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quarta-feira, 29 de julho de 2026

CRÔNICA DO DIA: Luz no Caminho




A casa em Pindaré-Mirim parecia ter encolhido nas últimas semanas. O silêncio, antes um companheiro confortável de tardes chuvosas, tornara-se um peso insuportável desde que a notícia do acidente de Gabriel atravessou a porta da frente. O caçula, a alegria ruidosa da família, o jovem que preenchia os cômodos com o som dos teclados e o entusiasmo pelos projetos da faculdade em São Luís, agora era apenas uma ausência que reverberava em cada cadeira vazia e em cada livro deixado sobre a escrivaninha.

Elisa circulava pela sala como um espectro. As estantes de madeira escura, carregadas de obras de Allan Kardec, guardavam reflexões que ela tantas vezes leu com a leveza de quem estuda um teorema.

Agora, aquelas páginas eram a única âncora que a impedia de afundar em um desespero sem fundo. O luto não era apenas uma dor; era uma erosão de sua fé. Ela sentia-se traída pelo destino, lançada em uma noite escura onde a promessa da continuidade da vida parecia um consolo distante, insuficiente para calar o grito que travava em sua garganta.

Naquela terça-feira, o convite para o dia de assistência no centro espírita local veio como uma ordem silenciosa. Elisa não queria ir. O conforto dos outros soava, muitas vezes, como uma profanação do tamanho de seu sofrimento. Mas, ao cruzar o portão do centro, sob o calor úmido que subia do Pindaré, ela encontrou algo que não estava nos livros. Ela encontrou o servir.

Havia uma fila de pessoas na varanda lateral.

Pessoas com histórias de perdas que, sob a lente exterior, pareceriam menores, mas que ali, naquele chão de cimento batido, ganhavam a mesma dignidade da sua. Elisa foi designada para a distribuição de cestas e o atendimento de sopa para as famílias da periferia da cidade. Ao servir o primeiro prato, ela viu nos olhos de uma senhora idosa, que mal conseguia sustentar as pernas, um espelho de sua própria fragilidade.

Naquele momento, o dogma não importava. A teoria da reencarnação, a visão da morte como uma mudança de domicílio, tudo aquilo parecia se tornar carne através do movimento de suas mãos. Ela percebeu que a sua dor era um círculo fechado, um abismo de egoísmo que a impedia de ver a vastidão

do sofrimento alheio. Gabriel não estava em um lugar distante. Se a vida era contínua, se o espírito era imortal, então o amor que ela nutria pelo filho não podia ser um sentimento confinado ao passado.

O consolo não viria da espera passiva por um sinal mediúnico, mas da transformação de seu afeto em movimento, em cuidado pelo outro.

Ela começou a visitar, semanalmente, o hospital da Santa Inês. Levava livros, mas, acima de tudo, levava o ouvido atento.

Na terceira visita, uma voluntária a conduziu até a ala da clínica médica.

— Hoje tem um senhor que quase não recebe visitas. — Disse, em voz baixa. — Talvez uma conversa lhe faça bem.

Elisa entrou devagar. O quarto era simples. O ventilador antigo girava no teto com um ruído constante, espalhando o cheiro de álcool e medicamento. Sobre a cama, um homem de cabelos completamente brancos olhava pela janela entreaberta, como quem esperava alguma coisa que não sabia nomear.

— Boa tarde. Posso entrar?

Ele voltou o rosto lentamente e esboçou um sorriso discreto.

— Se veio conversar, já entrou na hora certa.

Ela puxou uma cadeira e sentou-se.

— Meu nome é Elisa.

— Joaquim.

Por alguns instantes, permaneceram em silêncio. Elisa percebeu que, pela primeira vez desde a morte de Gabriel, não sentia necessidade de preencher aquele vazio com palavras prontas.

— Trouxe um livro, se o senhor gostar de ouvir uma leitura.

Joaquim balançou a cabeça.

— Hoje eu prefiro ouvir alguém falando da vida.

A resposta a desarmou. Ela respirou fundo.

— Faz pouco tempo que perdi meu filho.

O homem permaneceu calado. Depois de alguns segundos, respondeu com a serenidade de quem conhecia o peso das ausências.

— Eu perdi minha esposa há oito anos. Achei que nunca mais aprenderia a respirar sem ela.

Os olhos de Elisa se encheram de lágrimas.

— E aprendeu?

Joaquim sorriu de novo, dessa vez com mais luz.

— Não. Aprendi a respirar com a saudade. É diferente.

A frase permaneceu suspensa entre os dois.

Quando Elisa segurou sua mão para se despedir, percebeu que não era apenas ela quem oferecia consolo. Também o recebia. Ao deixar o quarto, o corredor parecia o mesmo, mas alguma coisa havia mudado dentro dela. A dor compartilhada não diminuía o amor por Gabriel; apenas o transformava em uma ponte capaz de alcançar outras vidas.

 Ela aprendeu que a caridade não era um gesto de superioridade, mas uma troca secreta de forças. Ao segurar a mão de um paciente acamado, Elisa sentia uma presença sutil, uma serenidade que não era sua, mas que a envolvia com a suavidade que um dia, muito antes de Gabriel partir, ela costumava encontrar em suas conversas de fim de tarde. O luto, sob a perspectiva da doutrina que ela tanto amava, deixava de ser o fim de uma trilha para se tornar o redirecionamento de um caminho.

A morte, compreendeu ela ao ver a cura precária de uma criança na ala infantil, não é um muro, mas uma névoa que altera a forma como vemos as cores ao redor. Se Gabriel era um espírito em contínua jornada, a forma mais pura de manter o laço não era através do apego ao que fora, mas através da continuidade do bem que eles, juntos, sempre projetaram ser. Elisa voltou para a casa em Pindaré-Mirim ao final do dia. O silêncio ainda estava lá, mas o peso era outro. Ao abrir a janela e permitir que o ar da noite entrasse, ela acendeu uma vela sobre a mesa e sentou-se. Não que uma vela representasse alguma coisa para ela, mas era uma prática que cresceu vendo sua vó fazer now momentos de saudades de  entes queridos já falecidos.

Não houve visões, nem fenômenos estrondosos.

Apenas uma presença, um sopro de lucidez, e a convicção profunda de que o consolo não é a ausência de dor, mas a capacidade de carregar a saudade sem se deixar consumir por ela. A caridade havia operado nela uma pequena cirurgia de alma.

O propósito estava ali, no prato de sopa servido, na mão estendida, na paciência com o tempo de Deus que não alinhava com o relógio humano. Ela fechou os olhos, respirou fundo e entendeu que a luz que ela buscava em sua angústia já brilhava através dela, na medida exata em que ela se permitia ser, no mundo, um instrumento de acolhimento para todos aqueles que, como ela, percorriam o caminho incerto da existência em busca de uma esperança que não fincasse raízes apenas no chão, mas que soubesse, com paciência, entender o céu.

 José Casanova

 

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

ACADEMIA MUNDIAL DE LETRAS DA HUMANIDADE REALIZA SOLENIDADE DE POSSE E ENTREGA DE TÍTULOS NO ENGENHO CENTRAL DE PINDARÉ - MA

Na noite do último sábado (06), o Cine Teatro/Auditório do Engenho Central de Pindaré recebeu autoridades culturais, escritores, pesquisadores e convidados para a Solenidade de Posse de Novos Membros Imortais e Entrega de Títulos Honoríficos promovida pela Academia Mundial de Letras da Humanidade (AMLH), Seccional Vale do Pindaré – MA.

Durante o evento foram empossados como Membros Imortais da AMLH a pindareense Nanci Eulalia Morais Ferreira Leite e Raelvane Costa Chaves, natural do Pará e radicado em Nova Olinda do Maranhão.

Além da posse, os já integrantes da Academia – Edilson Brito, Lindalva Corrêa, Lucimar Miranda e Rejanne Gentil – receberam homenagens com a outorga do diploma “Personalidade Magnífica do Ano”, título concedido pelo Presidente Mundial da AMLH, Dr. Camilo Martins.

Personalidades culturais homenageadas

A noite também foi marcada pela entrega dos certificados de “Personalidade Cultural” a representantes do Vale do Pindaré que desenvolvem ações de expressiva relevância para a preservação das tradições, da literatura, da educação e das artes na região. Foram homenageados:
Ana Luiza Pinheiro; Contra-Mestre Dorinaldo da Capoeira; Élle Marques; Hayana Martins; Jesana Teresa Dourado; Mauthus Ripardo; Mãe Lucimar Cutrim e seu João Bata; Rinaldo Medeiros e Família; Rita Trindade; Sandra Elouf; Sara Guajajara; Sheila de Areias e Valmir Trindade.

Representatividade e inclusão

A cerimônia foi conduzida pelo Presidente da Seccional Vale do Pindaré-MA, David Morais, representando o Presidente Mundial da instituição. A solenidade contou ainda com a participação especial da escritora Giselle Marques (Élle Marques), Membro Imortal de diversas Academias de Letras.

Para David Morais, a noite reafirmou o compromisso cultural e histórico da AMLH na região:

“Vivenciamos nesta noite mais um momento que deixa um profícuo legado. Uma contribuição incomensurável para a cultura de Pindaré-Mirim e de todo o Vale do Pindaré. Ademais, um sodalício diversificado, composto por escritores, pesquisadores, professores e pessoas com deficiência (baixa visão e autista) que têm reconhecimento e representatividade”, declarou.

Cultura, público e celebração

O evento reuniu grande público e foi prestigiado por representantes de diferentes segmentos culturais, contando também com apresentações de grupos artísticos de Nova Olinda do Maranhão e de Pindaré-Mirim. Encerrando a programação, os presentes participaram de um coquetel.

O encontro reforçou a valorização de artistas, pesquisadores e agentes culturais da região, destacando o papel da AMLH no fortalecimento da literatura e da identidade cultural no Vale do Pindaré.