sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

CRÔNICA DO DIA: João Cláudio Moreno na Praça do Imaginário

 

Um Mestre da cultura brasileira. Talvez seja isso. Ou talvez eu esteja exagerando. Cronista também exagera. Mas há artistas que entram em cena pelo aplauso. Outros chegam pelo riso fácil. João Cláudio Moreno, não. Ele chega como quem puxa uma cadeira na calçada, pede licença à memória coletiva e começa a conversar. Conversa com o povo, com o passado, com as vozes que ainda ecoam no rádio de pilha e nas histórias contadas ao pé da rede.  Bastam dois dedos de prosa para percebermos que João Cláudio não interpreta o Nordeste. Ele o escuta primeiro. Depois, devolve em forma de humor, afeto e inteligência.

Nascido no Piauí, esse homem de fala afiada e olhar curioso aprendeu cedo que o riso pode ser uma ferramenta séria. Humorista, apresentador, ator, compositor e imitador de primeira grandeza, João Cláudio construiu sua carreira sem gritar para ser ouvido. Prefere a sutileza, o detalhe, o gesto pequeno que diz muito. Seu humor não humilha, não empurra, não atropela. Ele convida. E quem entra no convite dificilmente sai ileso do encantamento coletivo provocado por sua arte.

Foi numa dessas noites quentes, em que a lua parece cochichar segredos antigos, que João Cláudio resolveu atravessar a fronteira invisível entre o palco e o imaginário popular. Sentou-se numa praça de Piripiri, dessas que têm coreto, poste antigo e cheiro de café passado, quando ouviu o som conhecido de uma sanfona. Não precisou perguntar quem era. Luiz Gonzaga apareceu como quem nunca foi embora.


O Caldeirão parecia que ia ferver com a aparição. Era nessa efervescência identitária que João Cláudio Moreno busca inspiração para suas criações.

O Rei do Baião ajeitou o chapéu, sorriu de canto e disse:
- Oxente, João, tu ainda anda espalhando riso por aí?

João Cláudio respondeu com respeito e travessura:
- Espalho, mestre. Aprendi foi com o senhor. O riso também pode dançar.

Gonzaga riu alto, um riso de couro e sol, e a sanfona pareceu concordar. Falou da importância de não esquecer o chão, de carregar o Nordeste no peito sem transformar cultura em caricatura. João Cláudio ouviu atento. Ele sempre ouve. Seu talento maior talvez seja esse: saber escutar antes de imitar, compreender antes de representar.

A conversa foi interrompida por uma gargalhada poderosa que atravessou a praça como um tamborim bem marcado.  Começa agora o grande encontro. Alcione chegou cantando, com a voz que parece trazer junto todas as dores e alegrias do povo.

Olhou para João Cláudio e disse:
- Meu filho, humor sem verdade não sustenta samba nenhum.

Ele concordou com um aceno humilde. Lembrou quando a entrevistou tentando expressar os laços existentes entre o Piauí e o Maranhão.

            Alcione falou de palco, de responsabilidade artística, de como o artista precisa ter bom senso para não ferir aquilo que diz amar. João Cláudio respondeu contando histórias, imitando vozes, mas sempre com carinho. Seu humor jamais atravessa a linha do desrespeito. Ele sabe que a cultura nordestina não é figurino. É pele.

Quando a noite já parecia completa, um silêncio estranho tomou conta da praça. Talvez das águas escuras de algum rio, surgiu a figura torta e mítica do Cabeça de Cuia, personagem do imaginário piauiense, metade medo, metade lenda, inteiro símbolo. João Cláudio não recuou. Olhou nos olhos da criatura e, com naturalidade, puxou conversa.

- Tu não cansa de ser só assombração? - Perguntou.

A lenda , pego de surpresa, respondeu com voz cansada:
- Canso. Mas alguém precisa lembrar as histórias.

Sempre achei que o Cabeça de Cuia fosse parte do inconsciente coletivo do povo nordestino. Foi ali que João Cláudio mostrou sua maior virtude. Transformou o medo em riso, a lenda em reflexão. Fez do Cabeça de Cuia não apenas um susto folclórico, mas um personagem humano, cheio de contradições. Tais como os meninos e meninas que entre pés de tucuns vivem uma aventura além das matas e caatingas.

Confesso que o humor virou ponte. A gargalhada virou memória preservada.

Entre Gonzaga, Alcione e o Cabeça de Cuia e tantos outros personagens da alma coletiva brasileira, João Cláudio Moreno seguiu costurando falas, vozes e gestos com a habilidade de quem conhece o peso da palavra. Seu talento de imitador não está apenas na precisão vocal, mas no respeito à essência de cada personagem. Ele não copia. Ele interpreta com alma.

Quando a madrugada chegou, a praça voltou ao silêncio. Não o silencio da inocência, mas o silêncio que traz a fala coletiva do povo.

João Cláudio levantou-se, sacudiu a poeira imaginária da roupa e seguiu caminho. Levava consigo mais histórias para contar e a certeza de que humor, quando feito com bom senso artístico, não envelhece. Vira patrimônio.

E talvez seja por isso eu veja em João Cláudio Moreno alguém que permanece. Porque, enquanto muitos fazem rir por um instante, ele faz sorrir com memória, identidade e verdade. Um cronista do riso nordestino que entende que gargalhar também é um ato de pertencimento.


José Casanova
Professor, Jornalista, Escritor e Crônista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Acedemia Mundial de Letras da Humanidade
Tutor da Academia Maranhense de Letras Infantojuvenil

 

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