Rafania Almeida – Políticos gostam de holofotes, de aparecer.
Nem sempre. Também atuam por trás das cortinas, no escuro, debaixo dos
lençóis. Em casas noturnas, flats, apartamentos funcionais e até no
local de trabalho. Pagando por isso, claro. Como fazem homens em geral,
independentemente da atividade profissional, dirão. E especialmente
quando têm dinheiro e poder. Por que deputados e senadores seriam
diferentes?
O problema é que o negócio da prostituição corre solto nos prédios do
Congresso Nacional. Em corredores, gabinetes e às vezes no plenário,
garotas insinuantes se oferecem, são agenciadas por cafetões de terno e
gravata e cortejadas aberta ou discretamente por algumas de Suas
Excelências. Não há liturgia do poder que resista.
O mais grave é que algumas são pagas com o dinheiro público,
contratadas por parlamentares para "trabalhar" em seus gabinetes. Mas
nos gabinetes não trabalham, naturalmente. Passam todos os dias pelo
Congresso só para bater o ponto e receber horas extras. As tarefas que
executam são fora do expediente.
A meiaum passou três semanas no Congresso conversando e observando.
Garotas de programa só para VIPs abriram suas "caixas de pandora" e
revelaram como trabalham. Contaram preferências de políticos que
conheceram nos dias de sessões e nas noites de prazer. Agenciadores
também falaram sobre suas atividades e tentaram recrutar a repórter.
Jovens que acabaram de chegar à maioridade têm rendimento mensal de
dar inveja a marajás. Algumas garotas são bilíngues, moram em bairros
nobres, têm o corpo aperfeiçoado por dispendiosas cirurgias estéticas e
roupas de grife, geralmente presentes de clientes. "Se os políticos
fizerem greve, as putas de Brasília quebram as pernas", afirma uma
delas.
I Evangélico e solteiro procura
Cabelos negros, compridos e olhos marcados pela maquiagem exagerada. A
beleza não é de chamar a atenção. Por isso ela usa as roupas justas,
muito apertadas na região da paixão nacional, em cores fortes. Quase
todos têm histórias dela para contar.
Seu trabalho é coletar assinaturas de deputados em projetos de lei.
Há muitas meninas fazendo isso nos corredores da Câmara. Ela faz há dez
anos, mas não se limita às assinaturas. Não faz cerimônia. Chama muitos
parlamentares pelo primeiro nome, com intimidade.
Distancia-se para conversar com um deputado, a jornalista espera.
Volta e é clara: "Você precisa ser simpática. Sorria. O deputado gostou
de você. Vou arrumar uma 'matéria' com ele para você".
Ela estava se recusando a dar entrevista e não queria falar nem
quanto ganha ("menos de R$ 3 mil", cedeu). Só aceitou conversar quando o
deputado lhe perguntou quem era a moça com quem falava. "Ele mandou
dizer que é da bancada evangélica e é solteiro", cochichou. "Não seja
boba! Ele te traz pra cá, para o gabinete dele." Quando o deputado
evangélico e solteiro volta, faz questão de apresentá-lo. Ressalta os
olhos claros do homem de 46 anos, 20 a mais que a jornalista, e seu alto
poder aquisitivo. Salienta que era ela a responsável pela apresentação,
enquanto ele conferia o "produto".
Ele foi embora e ela repetia que mandaria a jornalista ao gabinete
dele, garantindo que poderia "contar" com ela. Foi quando se sentiu à
vontade para revelar que um deputado pagou sua faculdade de Direito, mas
ela desistiu na metade. "Fazer Direito para quê? Ficar enfiada em uma
salinha? Eu amo colher assinaturas. Amo os parlamentares. Quero fazer
isso pelo resto da minha vida." E contou que comprou um apartamento de
R$ 200 mil no Guará, valor que não cabe nos R$ 3 mil que diz receber.
Um homem observou a movimentação e aproximou-se: "Ela ganha muito
mais por fora. Já saiu com deputados. Mas está mais para agenciadora do
que agenciada. Se quiser, te consigo uma vaga aqui e você vai parar
rapidinho em um gabinete". Fez a mesma recomendação que a moça da roupa
de cores fortes. "É só ser mais simpática e fazer o que pedem. Pode ser
amante, mas não precisa ser fixa."
Um bom desempenho poderia render à jornalista até R$ 10 mil por mês, segundo o rapaz.
II O charme das assinaturas
Belas e ousadas. Esse é o perfil das garotas das assinaturas da
Câmara. O objetivo é conseguir pelo menos 171 assinaturas para um
projeto. Em meio às garotas é possível encontrar poucos homens, e há
duas ou três senhoras que já estão lá há anos na função. Poucas meninas
não chamam a atenção pela aparência. Nem todas vão além do recolhimento
de assinaturas, mas não são poucas as que buscam mais do que isso.
Uma delas, de pernas grossas e quadril abundante, se destaca pelo
tamanho do vestido. A jaqueta jeans esconde um pouco, mas nada desmerece
as curvas da pequena moça em cima de seu salto 15 cm. Alguns disfarçam,
enquanto outros quase quebram o pescoço para conferir o corpo dessa e o
de outras meninas. Há parlamentares que nem assinam, mas fazem questão
de dar uma paradinha para cumprimentá-las. A simpatia é mesmo arma de
trabalho, às vezes exacerbada.
As moças não trabalham todos os dias, apenas em dias de sessão, de
terça a quinta-feira. É no banheiro do corredor das lideranças que abrem
o bico sobre suas aventuras políticas. "Aquele velho me levou para a
tal festinha, como é pegajoso!", revela uma delas, aos risos. Outra dá
dicas para aguentar, pois os "presentes valem a pena". Contam detalhes
sórdidos sobre as atitudes de Suas Excelências, mas sem deixar escapar
demais e se queimar no meio. Outra admite: "Eu adoro as festinhas. Vou a
todas".
O colega, homem, em desvantagem na corrida pelas assinaturas,
aproveita a ausência das meninas para revelar segredos: "Aquela ali
mesmo era ninguém aqui. Andava de jeans e camiseta. Hoje posa em cima do
salto e vestidinho brilhante, contratada pelo gabinete de um deputado".
Diz que já viu meninas que ganhavam R$ 3 mil sem nenhum contrato com a
Casa receberem bônus de até R$ 15 mil. "Deputado não mede esforços para
conseguir o que quer, se é que você me entende", conta o rapaz. "Você
não tem vontade de colher assinaturas também? Tem gente aqui que ia
gostar de você", pergunta, no intuito de também ganhar um por fora.
III O ponto das mexericas
São 19 horas de terça-feira. O movimento nos Anexos II e IV da Câmara
aumenta consideravelmente. É hora de bater o ponto. Pessoas chegam com
filhos vindos da escola, vestindo moletom ou roupa de academia, para não
perder as horas extras. As meninas se destacam. Há as que chegam de
chinelo, correndo para não perder o horário, outras com os cabelos
molhados, roupa justa. Entram e não demoram cinco minutos para se
afastar. Têm de ser discretas. As mais espertas entram pela parte de
trás do Anexo IV e pegam carona na parte da frente. Assim, fica mais
difícil desconfiarem da maracutaia.
No dia seguinte, a jovem dos cabelos molhados chega religiosamente no
mesmo horário. Dessa vez um pouco mais calma. Entra, volta poucos
minutos depois e fica sentada no fundo do prédio. Acende um cigarro,
lancha, conversa com um comerciante que fica por ali. Em dia de sessão
extra, é preciso ficar pelo menos até as 20h30 para ganhar um adicional
no fim do mês.
Os motoristas das autoridades as apelidaram de mexericas. Recebem uma
grana, têm crachá, batem ponto e estão na lista de funcionários, mas
trabalho que é bom, nada. A não ser que prestem serviço fora da Casa.
"No Anexo IV é mais fácil burlar, no II o serviço é técnico e tem gente
de olho", diz um funcionário há 15 anos lá.
Um homem apontado como agenciador de garotas aperta os olhos e reduz o
volume da voz para falar: "Cada deputado tem R$ 60 mil para fazer
nomeações. Pode chamar quem quiser, inclusive as amantes. Sai mais
barato pagar uma garota pra não vir trabalhar do que ter gasto dobrado,
não é?" Para ele, bobos são os que se satisfazem com R$ 1 mil mais
transporte e alimentação para virarem laranjas. "Elas, não. Ganham muito
bem, têm status de funcionárias da Casa e nem ficam aqui. Podem
trabalhar por fora." E finaliza: "Tá interessada?"
IV Esforço que compensa
As duas moças têm beleza e grande poder de sedução. Fazem sucesso no
Congresso. A mais famosa é uma loira que já ganhou de jantares
românticos nos restaurantes mais caros da cidade a propostas de programa
com direito a voo de jatinho. Contratada pela Câmara, desfila pelos
corredores com sua beleza estonteante, que deixa até outras mulheres
babando. É concorrente forte.
Apaixonados sem cacife para passar uma noite com a moça dizem que ela
já foi mais humilde. "Cobrava R$ 700, mas, depois de desfilar com o
mais cotado dos parlamentares e o maior fã de garotas de programa, já
pede R$ 1.200 por uma noite." Apesar de trabalhar para outras pessoas,
escolheu seu preferido e costuma passear com ele pelos corredores da
Câmara. Ela é o biótipo de que ele gosta, por isso tem o privilégio de
ser a garota eleita. "Ela é tão encantadora que tem homem sofrendo de
amor, pagando presentes caríssimos para conquistá-la, mas ela prefere o
dinheiro e só satisfaz aqueles dispostos a pagar-lhe", revolta-se um
admirador.
A outra não mediu esforços para fazer contatos no Congresso e
conseguir uma carteira de clientes de respeito e contas bancárias
milionárias. A espertinha conseguiu crachá falso que lhe dava acesso ao
plenário, onde podia fazer, literalmente, o corpo a corpo com os
deputados. Certa vez, armou uma confusão e foi barrada pelos seguranças,
que descobriram a falcatrua do crachá.
E quem disse que isso a impediu de conquistar seu objetivo? Já havia
tido o tempo necessário de fazer "amizade" com parlamentares e garantir
um lugar ao lado deles no elevador de autoridades, onde não importa o
crachá, mas o poder do deputado ou do senador. Segurança algum ousa
levantar a voz para ela. Fez, aconteceu e conseguiu uma vaga no Senado.
Trabalhava no cerimonial, mas foi demitida pelos sucessivos barracos que
aprontava. Foi indicada para trabalhar na Procuradoria-Geral da
República, onde passava apenas para deixar a bolsa e voltar ao Congresso
para dar duro. Bastaram os três meses de experiência para ser demitida e
voltar ao Senado, no emprego em que está até hoje.
E ainda aproveita para fazer propaganda do negócio que mantém fora, com serviços que custam R$ 1.200 por noite.
V A calcinha vermelha
A noite brasiliense é um paraíso para as aventuras de políticos. Os
lugares favoritos são a casa de shows Pathernon, no Setor de Indústrias
Gráficas, e a boate do Hotel Bonaparte, na Asa Sul. Abrigam as jovens
mais bonitas e mais caras e os ambientes mais discretos. Seguranças,
motoristas e assessores figuram como amigos, para que ninguém desconfie
de nada. Elas comem e bebem do bom e do melhor por conta de Suas
Excelências.
"Sempre me alimento melhor quando o cliente é político. Eles querem
mostrar que podem e nisso não economizam." Miriam é encantada por eles.
Na cama da menina de 18 anos, eles se transformam em pessoas carinhosas,
preocupadas, atenciosas: "Está com frio? Eu cuido de você". Se é
governador então, melhor ainda, ela diz. Ela não se esquece do prefeito
mineiro que atendeu durante uma das marchas dos prefeitos. "Ele continua
me ligando, mesmo não estando aqui."
Diz que o dinheiro dos políticos garantirá a ela, em breve, um
apartamento no Sudoeste. Por hora, preocupa-se apenas em se manter
bonita e pagar o aluguel de R$ 2 mil do flat no bairro nobre. Em julho,
nas férias, aceita fazer programa com pessoas de menor poder aquisitivo.
Cobra R$ 400 a hora, dependendo do tipo de trabalho. "É apenas para
manter o meu padrão de vida, mas eu gosto mesmo é quando o Congresso
está funcionando. Ganho muito mais."
Sem os políticos, diz, "as putas da cidade quebram as pernas". Foi
com um deputado nordestino que teve uma de suas noites mais inusitadas.
Achou que a calcinha vermelha rendada que ele tirou do bolso do paletó
era presente para ela. Ainda agradecia quando o deputado deixou-a
boquiaberta: ele se despiu e vestiu a lingerie. "Ele desfilava pelo
quarto como uma lady. Andava na ponta dos pés, sorria, parecia uma
miss."
Enquanto ela sorria discretamente e o elogiava, descobriu que seu
papel naquela madrugada não seria o da menina inocente e sedutora, mas o
do homem da relação. Depois disso, nunca mais o viu.
VI A gaveta das notas de R$ 100
Mesmo recebendo R$ 26 mil por mês, fora verbas indenizatórias, há
parlamentares que pechincham muito ao negociar com as garotas de
programa da cidade.
Viviane, loira de seios naturalmente fartos, não aceitou barganhar
com dois deles, que pediram que ela e a amiga baixassem o preço do
programa no apartamento funcional. "Nunca faria isso. Deveriam é pagar
melhor. Eles roubam dinheiro do povo, incluindo o meu, e não perderia a
oportunidade de tirar uma boa verba deles." Viviane os conheceu em um
famoso restaurante da Asa Sul. A sofisticação dela chamou a atenção dos
dois parlamentares. Ela bebia um uísque Jack Daniel's quando foi
abordada. Disse que sairia com as duas excelências se eles estivessem
dispostos a pagar. Eles aceitaram, mas só reclamaram do preço no
encerramento dos trabalhos.
A loira prefere sair com altos funcionários do governo. Foi com eles
que conheceu uma mansão no Lago Sul, com piso de mármore Carrara e um
quarto com uma gaveta de mais de um metro de comprimento, de onde um dos
clientes tirava notas e mais notas de R$ 100 para impressioná-la. O
grande trunfo da jovem de 24 anos, que chega a ganhar R$ 30 mil por mês,
é um lobista famoso. "Ele tira bolos de dinheiro do bolso para pagar
tudo", conta. Já o viu gastar R$ 2 mil em um jantar para quatro pessoas
em um restaurante.
Viviane ainda não está satisfeita. Quer o contato de uma mulher que
promove festas no Lago Sul para políticos, com a presença de mulheres
famosas e capas de revista, cujos programas saem por, no mínimo R$ 13
mil. "E ainda quero desfilar no Congresso para incrementar minha renda."
VII 19 anos, R$ 25 mil na bolsa
Morena, 1,63 metro, 55 kg, cabelos negros, 400 ml de silicone em cada
seio, 19 anos. É no Pathernon que Rayka mostra o corpo e o talento para
atrair homens. "O segredo é não se atirar. Quem tem dinheiro gosta de
seduzir." Enquanto as colegas partem para cima dos engravatados, ela
joga o charme de longe.
É quando prefeitos, clientes assíduos da casa quando estão na cidade,
não economizam para conseguir uma noite com ela. Cinco meses atrás,
morava em Goiânia e ganhava pouco. Hoje tira R$ 25 mil por mês, fora
presentes, como R$ 4 mil em roupas em um shopping caro da cidade. Tudo
graças aos clientes financeiramente favorecidos, como empresários e
parlamentares, além dos "queridos prefeitos" que pagam até R$ 3 mil para
uma noite com a moça. "Sou a mulher que eles querem que eu seja.
Executiva, moleca, devassa. Eles me pagam para isso." Já fez papel de
namorada, de sobrinha. Para isso, estuda espanhol e inglês. Precisa
estar sempre disposta, social e apresentável para não levantar
suspeitas. Goianos e gaúchos são os mais seduzidos pelos encantos de
Rayka. "Também são os mais exigentes", assegura. Na hora da fantasia,
vale tudo, com pagamento sempre em dinheiro, não importa o valor.
Programa bom é programa ilegal
Garotas de programa circulam abertamente pelo Congresso, mas
deputados e senadores não querem reconhecer a profissão que elas
exercem. Em 2003, o então deputado Fernando Gabeira, do Partido Verde,
apresentou proposta de regulamentação da profissão, com base em
reivindicações de organizações da categoria. Ouviu mulheres que já
haviam abandonado o sexo como trabalho e outras que ainda sobreviviam
disso.
Mas de nada adiantaram os depoimentos dramáticos de mulheres que
sofrem nas mãos de cafetões. Em 2007, o relator na Comissão de
Constituição e Justiça (CCJ), ACM Neto (DEM-BA), deu parecer contrário e
a proposta foi derrotada.
Gabeira afirma que ACM Neto tem uma visão equivocada do projeto,
achando que aprová-lo seria uma afronta à família. "Essas mulheres usam o
corpo para sustentar suas famílias", diz. O ex-deputado pega no ponto:
"É um problema de consciência e contradição no discurso".
O projeto de Gabeira previa fiscalização profissional e, com isso, o
risco ao já ilegal emprego de agenciadores, que fazem a intermediação
entre os parlamentares e as garotas de programa. Gabeira diz que um
grupo de deputados tenta ressuscitar o projeto e colocá-lo em
tramitação. As organizações não governamentais envolvidas no assunto
tentam fazer um movimento em prol do projeto, mas não há nenhuma
garantia de que seguirá adiante.
Já o deputado João Campos (PSDB-GO) pretende acabar com a
prostituição. Apresentou um projeto de lei que criminaliza o pagamento
por serviços sexuais. Outras propostas parecidas já foram apresentadas e
arquivadas, como a do então deputado Elimar Máximo Damasceno, eleito
pelo extinto Prona em São Paulo.