Um Mestre da cultura brasileira. Talvez seja isso. Ou talvez
eu esteja exagerando. Cronista também exagera. Mas há artistas que entram em
cena pelo aplauso. Outros chegam pelo riso fácil. João Cláudio Moreno, não. Ele
chega como quem puxa uma cadeira na calçada, pede licença à memória coletiva e
começa a conversar. Conversa com o povo, com o passado, com as vozes que ainda
ecoam no rádio de pilha e nas histórias contadas ao pé da rede. Bastam dois dedos de prosa para percebermos
que João Cláudio não interpreta o Nordeste. Ele o escuta primeiro. Depois,
devolve em forma de humor, afeto e inteligência.
Nascido no Piauí, esse homem de
fala afiada e olhar curioso aprendeu cedo que o riso pode ser uma ferramenta
séria. Humorista, apresentador, ator, compositor e imitador de primeira
grandeza, João Cláudio construiu sua carreira sem gritar para ser ouvido.
Prefere a sutileza, o detalhe, o gesto pequeno que diz muito. Seu humor não
humilha, não empurra, não atropela. Ele convida. E quem entra no convite
dificilmente sai ileso do encantamento coletivo provocado por sua arte.
Foi numa dessas noites quentes,
em que a lua parece cochichar segredos antigos, que João Cláudio resolveu
atravessar a fronteira invisível entre o palco e o imaginário popular.
Sentou-se numa praça de Piripiri, dessas que têm coreto, poste antigo e cheiro
de café passado, quando ouviu o som conhecido de uma sanfona. Não precisou
perguntar quem era. Luiz Gonzaga apareceu como quem nunca foi embora.
O Caldeirão parecia que ia ferver com a aparição. Era nessa efervescência
identitária que João Cláudio Moreno busca inspiração para suas criações.
O Rei do Baião ajeitou o chapéu, sorriu
de canto e disse:
- Oxente, João, tu ainda anda espalhando riso por aí?
João Cláudio respondeu com respeito e
travessura:
- Espalho, mestre. Aprendi foi com o senhor. O riso também pode dançar.
Gonzaga riu alto, um riso de
couro e sol, e a sanfona pareceu concordar. Falou da importância de não
esquecer o chão, de carregar o Nordeste no peito sem transformar cultura em
caricatura. João Cláudio ouviu atento. Ele sempre ouve. Seu talento maior
talvez seja esse: saber escutar antes de imitar, compreender antes de
representar.
A conversa foi interrompida por
uma gargalhada poderosa que atravessou a praça como um tamborim bem marcado. Começa agora o grande encontro. Alcione chegou
cantando, com a voz que parece trazer junto todas as dores e alegrias do povo.
Olhou para João Cláudio e disse:
- Meu filho, humor sem verdade não sustenta samba nenhum.
Ele concordou com um aceno
humilde. Lembrou quando a entrevistou tentando expressar os laços existentes entre
o Piauí e o Maranhão.
Alcione
falou de palco, de responsabilidade artística, de como o artista precisa ter
bom senso para não ferir aquilo que diz amar. João Cláudio respondeu contando
histórias, imitando vozes, mas sempre com carinho. Seu humor jamais atravessa a
linha do desrespeito. Ele sabe que a cultura nordestina não é figurino. É pele.
Quando a noite já parecia completa,
um silêncio estranho tomou conta da praça. Talvez das águas escuras de algum
rio, surgiu a figura torta e mítica do Cabeça de Cuia, personagem do imaginário
piauiense, metade medo, metade lenda, inteiro símbolo. João Cláudio não recuou.
Olhou nos olhos da criatura e, com naturalidade, puxou conversa.
- Tu não cansa de ser só
assombração? - Perguntou.
A lenda , pego de surpresa, respondeu
com voz cansada:
- Canso. Mas alguém precisa lembrar as histórias.
Sempre achei que o Cabeça de Cuia fosse parte do inconsciente
coletivo do povo nordestino. Foi ali que João Cláudio mostrou sua maior virtude.
Transformou o medo em riso, a lenda em reflexão. Fez do Cabeça de Cuia não
apenas um susto folclórico, mas um personagem humano, cheio de contradições.
Tais como os meninos e meninas que entre pés de tucuns vivem uma aventura além
das matas e caatingas.
Confesso que o humor virou ponte. A gargalhada virou memória
preservada.
Entre Gonzaga, Alcione e o
Cabeça de Cuia e tantos outros personagens da alma coletiva brasileira, João
Cláudio Moreno seguiu costurando falas, vozes e gestos com a habilidade de quem
conhece o peso da palavra. Seu talento de imitador não está apenas na precisão
vocal, mas no respeito à essência de cada personagem. Ele não copia. Ele
interpreta com alma.
Quando a madrugada chegou, a
praça voltou ao silêncio. Não o silencio da inocência, mas o silêncio que traz
a fala coletiva do povo.
João Cláudio levantou-se, sacudiu a poeira imaginária da
roupa e seguiu caminho. Levava consigo mais histórias para contar e a certeza
de que humor, quando feito com bom senso artístico, não envelhece. Vira
patrimônio.
E talvez seja por isso eu veja em
João Cláudio Moreno alguém que permanece. Porque, enquanto muitos fazem rir por
um instante, ele faz sorrir com memória, identidade e verdade. Um cronista do
riso nordestino que entende que gargalhar também é um ato de pertencimento.
Professor, Jornalista, Escritor e Crônista
Membro da Academia Bacabalense de Letras
Acedemia Mundial de Letras da Humanidade
Tutor da Academia Maranhense de Letras Infantojuvenil






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