalhas

  No universo dos fios que voam ao sabor do tempo, as grisalhas erguem suas cabeças adornadas por uma cor que é, ao mesmo tempo, a marca da passagem dos anos e o testemunho da resiliência diante das tempestades da vida. Não são apenas fios prateados, são reluzentes crônicas entrelaçadas por experiências, conquistas e aprendizados. Os cabelos sempre foram elemento para identidade feminina. Desde da idade das pedras, as mulheres procuram impressionar os machos com seus cabelos. Quanto mais em desalinho, melhor. A falta de estética era tanto que às vezes se perguntavam para que serviam esses pelos. Na era da pandemia, um fenômeno silencioso e poderoso começou a ganhar destaque: a escolha de muitas mulheres de deixarem seus cabelos desabrocharem em nuances prateadas. Não se tratava apenas de uma questão estética, mas sim de um movimento intrínseco de aceitação, empoderamento e resistência. De repente, atrizes famosas começaram a aparecer em lives com os cabelos grisalhos ,sem as   ma

CRÔNICA DO DIA: O Museu das Lembranças Esquecidas

  No coração de uma cidade anônima, entre becos ocultos e vielas esquecidas, erguia-se um edifício peculiar que escapa à atenção do olhar desatento. Não havia grandes placas indicativas nem sinalizações vibrantes; apenas um portão modesto, quase imperceptível, guardava a entrada para um lugar extraordinário: o Museu das Lembranças Esquecidas. Pensei em encontrar ali lembranças do meu passado apagadas pelo tempo. Quando me veio a ideia de escrever esta crônica, pensei no poeta Cazuza e seu museu de grades novidades.   Em sua clássica letra ele afirmava ver “ o futuro repetir o passado”, o tempo deixa marcas que só ele mesmo nos faz esquecer. Ao cruzar o limiar desse museu singular, os visitantes não eram recepcionados por obras de arte ou artefatos históricos, mas sim por uma atmosfera de silêncio e contemplação. O prédio parecia nos penetrar com seus olhos, cheirar nossa alma, ouvir nossos   batimentos cardíacos, sentir o gosto dos nossos medos, e deixar em nós as marcas de suas di

CRÔNICA DO DIA: Letras que dançam

  Era uma tarde quente em Bacabal do Maranhão, os termômetros marcavam quase quarenta graus na Escola Paulo Freire, onde a professora Ana, uma verdadeira entusiasta da educação inclusiva, mergulhava nas águas desafiadoras da alfabetização de adultos e idosos. Sua sala de aula era um microcosmo de histórias não contadas, de vidas que buscavam desesperadamente o domínio das letras. Naquele dia Professora Ana , escolhera trabalhar em círculo com a Turma, formada por doze alunos, a maioria idosos. No centro da sala, estava Mestre Chico, um respeitável homem negro de 70 anos, depois que começou a estudar, descobrira que tinha o pé na senzala, era neto de escravo vindos da África, tinha linhagem Imperial. Conhecido por ser um vibrante cantador de bumba-meu-boi, no sotaque de zabumba seu Chico brilhava no mês de junho nos terreiros das brincadeiras de São João. No entanto, entre as rimas e batuques, jazia a lacuna de não saber ler ou escrever. A sala de aula estava impregnada com a ansied

CRÔNICA DO DIA - RACISMO: a insistência da ignorância

  No estacionamento movimentado de um supermercado famoso na Terra da Bacaba, onde as cores e os sons dos atabaques africanos da cidade se misturam, um episódio revelador de nossa realidade se desenrola, como um retrato em negativo de nossa sociedade. Uma professora universitária, negra, chamada Núbia Reis, aguarda pacientemente ao lado de seu carro. Seus pensamentos, talvez mergulhados em questões acadêmicas, são interrompidos por uma voz estridente. Uma mulher branca, de aparência distinta, se aproxima. Tem todos os traços físicos de uma cigana, talvez com “olhar obliquo e dissimulado”, imortalizada na obra de Machado de Assis. Seus gestos carregam a certeza de quem nunca foi questionado. Ela insiste que a professora cobre panelas, que poderia cobrar no cartão de crédito. A professora, educada e firme, explica que não poderia comprar no momento, apenas aguardava sair no seu   carro. A mulher branca não aceita a resposta. Sua insistência se transforma em agressão verbal. Ela chama

CRÔNICA DO DIA - Jumento: o herói anônimo

Na vastidão da zona rural de algum recanto do Maranhão, onde o tempo parece escorrer em compasso lento, há um personagem que atravessa os caminhos poeirentos carregando o peso da história e da indiferença humana. Já sabes de quem falo? Ainda não? Tudo bem! Ele é o jumento, um herói anônimo relegado ao esquecimento pelos caprichos da modernidade e pela crueldade dos homens. Com seu passo balançante e carregando consigo a carga pesada de cocos babaçu, acondicionados em cestos de jacá, ele é expulso pelo seu suposto dono, como se sua presença fosse apenas um incômodo a ser descartado. Outros jumentos seguem, cada um com sua carga peculiar, seja ela palhas de coco ou outros afazeres agrícolas, transportados em cambitos improvisados. São cenas corriqueiras, mas profundamente simbólicas, de um animal que foi cantado por Luiz Gonzaga como "nosso irmão". Agora já sabes quem é nosso herói do sertão. Desde tempos imemoriais, o jumento tem sido companheiro humano, suportando n

CRÔNICA DO DIA: Versos de Redenção

No crepúsculo de sua carreira, o poeta aposentado escolheu um caminho de doação. Não optou pelo descanso merecido, mas sim pelo serviço voluntário em uma penitenciária. Corajoso, enfrenta os desafios do sistema prisional para compartilhar palavras de esperança e fé. Dentro do presídio? Sim! É corajoso, já pensou em uma rebelião acontecendo. Ele retruca dizendo: - Não estamos por causa do que fizeram, não queremos saber o que fizeram. Estamos celebrando não para eles e sim com eles. Duas vezes por semana, ele se torna a voz da fé dentro dos muros, colaborando na celebração da Missa e na catequese. Ao ser questionado sobre os riscos, ele responde com serenidade, recusando-se a enxergar os detentos como criminosos, mas sim como filhos amados de Deus em busca de perdão humano. Certo dia, o sol já se punha no horizonte quando o poeta, com sua bíblia desgastada sob o braço, aproximou-se de um detento chamado Miro. Tinha a tatuagem de um palhaço no peito direito. As grades separavam os dois,