sábado, 12 de setembro de 2026

CRÔNICA DO DIA: Defeito de Caráter

Há dias em que a repartição pública parece parada no tempo. E há dias em que o tempo para só para assistir ao absurdo passar pela porta. Na Prefeitura de Babaçulandia, numa manhã dessas, entrou uma mulher branca com uma pasta debaixo do braço e uma certeza na cabeça: alguém ali precisava receber o currículo dela. O problema é que não havia ninguém no setor.

Japi, segurança do prédio, explicou com educação:

— Minha senhora, o pessoal do setor não está agora. Se a senhora quiser, pode deixar comigo que eu entrego.

Era uma solução simples. Civilizada. Quase moderna. Mas a mulher olhou para Japi como quem recebe uma proposta indecente:

— Com você?

Japi olhou para o uniforme. Depois olhou para ela.

— Comigo. – Confirmou Japi

— Mas você é segurança.

— Até onde eu sei.

Ela apertou a pasta sobre o peito

— Não tem ninguém para receber?

— Agora, não.

— Nenhuma mulher?

— Não.

— Nenhum funcionário?

Japi respirou.

— Eu sou funcionário.

Foi aí que a conversa, que até então caminhava normalmente, tropeçou na Idade Média.  A mulher fez cara de quem estava sendo obrigada a resolver um mistério administrativo de alta complexidade. Então perguntou:

— Não tem ninguém branco para me atender?

Pronto. Chegamos. A humanidade inventou satélites, transplantes, inteligência artificial e até air fryer. Mas ainda tem gente travada na atualização básica do século XIX. Japi ficou olhando para ela.

— Desculpe? Não ouvi direito.

— Branco. Não tem ninguém branco aqui pra mim atender? — Insistiu a mulher.

Talvez ela acreditasse que a Prefeitura funcionasse por tonalidade.

Guichê 1: documentos.

Guichê 2: tributos.

Guichê 3: brancos atendendo brancos.

Japi respondeu:

— Minha senhora, se a senhora não quiser deixar comigo, pode voltar depois.

Era a chance perfeita de ir embora. Mas há pessoas que, diante da oportunidade de se calar, entendem como convocação para discurso. Ela disparou:

— Eu não vou deixar meus documentos com negro!

O corredor ficou quieto. Silêncio de repartição pública geralmente significa café. Naquele momento significava vergonha alheia.

Japi continuou:

— A senhora está sendo racista.

Ela respondeu com uma das frases preferidas de todo racista flagrado em pleno expediente:

— Eu não sou racista!

É interessante. Ninguém se declara racista. O racista pode insultar, humilhar, discriminar, comparar uma pessoa negra a um animal e ainda assim considerar “racista” uma palavra muito forte. Ela perdeu o último pedaço de vergonha que ainda carregava.

— Negro! Macaco! – Exclamou a mulher.

O silêncio agora era absoluto. Ela ainda acrescentou outro insulto, tentando diminuir o homem que estava diante dela.

— E viado também!

Japi ficou imóvel. Não porque não tivesse resposta. Tinha dezenas. Algumas poderiam custar-lhe o emprego. Outras poderiam custar-lhe a liberdade. Escolheu a mais difícil.

— A senhora terminou? – Perguntou Japi.

Ela pareceu surpresa.

— O quê?

— Terminou?

— Terminei o quê?

— De mostrar quem a senhora é.

A mulher abriu a boca, mas não respondeu. Japi apontou para a saída:.

— Pode ir. – Disse Japi indicando a porta de saída.

— Você está me expulsando?

— Não. Estou apenas lembrando onde fica a porta.

Ela virou-se furiosa. Antes de sair, ainda gritou:

— Vou reclamar de você!

Japi respondeu:

— Reclame.

Ela ergueu a pasta.

— Você vai perder esse emprego!

— Talvez.

Ele fez uma pequena pausa.

— Mas minha cor eu não perco!

Ele acabara de ser vítima de dois crimes: Racismo e homofobia. Leve dois, pague a dignidade. Japi segurou-se. Quem nunca sofreu esse tipo de agressão talvez pergunte: “Por que ele não respondeu?” Porque, curiosamente, numa situação dessas, a vítima precisa pensar em tudo. No emprego. Na família. Nas testemunhas. Na câmera. Na Justiça. Na própria reação.

O agressor, não. O agressor simplesmente fala. A mulher ainda ameaçou: “ Vou reclamar de você!” Essa parte quase merecia aplauso. Depois de entrar num prédio público, ofender um trabalhador por causa da cor da pele e transformar o corredor numa exposição gratuita de preconceito, ela decidiu que a vítima era o problema.

Ela foi embora. Currículo debaixo do braço. Educação aparentemente esquecida em casa. A denúncia foi feita. O fato chegou ao conhecimento de quem deveria tomar providências. E então entrou em cena uma personagem muito conhecida da vida brasileira: a senhora Burocracia. Aquela que anda devagar. Principalmente quando o problema aconteceu com os outros. Com os mais humildes.

Disseram que iam verificar. Analisar. Apurar. Conversar. Avaliar e outros verbos de primeira conulgação. Talvez até constituir uma comissão para decidir se seria necessário decidir alguma coisa. Enquanto isso, Japi voltou ao trabalho. Porque essa é outra especialidade brasileira. A vítima sofre na terça e bate ponto na quarta.

Dias depois, alguém apareceu com um papel na mão.

— Japi, lembra daquela mulher?

— Qual?

— A do currículo.

Ele riu.

— Infelizmente.

O funcionário explicou:

— O currículo dela acabou chegando ao setor.

Japi arregalou os olhos.

— Como?

— Encontraram depois e encaminharam.

— E aí?

— Analisaram.

— E?

— Chamaram para entrevista.

Japi encostou no balcão.

— Rapaz, esse mundo gosta de piada.

Na mesma manhã, eis que a mulher reapareceu. A pasta. O salto. A cara. Mas a coragem estava uns três números menor. Ela se aproximou. Japi estava no mesmo lugar. Ela olhou para ele. Ele olhou para ela. Silêncio. Dessa vez não perguntou se havia alguém branco disponível. Uma funcionária saiu de uma sala.

— Senhora, pode entrar. É para a vaga da recepção.

A mulher sorriu. Vaga de emprego tem esse efeito democrático. Faz até arrogância esperar ser chamada. Antes de entrar, perguntou:

— E se eu for contratada, quem vai me orientar?

A funcionária respondeu naturalmente:

— Japi.

A mulher congelou.

— Ele?

— Ele. – Confirmo a recepcionista.

— O segurança? O porteiro?

— O funcionário. Ele conhece praticamente tudo aqui.

Japi levantou-se. Olhou para ela. E disse:

— Se precisar, posso ajudar.

Ela não respondeu. Talvez naquele momento tenha descoberto que a vida possui um setor de protocolo próprio. E não adianta reclamar no balcão. Há currículos que contam cursos. Há currículos que contam experiências. Há currículos cheios de certificados. Mas existe uma informação que nenhuma folha de papel consegue esconder por muito tempo: como a pessoa trata quem ela acredita não poder fazer nada por ela.

A mulher foi à Prefeitura tentar entregar um currículo. No fim, quem entregou alguma coisa foi ela. Entregou preconceito. Arrogância. Ignorância. E uma bela demonstração de caráter. Quanto à vaga, não sei dizer se conseguiu. Mas, naquela manhã, uma entrevista já tinha acontecido no corredor. E nela, sem banca examinadora, sem prova escrita e sem direito a recurso, alguém havia sido reprovado.

Não era Japi.

 

José Casanova

Professor, Jornalista, Escritor e Cronista

Membro da Academia Bacabalense de Letras

Academia Mundial de Letras da Humanidade

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