domingo, 7 de dezembro de 2025

CRÕNICA DO DIA : "Praça " de Justiça & Cidadania

 

            Dona Ana Raimunda viera do quilombo São Sebastião dos Pretos exclusivamente para participar da 5ª edição da Praça de Justiça &  Cidadania, antes de entrar no carro caminhou até o centro da comunidade, onde era possível ver a escola, o Salão de Terecô e o pequeno museu do quilombo que guardava  correntes, panelas e outros objetos centenários provas palpáveis que seus bisavós foram escravizados. Participar da “Praça” de  Justiça & Cidadania lhe trazia um sentimento de esperança com cheiro de reparação e tempero de cidadania.

Dizem que toda praça carrega conversas guardadas nas árvores. Naquela semana, na Universidade Estadual do Maranhão em Bacabal, uma praça aprendeu a falar de Justiça, e não daquela que fica trancada em gabinetes, mas da que senta debaixo de tenda, olha no olho e pergunta: “em que posso ajudar?”.

A ideia nasceu longe dali, nos corredores dos tribunais, pelas mãos do Ministro Carlos Pires Brandão, ainda quando era desembargador no TRF1. Imaginou que Justiça não devia ser ponto fixo no mapa, mas estrada. E estrada, como sabemos, sempre chega onde a cidade costuma virar silêncio. Pois chegou.

Logo cedo, dona Ana Raimunda apareceu com o passo miúdo e a certeza grande: trazer um documento não é burocracia, é existência. Afinal, algumas coisas só começam oficialmente depois de um RG.
             
Vim ajeitar esse papel.-   Disse ela,  segurando o registro e ajeitando o vestido, como quem organiza a própria história..  -  Fui bem recebida. Que bom, né?

Ela sorriu como quem ajeita uma história antiga. Aquele pedaço de papel seria chave para portas que antes ela apenas empurrava timidamente.

Ao lado, Joana do Carmo, agricultora do Piratininga, balançava a cabeça concordando com o próprio pensamento:
            -  Tem oportunidade que se perde se a gente não vem logo. RG, gente pra ouvir… tá maravilhoso. - Repetiu, meio espantada com a naturalidade do atendimento.

As duas voltaram para a aba da tenda onde um servidor explicava cada passo, devagar, quase como professora da roça falando do alfabeto numa visão libertadora e crítica.

A juíza federal Hanna Porto, aquela menina dos cabelos apressados e olhar atento, era quem coordenava tudo com o juiz Hugo Abas Frazão. São de uma geração nova, inteligente, éticos e honestos da justiça brasileira. Os dois circulavam como quem fiscaliza vento: atentos ao que ninguém vê, mas sente.
            - A ênfase, desta vez, são as comunidades quilombolas. Não se pode promover Justiça sem enfrentar a desigualdade.  -  Repetia Hanna, em voz firme, para quem perguntasse.

Se alguém escutasse de longe, pensaria tratar-se de palestra, mas era fala cotidiana, como quem pede café: simples e necessária.

Numa sala da universidade, a poesia apareceu baixinho, como quem pede licença entre um atendimento e outro. Eram escritores e escritoras da Academia Bacabalense de Letras, com poemas e livros abertos do Padre João Mohana expostos como janelas antigas. Diziam que poesia ali não era mero enfeite, mas lembrança: a literatura também é recurso criativo de se fazer justiça.

Um rapaz de fala mansa, chamado Mario Lucas, estudante do Ensino Médio, observava tudo com aquela curiosidade de quem acha que o mundo pode mudar se as palavras cooperarem.
            -  Professora, isso aqui é Justiça, né? -  Perguntou para uma voluntária ao lado.
            - É, Lucas. Justiça é quando alguém deixa de ser invisível.
            Ele pensou uns segundos, como quem procura uma brecha no futuro:
            - Então devia ter isso todo mês… tem gente invisível todo dia.

A voluntária respirou fundo, talvez concordando, talvez desejando o mesmo.

Quem passava não encontrava discurso de solenidade. Encontrava gente. Caravanas pequenas saíam das comunidades do entorno, como Campo Redondo, Piratininga, Catucá, até chegar na praça. Alguns vinham só pela curiosidade; outros, porque documento era urgência. Uns vinham por conciliação, outros por esclarecimento. Todos vinham porque direito não deve morar longe.

“Praça de Justiça e Cidadania” parecia nome oficial, desses que ficam bons em faixa. Mas ali, naquela semana, ganhou definição própria: era o lugar onde perguntas encontravam respostas possíveis, e onde respostas abriam outras perguntas.

No terceiro dia, ouvi um senhor perguntar ao servidor:
 - Moço, quem nunca teve nenhum documento, começa por onde?

Trabalhava para a Justiça Federal há 30 anos e não pensava em aposentadoria. Nunca tinha ouvido uma pergunta tão profunda. O servidor não riu, não estranhou, não acelerou o passo. Apenas respondeu do começo, como quem abre um livro na primeira página:
            - A gente começa por você.

E naquele instante, por mais clichê que parecesse, havia uma declaração de humanidade. Justiça começa pela pessoa, sempre.

No final da semana, a praça já sabia o nome de algumas histórias. Talvez as árvores tenham decorado. Talvez os ventos tenham soprado para os lugares onde direitos custam a chegar. Talvez ninguém perceba, mas quando um RG é emitido, um mapa inteiro se redesenha e se conquista o reconhecimento do estado.

A aposentada, a agricultora, a empresária,  o estudante curioso, os poetas, as crianças correndo entre uma tenda e outra, todos carregavam consigo uma pequena vitória. Não a vitória épica dos tribunais, mas aquela silenciosa, íntima, quase doméstica: poder dizer “eu existo” em voz documentada.

No último dia, o menino Lucas voltou à roda da poesia e pediu para ler um verso. Não era de ninguém famoso. Era dele mesmo:

-  “Quando o nome cabe inteiro no papel, o futuro parece maior.”

A praça ficou uns segundos quieta, como se tivesse acabado de tirar a própria identidade. Depois, o vento respondeu, folheando as páginas expostas: talvez tenha sido concordância. Talvez tenha sido esperança.

E, assim, a praça guardou um novo tipo de lembrança. Não apenas o registro do evento, mas o registro de cada pessoa que aprendeu, ali, que cidadania não é visita, é permanência por toda a vida.

  P.S: Esta Crônica é dedicada ao Ministro Carlos Pires Brandão

 

José Casanova
Professor, Jornalista , Escritor e Cronista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Academia Mundial de Letras da Humanidade
Tutor da Academia Mundial de Letras  Infantojuvenil

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