Diário do Mearim Cidadania

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terça-feira, 23 de agosto de 2016

Crônica do Dia:Qualira a escabeche


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Estou aqui a passar saborosamente a língua no Maranhão. Das águas pardas do Mearim aos mistérios da Ilha do Amor; o que me fascina são os falares do povo em seus diferentes sotaques e sabores que me deixam encabulado. Dizem que a vida do escritor é marocá a vida alheia, isso me dá uma arrilia  com vontade de dále um bogue no primeiro abestado que me vem com essa história.
Lembro bem dos meus tempos de minino, lá pelos meus 17  ou 18 anos, quando ficava invocado comigo próprio, pegava minha bicicleta e saia zilado lá por mufumbo, a rua dos prazeres, atrás de uma nigrinha para queimar incenso no altar de Vênus. Hen-heim... Tempo bom aquele em que se podia viver na bagaceira com segurança, hoje se você for bem aí na praça de Santa Terezinha, se lasca todinho pois os meninos sabidos botam é pra escatitar, são cão chupando manga, É o preço do progresso.
Nos finais de semana colocava uma roupa nova e ia pra beira rio escritinho um artista de novela, lembro de Luzanira, musa da união artística e operária bacabalense que dizia:
_ Éguaaasss Zezinho! Tá bunito como quê!
Eu ria desconfiado e tímido. Queria mesmo encontrar meus parceiros, tentar entrar de graça no Cassino da Urca, curtir as pedras naquela época tinha outro sentido. Saíamos da festa urrando de fome. Era comum  “encostar” brocado, em alguma banca pra traçar uma panelada com farinha e molho de pimenta. Defronte das bancas,  as vezes dava uma cascaria, era o maior furdunço. Tinha gente que nessas horas falava mais que a nêga do leite, se estivesse no banheiro eu sempre corria com o riri da calça aberto, nem terminava de rangar.
Esses fatos me fazem lembrar o Jornalista Elbio Carvalho com sua cara de anjo barroco que fez dieta, foi ele que sistematizou o que sei sobre jornalismo. A equipe de uma conceituada televisão recebeu um repórter global para uma capacitação.  O nobre jornalista global sempre ouvira falar da exótica culinária maranhense, provou o arroz de cuxá, mas queria experimentar algo picante, não é que a galera da Ilha resolveram fazer uma fuleragem com o rapaz, e disseram:
_ Piqueno, vai lá no Centro Histórico, e pede um dos mais exóticos pratos maranhenses, o qualira! Tú vai gostar muuuiito....
_É mesmo? – Indagou o carioca curioso. – o que é mesmo um qualira?
_ Vai, come que tu vai gostar...
Logo mais à noite o global repórter foi ao reviver apreciar o movimento, sentir o cheiro das pessoas, viver a maranhensidade. Bumba-meu-boi em seus diversos sotaques, a magia discreta do tambor de crioula, a sensualidade do cacuriá de dona Teté a ginga da capoeira, a sensibilidade transcendental dos nossos poetas. Uma dose de catuaba para desopilar o espírito, etc e tal..., mas ficou brocado e recebeu sentar no melhor restaurante da área para comer alguma coisa:
_ Garçom, por gentileza!
_Pois não – Respondeu prestativo o garçom.
_ Gostaria de comer alguma coisa
_ Temos peixe a escabeche...
­                _Eu quero comer um qualira. – Disse o jornalista cortando a fala do garçom
_Como meu senhor?
_Eu quero comer um qualira. – Respondeu o turista em alto e bom som a chamar atenção da mesa ao lado.
Risos...
Uma voz solta uma pérola do fundo do restaurante:
_ Serve pra ele um qualira a escabeche!...
Risos... Risos... Risos...O turista ficou desconfiado que fez alguma besteira.
_Marrapá! – Falou o  garçom – Te sai de boca, não somos homofobicos, mas aqui nos terreiros do mará, qualira é o que mais tem, tu que sabe se troca uma pequena nigrinha por um qualira...
O Turista olhou ao redor e viu vários qualiras, a ficha caiu e compreendeu o  mingué em que acreditou. O cheiro de peixe vinha da mesa ao lado. Degustou com os olhos e falou:
_ Traga um, a escabeche!...
Maranhês, Eita língua! Agora é tarde, morreu Maria Preá.

                                                                                          Zezinho Casanova

Veja no Link acima um pequeno dicionário de  Maranhês.

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