Diário do Mearim Cidadania

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segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Viúva de José Saramago fala ao Correio sobre livro inacabado do marido





O novo romance do escritor português José Saramago chegou às livrarias brasileiras, em setembro, com um alarde a mais além do título, que destaca em letras vermelhas trecho extraído da obra Exortação da guerra, de Gil Vicente: Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas!. Acontece que Saramago morreu antes mesmo de concluir a história. A publicação do livro causou celeuma entre os críticos. Segundo eles, dificilmente o autor publicaria algo antes da finalização. A viúva do mestre, Pilar del Río, no entanto, afirma que se trata de uma obra acabada. Ela diz que Saramago finalizou as páginas, embora não tenha conseguido terminar o romance em si. A edição contém notas do autor com descrições dos passos da construção da narrativa, ideias, detalhes e dúvidas a respeito do título.

Antes de acabar o romance, Saramago, no entanto, sabia bem como terminaria. “Creio que poderemos vir a ter um livro. O primeiro capítulo, refundido, não reescrito, saiu bem, apontando já algumas vias para a tal história ‘humana’. Os caracteres de Felícia e do marido aparecem bastante definidos. O livro terminará com um sonoro ‘Vá à merda’, proferido por ela. Um remate exemplar”, escreveu Saramago em uma das notas que compõem a publicação.

A história não terminou como Saramago previu. Aliás, não terminou. Faltou, inclusive, um ponto final — o que deixa o texto tão aberto, que o crítico português Alberto Gonçalves sugere que Alabardas inaugura um novo gênero, o de romances “praticamente por começar” e conclui: “Meia dúzia de críticos hão de considerar estarmos perante um momento de ruptura na cultura universal”. No entanto, o estilo consagrado do polêmico escritor acaba se destacando, como sempre ocorreu antes mesmo da publicação de seus livros. O debate acerca da temática das obras começava logo no anúncio de lançamento de um romance.

“Num certo sentido, Alabardas consagra de fato o estilo do Nobel, que em vida fazia questão de anunciar, ele próprio, o caráter polêmico de cada livro antes mesmo de o livro chegar ao público. Devido a condicionantes óbvias (a morte do autor), agora o anúncio da polêmica ficou a cargo de terceiros, mas o processo é idêntico e com uma vantagem: se o hábito consiste em privilegiar a algazarra em detrimento do conteúdo, desta vez o conteúdo quase não existe e a algazarra abunda. Saramago vintage, de fato. E, desde que ignoremos os pechisbeques anexos, a minha obra preferida dele. As outras não se liam em horas. Conto não ler esta em 20 minutos”, diz o crítico.


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